O Ministro tem razão !

Publicado por: MilkPoint

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Marcello de Moura Campos Filho1

Reportagem de Ana Conceição e Gustavo Porto para O Estado de São Paulo, mostra que durante o Agrishow em Ribeirão Preto, o Ministro da Agricultura, Roberto Rodrigues, fez duras críticas à falta de organização de setores agrícolas brasileiros, de forma que a pressão política dos agricultores, diferentemente do que ocorre nos Estados Unidos, Japão e Europa, não corresponde ao peso que a atividade tem nos aspectos sociais e econômicos.

Com relação ao café, disse que nunca viu tanta incapacidade para apresentar uma política única. No setor sucroalcooleiro aponta que não há um programa para o álcool, que é estratégico para o País, e não é possível que o combustível fique sujeito ao lucro e à opção pela produção de açúcar na hora que for mais conveniente, Roberto Rodrigues citou ainda a cadeia milho-sorgo-aves-suínos para exemplificar a falta de organização: "quando o milho estava barato, os produtores de aves e suínos não se importaram. O produtor de milho abandonou o produto e hoje as aves e suínos não tem o que comer". O Governo através do Moderfrota incentivou a modernização e os preços de tratores e máquinas agrícolas dispararam. Não tem cabimento ainda os aumentos nos preços dos fertilizantes nos últimos dois anos. Vamos usar o bom senso, finalizou.

O Ministro tem razão. Quero aproveitar a deixa e fazer alguns comentários para o agronegócio do leite, que não foi abordado por Rodrigues nessa ocasião.

Reportagem de Márcia de Chiara de 28 de abril para O Estado de São Paulo, mostra que os grandes supermercados informaram que a pressão dos preços persiste nas últimas semanas, apesar do recuo do dólar para o nível de R$ 3,00. Sussumu Honda, da Associação Paulista de Supermercados declarou que esperava que o repasse efetivo da queda do dólar deveria ocorrer dentro de 40 dias, e para Heron de Camargo, coordenador do IPC-Fipe, o impacto será sentido na metade do ano.

Não posso falar para outros produtos, mas com certeza esse não é o caso do leite, que mal começou uma entresafra que deverá durar até setembro.

Na região sudeste e sul do País, responsáveis pela maior parte da produção nacional, os custos da alimentação do gado normalmente sobem para o produtor sob, pois é necessário usar alimentos preparados no verão, na maioria dos casos silagem de milho e sorgo. Para o alimento que vai ser usado nessa entressafra, o custo será muito maior que o normal, pois o produtor comprou sementes, fertilizantes, óleo diesel para o preparo dessa silagem com o dólar variando entre R$ 3,50 e R$ 3,80. Esses insumos, que representam a maior parte do custo da silagem, refletem diretamente o preço do dólar, já foram preparados e estão estocados, e a queda do dólar agora não os tornará mais baratos !

Por outro lado alimentos concentrados, como o milho e a soja, que normalmente eram usados na alimentação do gado leiteiro, subiram muito. O milho, que o agricultor abandonou em função do baixo preço, pela falta do produto nacional, subiu tanto que, como o Ministro enfatizou, afetou a alimentação de aves e suínos. E nós lembramos que afetou a alimentação das vacas de leite também. E a soja, que em janeiro de 2002 estava no mercado em torno de US$ 420,00 por bushel, em 25 de abril passado estava cotada a US$ 601,50 por bushel, de acordo com informação da Gazeta Mercantil, representando um aumento de 43%. O dólar, mesmo caindo para o nível de R$ 3,00, está sensivelmente acima da cotação de janeiro de 2002, o que significa que para o produtor de leite, em reais, esse aumento foi ainda maior.

Obviamente o produtor de leite procurou alimentos alternativos, mais baratos. Mas a corrida por esses alimentos alternativos fez os preços subirem assustadoramente. A polpa de laranja, que no início da safra o produtor de leite, posta na fazenda, saia em torno de R$ 200,00 por tonelada, agora no final da safra praticamente dobrou de preço, chegando a cerca de R$ 400,00 por tonelada. A mandioca, que normalmente se comprava em torno de R$ 60,00 a tonelada, dobrou de preço, passando para R$ 120,00 por tonelada, e agora já se fala em R$ 180,00 por tonelada !

Independentemente do valor do dólar, não faz o menor sentido baixar o preço ao produtor dos níveis que está recebendo, pelo menos até meados de outubro, quando com a chegada das chuvas e do calor, as pastagens deverão voltar a produzir massa verde em quantidade que permita ao produtor reduzir o custo de alimentação das vacas. E se outubro e novembro forem secos como o ano passado, essa queda de custo na alimentação do gado de leite só poderá ocorrer a partir de janeiro de 2003.

Uma política equivocada dos grandes supermercados e da indústria de laticínios, alegando um excesso de oferta que na realidade não houve, forçou no ano passado uma queda dos preços pagos ao produtor em plena entresafra. O resultado não podia ser outro: produtores desestimulados, uns deixando a atividade, outros reduzindo a produção, de forma que de 2002 para 2003 houve queda na produção nacional. A falta de leite provocou a partir de janeiro desse ano, em plena safra, uma recuperação nos preços ao produtor.

Mas em geral, na média, a recuperação ainda não foi suficiente para cobrir as perdas que teve. Por isso, o produtor de leite espera que, nessa entresafra que mal começou, ainda haja algum aumento nos preços que recebe.

