O leite do safrista

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Sebastião Teixeira Gomes

Todo o ano, a história se repete: nas primeiras trovoadas, que anunciam a chegada das chuvas, o preço do leite despenca, e o safrista é acusado de ser o causador do desequilíbrio do mercado e, por conseqüência, da queda do preço do leite. Isto, que era verdade no passado, hoje não o é tanto. As transformações na produção de leite acontecem em grande velocidade, tornando efêmeras as verdades sobre a economia leiteira.

Apenas como exemplo, para retratar tais transformações, alguns dados da Itambé, segunda maior captadora de leite do país: Nos últimos três anos, de dezembro de 1997 a dezembro de 2000, a recepção de leite cresceu 5%; o número de produtores caiu 54%; e a produção média aumentou 127%, chegando a 284 litros por dia/produtor. Atualmente, o número de produtores de mais de 500 litros/dia corresponde apenas a 16% do total, porém respondem com 60% do volume de leite comprado por esta central de cooperativas. Mudou muito, em pouco tempo.

Nas principais regiões produtoras de leite do país, o período da seca está concentrado nos meses de junho, julho, agosto e setembro, e o das águas, em novembro, dezembro, janeiro e fevereiro. Em geral, no cálculo da sazonalidade da produção, a comparação é feita entre a produção da seca e a do próximo período das águas. Esse procedimento contribui para um erro no cálculo da sazonalidade, visto que a produção anual de leite do país tem crescido significativamente. Tal problema metodológico pode ser contornado, quando se compara a produção do período da seca com a média das produções dos períodos das águas de antes e depois. Por exemplo, comparar a produção do período da seca de 1999 com a média das produções das águas de 1998/99 e 1999/2000. Tais comparações devem ser feitas em litros/dia.

Segundo dados da Pesquisa Trimestral do Leite, do IBGE, em 1997, a produção do Brasil, no período das águas, foi 17% maior que a da seca; em 1998, 12% e em 1999, 11%. Ainda segundo o IBGE, nos três últimos anos, a produção das águas aumentou 4%, e a da seca, 10%. São dados expressivos que indicam avanços consideráveis na produção de leite do país.

Em razão do clima, do solo e até de características da economia do país, provavelmente a modernização da produção de leite deve concentrar-se em sistemas de produção que privilegiem pastagens de boa qualidade, com suplementação volumosa na seca e concentrada o ano todo, porém em quantidades menores nas águas. Sendo assim, é natural esperar pequena sazonalidade da produção, mesmo quando a maior parte da pecuária for considerada tecnificada. Não se deve imaginar que ser tecnificado significa apenas modelos confinados, com a mesma alimentação e o mesmo manejo o ano todo e sem nenhuma sazonalidade de produção. Também pode ser tecnificado um sistema a pasto.

A partir dos argumentos apresentados, pode-se perguntar: porque continua elevada a diferença entre o preço do leite da seca e das águas, se a sazonalidade da produção diminuiu tanto? A resposta a esta pergunta pode estar relacionada com as altas sazonalidades da produção ocorridas no passado e que ainda persistem na memória daqueles que trabalham com leite. Nas primeiras trovoadas, cria-se a expectativa de que a produção irá crescer e, como conseqüência, o preço irá cair. A expectativa que é formada dá o clima para a queda de preço. Nesse cenário, muitos produtores ajustam a tecnologia, diminuindo concentrados e reduzindo custos de produção. A redução de custos ameniza as conseqüências da queda de preço do leite. Em outras palavras, essa queda está muito mais associada à redução de custos do que à sazonalidade da produção, provocada pelo safrista. Evidentemente que a imperfeição do mercado comprador de leite, com poucos agentes econômicos, e a facilidade de importações na época das águas, com preços artificialmente reduzidos, facilitam o funcionamento desse mercado.

Duas questões a mais sobre o ajustamento do sistema de produção: 1) a redução de custos nas águas ocorre porque a maior parte do leite do país é proveniente de sistemas de produção à base de pasto. Alguns são mais tecnificados, enquanto outros, não; e 2) Os sistemas de produção engessados têm grandes dificuldades de sobreviverem neste mercado, em razão das dificuldades de redução de custos nas águas.

Finalmente, a estrutura concentrada da produção, com poucos produzindo muito e muitos produzindo pouco, indica que análises da evolução da atividade leiteira devem ser concentradas em quem responde pelo maior volume da produção e não em relação à maioria dos produtores. Se isto for feito, muitos mitos cairão, entre eles o de que o safrista é o principal responsável pelas variações de preço do leite nos períodos de seca e das águas.

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Sebastião Teixeira Gomes é Professor Titular da Universidade Federal de Viçosa. Esse artigo foi escrito em 05/02/2001.
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