Por André Zanaga Zeitlin1
A análise dos dados apresentados sobre a balança de exportações versus importações brasileiras de lácteos, bem como a última pesquisa IBGE sobre o orçamento familiar, efetivamente tendem a apontar as exportações como a "saída" para o setor no futuro próximo.
Esta porém é uma conclusão que lembra um dos ditados que aprendi na terra do articulista: "Existem em geral dois jeitos de se fazerem as coisas: o jeito fácil e o jeito certo...". Não quero com isto dizer que perseguir o incremento das exportações seja de forma alguma errado. Embora também reconheça que não se trata de algo necessariamente fácil, creio que poderíamos, e Oxalá venhamos, a crescer mais rapidamente no mercado externo.
Minhas dúvidas recaem sobre a maneira como se conclui rápida e facilmente que nosso mercado interno não mereça maior atenção uma vez que somos um país pobre, com pouca tradição de consumo de leite e derivados(?). Ainda que concordemos que estas afirmativas sejam verdadeiras, elas não são imutáveis. Países que hoje desfrutam de altos níveis de consumo de lácteos, fizerem por onde: investiram em educação, marketing e qualidade de seus produtos. Por aqui continuamos a ignorar a necessidade de se avançar num programa de marketing institucional para o setor leiteiro e adoramos dar "tiros nos pés" ao trair a confiança de nossos consumidores com "bebidas lácteas", "leites modificados" , "especialidades lácteas" e, não sejamos hipócritas, muita fraude. Nunca é tarde para lembrar: ao se buscar o aumento da renda do setor lácteo, o melhor uso para todo este soro seria sua transformação em ingrediente de outros alimentos como pães, bolos e biscoitos, embutidos cárneos, papinhas infantis, etc. Estas aplicações trazem para o setor renda da qual ele hoje não participa, ao passo que a fraude e suas variantes apenas canibalizam nossa própria renda.
Quero aqui lembrar que o potencial de crescimento de nosso mercado interno é imenso (a única coisa boa do fundo do poço, é que dali, só pra cima!), muito maior do que a mais otimista das expectativas de crescimento das exportações e ainda menos sujeito às intempéries de típicas do mercado global: novos entrantes, barreiras sanitárias e tarifárias, desaquecimentos e crises internacionais, flutuações cambiais.
É bem verdade que o poder de compra de nossos clientes internos já não é o mesmo do início do plano real e o iogurte já não aparece no discurso presidencial ou no carrinho do supermercado como então. A proposta do governo federal para o novo mínimo também não indica grandes mudanças no curto prazo. Apesar disto ainda acredito que nosso maior problema seja de educação, e conseqüentemente de mau uso da pouca renda que se tem. O consumo de refrigerantes e cerveja está aí pra ser comparado ao do leite. De qualquer forma vejo isso com bons olhos: temos algum tempo para cuidarmos melhor de nossa qualidade e de nosso marketing, enquanto a renda não vem.
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1 Médico Veterinário e Produtor de Leite em São Paulo
Publicado por:
MilkPoint
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MAURÍCIO PALMA NOGUEIRA
CASA BRANCA - SÃO PAULO - PROFISSIONAIS DE CIÊNCIAS AGRÁRIAS
EM 11/06/2004
Prezado André,
Achei excelente a sua posição. Muitas vezes fala-se da união dos produtores, o que lembra apenas união fisica, contato, etc.
Na verdade, o setor precisa se unir em torno de um objetivo.
O maior objetivo do produtor é construir um mercado. Desafio grande, duro, mas possível.
Parabéns pelo artigo e um grande abraço.
Maurício
Achei excelente a sua posição. Muitas vezes fala-se da união dos produtores, o que lembra apenas união fisica, contato, etc.
Na verdade, o setor precisa se unir em torno de um objetivo.
O maior objetivo do produtor é construir um mercado. Desafio grande, duro, mas possível.
Parabéns pelo artigo e um grande abraço.
Maurício