O Ministro tem razão, é preciso bom senso ! Esperemos que os supermercados e a indústria de laticínios tenham bom senso, e na preocupação de assegurar seus lucros, não repitam os mesmos erros de usar da sua força de oligopólios compradores de leite, para forçar os preços aos produtores para baixo, quando não existe a menor condição dos produtores absorverem essas reduções.

Mas se o bom senso não prevalecer, é preciso que o Governo "ilumine" esses segmentos do agronegócio, para que eles entendam a gravidade da situação.

Se os preços, ao invés de ainda subirem um pouco nessa entressafra, como esperam os produtores, caírem como na entressafra passada, o desistímulo dos produtores será tão grande, que a oferta do produto nacional em 2004 se reduzirá ainda mais.

E com isso se perderão os avanços dos últimos anos, condenando o Brasil a ser um significativo importador de leite e lácteos, como se viu nas últimas décadas. E com isso se perderão desnecessáriamente muitas divisas, deixarão de serem gerados milhares de postos de trabalho no campo, estará se prejudicando o combate à fome no País e aumentando a geração da violência urbana. Vale lembra o que citou Paulo do Carmo Martins, da EMBRAPA, em recente artigo veiculado nesse site: a cada R$ 5.081,00 de leite importado deixa-se de gerar um emprego permanente no Brasil por um ano !

Nos EUA é muito clara a preocupação do governo com seus produtores de leite: o governo atua no mercado para evitar o aviltamento do preço ao produtor, e, num momento de crise, toma medidas para socorrê-lo.

Em recente artigo comentamos que isso deveria servir de exemplo ao governo brasileiro, que ao longo dos anos tem abandonado os produtores de leite à sua própria sorte, deixando-os a mercê da indústria de laticínios, e das imposições das grandes redes de varejo, que caracterizam oligopólios compradores de leite e lácteos, que aviltam os preços ameaçando com importações. Por isso, nesse artigo, alertamos o Presidente Lula e o Ministro Roberto Rodrigues, que o mínimo que o governo brasileiro pode fazer para os produtores nacionais é garantir que não se importe leite ou lácteos sem taxas efetivamente compensatórias para os subsídios e para a pratica de dumping.

O Ministro também está coberto de razão quando critica a organização e a atuação política de maioria dos setores do agronegócio, que não está a altura do peso que a atividade tem sob os aspectos econômicos e sociais para o País.

No caso dos produtores de leite a realidade é que são numerosos, talvez da ordem de 1,8 milhão de produtores, mas completamente desarticulados, sem poder de negociação comercial, sem quase nenhuma capacidade de mobilização e de exercer pressão política.

Em sua recente tese, onde analisa a competitividade e eficiência do sistema agro industrial do leite, Paulo de Carmo Martins, da EMBRAPA, apresenta pesquisa que evidencia que 62% dos produtores de leite desconhecem suas entidades de representação ou o trabalho que elas fazem em prol dos produtores de leite, e que 33% não acredita que nenhum entidade represente seus interesses.

Isso revela que as entidades de representação estão distantes das suas bases, o que naturalmente enfraquece sua atuação e reduz sua capacidade de exercer poder político. E mostra que no caso dos produtores de leite, o Ministro acertou em cheio na sua crítica.

São Paulo é o estado que talvez tenha sofrido os efeitos do distanciamento das entidades da base dos produtores de leite, minguando a força política da pecuária de leite paulista, o que acabou levando o Estado a cair da posição de segundo produtor nacional que ocupava em 1996, para a 5ª posição, e ameaçado, se não for revertido o quadro, de sua produção cair para cerca de 1 bilhão de litros por ano, o que levará a perder a 6ª posição para Santa Catarina. A Associação dos Produtores do Estado de São Paulo - Leite São Paulo, foi fundada em março de 2002, com Diretorias Regionais nas principais bacias leiteiras, para estar junto à base dos produtores e colaborar na sua articulação e mobilização dos mesmos, trabalhando para reverter o declínio da pecuária de leite paulista. E faz parte desse trabalho da Leite São Paulo colaborar para o fortalecimento de nossos sindicatos, cooperativas e da FAESP, bem como com entidades de representação nacional.

O Ministro está certo e nos alertou da necessidade de fortalecer nossa organização e de ganharmos peso político. De nada adiantará esse alerta se os produtores não se filiarem, e principalmente participarem das suas entidades de representação. Mas para isso acontecer é necessário que as entidades tenham efetiva atuação regional, criando os canais para que as bases possam se articular e se mobilizar. A sua parte a Leite São Paulo está fazendo, com as Diretorias Regionais nas principais bacias paulistas, para que a base dos produtores de leite de nosso Estado possa participar da entidade e definir seus rumos, e dispor de um canal para sua articulação e mobilização na defesa dos seus legítimos interesses.
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1 Marcello de Moura Campos Filho, Presidente da Leite São Paulo
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Edson Geraldo Ribeiro dos Santos
EDSON GERALDO RIBEIRO DOS SANTOS

SETE LAGOAS - MINAS GERAIS - INDÚSTRIA DE LATICÍNIOS

EM 08/06/2003

A observação do Ministro cai como um "puxão" de orelha sobre nós produtores, mas ele tem toda razão! Um exemplo disso é a briga por poder político que vem acontecendo aqui em Minas Gerais entre a FAEMG e Associação de Produtores de Leite. Enquanto eles brigam, a vaca vai literalmente para o ... matadouro!
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