O leite na Oceania: o que poderíamos aprender com eles

Austrália e Nova Zelândia estão ampliando o comércio com a Ásia, valorizando um mercado com 2,4 bilhões de pessoas, o que corresponde a 40% da população mundial.

Publicado em: - 6 minutos de leitura

Ícone para ver comentários 2
Ícone para curtir artigo 0

O mercado internacional de lácteos nos mostra números interessantes: Aproximadamente 6% da produção mundial (27 bilhões de litros de leite por ano) é comercializada. Os vinte países maiores importadores respondem por 65% do mercado e os sete maiores exportadores possuem 66%. Os vinte países maiores produtores, detêm 74% desse mercado. Somente a Austrália e a Nova Zelândia respondem por 50% das exportações.

Austrália e Nova Zelândia estão ampliando o comércio com a Ásia, valorizando um mercado com 2,4 bilhões de pessoas, o que corresponde a 40% da população mundial. Um exemplo: a Fonterra (cooperativa da Nova Zelândia), está abrindo escritórios no Afeganistão/Filipinas/Paquistão/Japão e China, fornecendo leite a preços muito competitivos (R$ 0,34 a R$ 0,36 o litro). Isso só é possível devido ao modelo de produção a pasto adotado naquele país, o que se traduz em baixos custos de produção.

Um dado interessante que se tem observado nos últimos 25 anos é a forte tendência da produção e do consumo crescerem mais nos países em desenvolvimento do que nos demais. Neste contexto, o Brasil poderá levar grande vantagem. Primeiro, pelo potencial de crescimento horizontal da sua produção. O País possui mais de 90 milhões de hectares a serem explorados de forma sustentável. Segundo, pelo crescimento da produtividade, uma vez que na última década as universidades e centros de pesquisa nacionais acumularam um grande estoque de tecnologias.

O que falta para o País é uma definição clara de que rumo tomar em relação aos futuros sistemas de produção de leite. O fato do Brasil produzir leite em 27 Estados da Federação, além do Distrito Federal, envolvendo mais de quatro mil municípios no processo, dificulta em muito essa definição. As instituições de pesquisa têm um papel importante a cumprir. É necessário termos uma avaliação urgente das áreas de maior grau de risco para a atividade leiteira; precisamos definir, com mais clareza, quais as raças recomendar em função dessas áreas. Devemos ter bem claro quais os tipos de forrageiras deveremos recomendar para cobrir nossos solos dada a nossa vocação natural para produzir leite a pasto. Por fim, é necessário redefinir o manejo do rebanho, no intuito de otimizar o uso da mão-de-obra, das máquinas e dos insumos utilizados, tendo em vista reduzir custos de produção.

Façamos um panorama do setor lácteo na Nova Zelândia: a indústria de lácteos integra produtores e exportadores de produtos lácteos de alta qualidade, manufaturados a partir de leite produzido a baixo custo, principalmente provenientes de pastagens. São utilizadas 3,3 milhões de vacas para aproveitar 12 milhões de toneladas de matéria seca de forragens procedente de pastos nos 3,3 milhões de hectares distribuídos em 13.900 propriedades, que produzem anualmente 12,3 bilhões de litros de leite, dos quais 93% são exportados.

O valor do litro de leite é de R$ 0,54 a R$ 0,60 o litro, com 4,7% de gordura e 3,6% de proteína e é considerado relativamente baixo quando comparado com o custo do concentrado R$ 0,60 a 1,00/Kg, que são raramente fornecidos às vacas leiteiras. Entretanto, de 2000 a 2002, o valor do litro de leite era de R$ 80 c/ litro. A relação preço do leite e preço do concentrado somente é considerada interessante a partir 1,5:1.

A indústria de lácteos neozelandesa é baseada num sistema de cooperativas estritamente integradas, totalmente cooperativo, com foco num simples objetivo que é maximizar o retorno financeiro para os fazendeiros. Noventa e três por cento do leite é manufaturado e exportado em uma larga variedade de produtos, sem subsídios ou incentivos à exportação, a preços internacionais.

A maioria do leite é produzido a pasto por vacas predominantemente da raça Holandesa e com partos programados para a primavera, sincronizados com o crescimento do pasto, embora parte do pasto seja conservado e algum suplemento seja fornecido. Neste aspecto há uma grande semelhança com os sistemas na Austrália, exceto quanto à suplementação com concentrado, que a Nova Zelândia praticamente não utiliza. Quanto à sazonalidade na produção de leite, ou seja, a concentração da produção no pico de produção das pastagens, na Austrália é em torno de 60% e na Nova Zelândia 95%.

Cerca de 25% das propriedades leiteiras na Nova Zelândia operam em sistema de parceria "50% sharemilking system", no qual o proprietário entra com as terras e as instalações e o parceiro entra com os animais e a mão-de-obra.

