Austrália e Nova Zelândia estão ampliando o comércio com a Ásia, valorizando um mercado com 2,4 bilhões de pessoas, o que corresponde a 40% da população mundial. Um exemplo: a Fonterra (cooperativa da Nova Zelândia), está abrindo escritórios no Afeganistão/Filipinas/Paquistão/Japão e China, fornecendo leite a preços muito competitivos (R$ 0,34 a R$ 0,36 o litro). Isso só é possível devido ao modelo de produção a pasto adotado naquele país, o que se traduz em baixos custos de produção.
Um dado interessante que se tem observado nos últimos 25 anos é a forte tendência da produção e do consumo crescerem mais nos países em desenvolvimento do que nos demais. Neste contexto, o Brasil poderá levar grande vantagem. Primeiro, pelo potencial de crescimento horizontal da sua produção. O País possui mais de 90 milhões de hectares a serem explorados de forma sustentável. Segundo, pelo crescimento da produtividade, uma vez que na última década as universidades e centros de pesquisa nacionais acumularam um grande estoque de tecnologias.
O que falta para o País é uma definição clara de que rumo tomar em relação aos futuros sistemas de produção de leite. O fato do Brasil produzir leite em 27 Estados da Federação, além do Distrito Federal, envolvendo mais de quatro mil municípios no processo, dificulta em muito essa definição. As instituições de pesquisa têm um papel importante a cumprir. É necessário termos uma avaliação urgente das áreas de maior grau de risco para a atividade leiteira; precisamos definir, com mais clareza, quais as raças recomendar em função dessas áreas. Devemos ter bem claro quais os tipos de forrageiras deveremos recomendar para cobrir nossos solos dada a nossa vocação natural para produzir leite a pasto. Por fim, é necessário redefinir o manejo do rebanho, no intuito de otimizar o uso da mão-de-obra, das máquinas e dos insumos utilizados, tendo em vista reduzir custos de produção.
Façamos um panorama do setor lácteo na Nova Zelândia: a indústria de lácteos integra produtores e exportadores de produtos lácteos de alta qualidade, manufaturados a partir de leite produzido a baixo custo, principalmente provenientes de pastagens. São utilizadas 3,3 milhões de vacas para aproveitar 12 milhões de toneladas de matéria seca de forragens procedente de pastos nos 3,3 milhões de hectares distribuídos em 13.900 propriedades, que produzem anualmente 12,3 bilhões de litros de leite, dos quais 93% são exportados.
O valor do litro de leite é de R$ 0,54 a R$ 0,60 o litro, com 4,7% de gordura e 3,6% de proteína e é considerado relativamente baixo quando comparado com o custo do concentrado R$ 0,60 a 1,00/Kg, que são raramente fornecidos às vacas leiteiras. Entretanto, de 2000 a 2002, o valor do litro de leite era de R$ 80 c/ litro. A relação preço do leite e preço do concentrado somente é considerada interessante a partir 1,5:1.
A indústria de lácteos neozelandesa é baseada num sistema de cooperativas estritamente integradas, totalmente cooperativo, com foco num simples objetivo que é maximizar o retorno financeiro para os fazendeiros. Noventa e três por cento do leite é manufaturado e exportado em uma larga variedade de produtos, sem subsídios ou incentivos à exportação, a preços internacionais.
A maioria do leite é produzido a pasto por vacas predominantemente da raça Holandesa e com partos programados para a primavera, sincronizados com o crescimento do pasto, embora parte do pasto seja conservado e algum suplemento seja fornecido. Neste aspecto há uma grande semelhança com os sistemas na Austrália, exceto quanto à suplementação com concentrado, que a Nova Zelândia praticamente não utiliza. Quanto à sazonalidade na produção de leite, ou seja, a concentração da produção no pico de produção das pastagens, na Austrália é em torno de 60% e na Nova Zelândia 95%.
Cerca de 25% das propriedades leiteiras na Nova Zelândia operam em sistema de parceria "50% sharemilking system", no qual o proprietário entra com as terras e as instalações e o parceiro entra com os animais e a mão-de-obra.
A seguir descreveremos os pontos fortes e fracos do sistema neozelandês de produção de leite segundo o professor Colim Holmes, um dos grandes especialistas em produção de leite da Massey University:
Pontos fortes:
- A habilidade de produzir leite a baixo custo em pastagem, pelo baixo custo do alimento, das instalações, distribuição de efluentes e máquinas e alta produtividade da mão-de-obra, priorizando a automação da atividade por meio de medidas simples e eficazes.
- Uma estrutura totalmente integrada e coordenada envolvendo a indústria com foco na otimização dos retornos para o produtor.
- Preocupação constante com a saúde animal, fertilidade, vacas com alto valor genético com progênie proveniente da Nova Zelândia.
- Sistema sazonal de produção permite férias a todos e com foco em um trabalho em uma época.
- Um sistema de parcerias muito eficiente.
- Atitude pró-ativa da indústria, integrada e com foco na produção e no comércio exterior de produtos lucrativos.
- Distante de outros rebanhos.
Pontos fracos:
- Totalmente dependentes dos preços de mercado mundial.
- Dependente do clima e da disponibilidade de forragens nas pastagens.
- Enorme variação entre anos na produção e lucratividade.
- Períodos de concentração de trabalho pesado e outros de ociosidade, tanto para os fazendeiros, quanto para a indústria.
- Os sistemas de produção sazonais proporcionam lactações curtas e menor produção por vaca.
- Existem poucas alternativas de alimentos de alta qualidade, além do pasto, que sejam de baixo custo.
- Alto preço das terras.
- Grande distância dos mercados compradores.
Austrália e Nova Zelândia, com a extrema profissionalização da pecuária de leite que lhes é característica, têm muito a ensinar ao Brasil. Em recente viagem de uma comitiva brasileira à Oceania, a convite da Australia Dairy Corporation, pontos relevantes foram levantados que, acredito, poderão ser vantajosos para os sistemas de produção de leite no Brasil. Veja alguns desses pontos:
- Como o grão é muito caro, o pasto é otimizado preparando silagem de capim com o excedente da pastagem e esta fornecida preferencialmente a novilhas e vacas secas.
- Há uma preocupação constante em reduzir a mão-de-obra. Da limpeza dos estábulos ao aleitamento dos bezerros, quase todo o trabalho é automatizado.
- O pagamento por sólidos do leite, principalmente gordura e proteína, é uma realidade.
- Daí, os cruzamentos serem direcionados para e o aumento dos teores de gordura e proteína.
- Nos testes de progênie não é valorizado volume de leite e peso vivo do animal.
- O colostro é utilizado como produto cosmecêutico e nutricêutico (confecção de cosméticos e pílulas para o sistema digestivo). Essa é uma forma de agregar renda à atividade leiteira. Os produtores vendem o colostro pelo equivalente a R$ 2,40 o litro. Ainda visando agregar renda, a utilização de bezerros para vitelos que serão consumidos principalmente no mercado europeu.
- Os produtores adotam um sistema eficiente de parceria: um entra com a terra, benfeitorias e fertilizantes e o outro com as vacas e a mão-de-obra.
- A produção de silagem de milho e a recria de novilhas são comumente terceirizadas.
- Os carreadores, por onde circulam os animais no sentido pasto/ordenha/pasto, são abaulados e recebem três camadas de brita e uma de terra para não formar barro. Eles são isolados com cercas elétricas.
- Há uma estrutura integrada envolvendo a indústria (lê-se cooperativa) com foco na otimização dos retornos para o produtor.
- O tanque de expansão é revestido com isolante térmico e deixado ao tempo, economizando na construção de galpões.