A seguir descreveremos os pontos fortes e fracos do sistema neozelandês de produção de leite segundo o professor Colim Holmes, um dos grandes especialistas em produção de leite da Massey University:

Pontos fortes:
 

  • A habilidade de produzir leite a baixo custo em pastagem, pelo baixo custo do alimento, das instalações, distribuição de efluentes e máquinas e alta produtividade da mão-de-obra, priorizando a automação da atividade por meio de medidas simples e eficazes.



  • Uma estrutura totalmente integrada e coordenada envolvendo a indústria com foco na otimização dos retornos para o produtor.



  • Preocupação constante com a saúde animal, fertilidade, vacas com alto valor genético com progênie proveniente da Nova Zelândia.



  • Sistema sazonal de produção permite férias a todos e com foco em um trabalho em uma época.



  • Um sistema de parcerias muito eficiente.



  • Atitude pró-ativa da indústria, integrada e com foco na produção e no comércio exterior de produtos lucrativos.



  • Distante de outros rebanhos.

Pontos fracos:

 

 

  • Totalmente dependentes dos preços de mercado mundial.



  • Dependente do clima e da disponibilidade de forragens nas pastagens.



  • Enorme variação entre anos na produção e lucratividade.



  • Períodos de concentração de trabalho pesado e outros de ociosidade, tanto para os fazendeiros, quanto para a indústria.



  • Os sistemas de produção sazonais proporcionam lactações curtas e menor produção por vaca.



  • Existem poucas alternativas de alimentos de alta qualidade, além do pasto, que sejam de baixo custo.



  • Alto preço das terras.



  • Grande distância dos mercados compradores.

Austrália e Nova Zelândia, com a extrema profissionalização da pecuária de leite que lhes é característica, têm muito a ensinar ao Brasil. Em recente viagem de uma comitiva brasileira à Oceania, a convite da Australia Dairy Corporation, pontos relevantes foram levantados que, acredito, poderão ser vantajosos para os sistemas de produção de leite no Brasil. Veja alguns desses pontos:

 

 

 

 

  • Como o grão é muito caro, o pasto é otimizado preparando silagem de capim com o excedente da pastagem e esta fornecida preferencialmente a novilhas e vacas secas.



  • Há uma preocupação constante em reduzir a mão-de-obra. Da limpeza dos estábulos ao aleitamento dos bezerros, quase todo o trabalho é automatizado.



  • O pagamento por sólidos do leite, principalmente gordura e proteína, é uma realidade.



  • Daí, os cruzamentos serem direcionados para e o aumento dos teores de gordura e proteína.



  • Nos testes de progênie não é valorizado volume de leite e peso vivo do animal.



  • O colostro é utilizado como produto cosmecêutico e nutricêutico (confecção de cosméticos e pílulas para o sistema digestivo). Essa é uma forma de agregar renda à atividade leiteira. Os produtores vendem o colostro pelo equivalente a R$ 2,40 o litro. Ainda visando agregar renda, a utilização de bezerros para vitelos que serão consumidos principalmente no mercado europeu.



  • Os produtores adotam um sistema eficiente de parceria: um entra com a terra, benfeitorias e fertilizantes e o outro com as vacas e a mão-de-obra.



  • A produção de silagem de milho e a recria de novilhas são comumente terceirizadas.



  • Os carreadores, por onde circulam os animais no sentido pasto/ordenha/pasto, são abaulados e recebem três camadas de brita e uma de terra para não formar barro. Eles são isolados com cercas elétricas.



  • Há uma estrutura integrada envolvendo a indústria (lê-se cooperativa) com foco na otimização dos retornos para o produtor.



  • O tanque de expansão é revestido com isolante térmico e deixado ao tempo, economizando na construção de galpões.
Ícone para ver comentários 2
Ícone para curtir artigo 0

Material escrito por:

Deixe sua opinião!

Foto do usuário

Todos os comentários são moderados pela equipe MilkPoint, e as opiniões aqui expressas são de responsabilidade exclusiva dos leitores. Contamos com sua colaboração.

Eduardo Kashiwagi
EDUARDO KASHIWAGI

LORENA - SÃO PAULO - PRODUÇÃO DE LEITE

EM 06/10/2003

Há muito o que aprender com o leite na Oceania, a começar por não copiar, mas tentar aprender a filosofia, a maneira de pensar. O ponto de partida para toda a produção de leite na Nova Zelândia é o preço recebido pelo leite. Desde a produção sazonal, até a quantidade de bezerras criadas para reposição e o uso ou não de subprodutos vem variando de acordo com o preço recebido pelo leite.

Nos pontos fracos do sistema citados no artigo, por acaso algum outro sistema no Brasil ou mesmo na Nova Zelândia resolve esses pontos?

Todos somos dependentes do mercado mundial. Todos dependemos do clima e disponibilidade do alimento. A variação entre produção e lucratividade é enorme, mas dificilmente com prejuízo, como possivelmente ocorre em sistemas com altos investimentos. Os sistemas de produção sazonais aumentam a produtividade e a eficiência, descanso para planejar e produzir mais no próximo ano, em sistemas não sazonais não há foco e a concentração de trabalho é constante. As lactações são curtas mas muito eficientes. Se lá existem poucas alternativas de alimentos de alta qualidade, por aqui não existem esses alimentos.

A realidade é que o potencial para produção de leite a pasto no Brasil é imenso, há diferenças gritantes em relação a tipo de pasto, ambiente e cultura, mas temos que nos espelhar em um país com semelhanças conosco e não em países que recebe altos subsídios e não tem quase nada de semelhante com a nossa realidade.
Jose Simas
JOSE SIMAS

PROFISSIONAIS DE CIÊNCIAS AGRÁRIAS

EM 05/09/2003

Os meus comentários a este artigo são baseados em interação com técnicos e produtores de ambos os países mencionados nos últimos 2 anos.

O "não" uso da suplementação na Nova Zelândia não é a causa do sucesso do modelo de produção, mas sim uma conseqüência do preço dos insumos. De uma maneira geral, os produtores da Nova Zelândia consideram oportunidades e alternativas para suplementação. Os que têm acesso a algum subproduto, anos de grãos baratos, área para produção de forragem adicional, o fazem.

Há competição pelos produtores por resíduo de cervejaria e destilaria perto das indústrias, o que é um indicativo muito claro da suplementação.

Nos anos de 2001 e 2002 se suplementou mais com concentrado do que em 2003, pois os grãos este ano estavam muito caros.

O conceito de custo deve ficar bem entendido, que é um valor relativo, ou seja a unidade monetária dividida pelas unidades de produto produzidas ($/litro). De uma maneira geral os artigos se referem a baixo custo e na realidade se referem a baixo gasto.

Em qualquer lugar do mundo o uso de suplementos tem o objetivo de DIMINUIR o CUSTO. Na Nova Zelândia, eles o fazem quando o preco do suplemento se justifica. Mais uma vez o baixo uso de concentrado é uma conseqüência da realidade do país e não a causa do sucesso da indústria. Tendo a oportunidade os animais são suplementados. Isto é exatamente o que acontece na Austrália, maximização da utilização de recurso forrageiro com a utilização de concentrado, pois se justifica para baixar custos ($/l).

Há produtores que têm equipamentos (tratores e implementos) ociosos e produzem principalmente silagem de milho para aumentar a energia nas dietas e a produção de leite. Isso se vê muito hoje na ilha sul (NZ) onde há uma expansão muito grande de rebanhos grandes (500-2000 vacas) com muita produção de forragem conservada e uso de irrigação.

Aproveito para comentar um fator importantíssimo para essa expansao na ilha sul, que é o financiamento da atividade (muito diferente do Brasil). Esses produtores estão ficando "ricos", alavancando empréstimos a custo baixo comprando terras e ganhando em valorização imobiliária.

Outro ponto a comentar é a indústria. NÃO há um contentamento generalizado do produtor em relação ao sistema cooperativo como se propaga no Brasil. Ao se conversar com alguns produtores neozelandeses ele está descontente com o preco do leite e não gosta do fato de estar na mao de uma só empresa.

Já estão surgindo algumas pequenas cooperativas regionais de produtores dissidentes.

O excesso de produção na época de pico está sendo penalizado por preço na Nova Zelândia e, em grande parte do país, as linhas de leite já funcionam o ano todo. É uma decisão do produtor de produzir estacionalmente o durante o ano todo, basta ter volume de leite (entre ele e seus vizinhos) justificável para a "linha" operar.

Estive recentemente em uma propriedade na Nova Zelândia que é considerada uma das 5 melhores do país. O princípio básico e a maximização do uso de pasto, no entanto cerca de 60% da matéria seca que as vacas consomem é importada (silagem de milho e concentrado) e um rebanho de alta produtividade por vaca e mesmo quando se usam os critérios neozelandeses de avaliação (kg solidos/ha, lucratividade por ha) esta propriedade está MUITO acima da média.

Outro tema descrito no artigo a comentar e o de Shared milking. Há hoje dificuldade de manter os jovens na atividade. Um dos motivos é cultural, mas outro é o tamanho mínimo necessário para viabilizar um sistema de produção. As fazendas para se tornarem viáveis estão cada vez maiores, o que torna a barreira de entrada na atividade maior.

Também lá existe a polarização da suplementação VS a não suplementação, e como no Brasil a discussão muitos vezes se dá no nível "religioso" ou de crença e não da informação. Um dos motivos é que o conceito tradicional da indústria na NZ foi difundido pela Universidade de Massey e seus pesquisadores que muito contribuíram para a indústria daquele país. No entanto, a indústria mudou muito recentemente e a suplementação conquistou um espaço na indústria, haja visto que a figura do nutricionista está ganhando espaço.

A indústria de produção de leite neozelandesa é dinâmica e não está comprometida com nenhum modelo específico e sim com as oportunidades de ser mais lucrativa e mais competitiva e, se isso significar usar concentrado, eles o farão (e bem).
Qual a sua dúvida hoje?