Este texto foi inspirado pelo artigo "Escoadores da rentabilidade da produção leiteira", de autoria do médico veterinário Otaliz de Vargas Montardo, publicado no site MilkPoint, em 27/04/01.
Um tapinha não dói, tapinha não dói...
Esta "pérola" do atual cancioneiro carioca sintetiza o pensamento de boa parte dos produtores de leite e seus representantes. Que a luta por preço garante a rentabilidade de seu negócio. No entanto, esta postura acaba por favorecer a desobrigação de responsabilidades, pelos demais integrantes da cadeia produtiva, baseada na percepção de que estas não serão cobradas organizadamente.
O processo da granelização da coleta do leite, implantado de forma vertiginosa nos últimos dois anos, foi apresentado como um avanço incontestável em direção à modernização do setor leiteiro. Afinal, obrigava a profissionalização do produtor e implicava numa "depuração" do mercado, visto que os "desorganizados e safristas", que o bagunçavam, vendendo qualquer leite a qualquer preço, não iriam se dispor a investir na aquisição dos tanques de expansão. A indústria teria seus custos de frete e de processamento sensivelmente reduzidos, logo poderia remunerar melhor seus fornecedores. Os consumidores teriam acesso a produtos de qualidade melhor, com a eliminação das perdas de valor nutritivo, inerentes à coleta em latão. Dizia-se:
" Vistam sua roupa de gala, pois a festa vai mudar".
Hoje, após o maior laticínio do país propalar que fechou os 100% de granelização, temos uma situação bastante diferente da apresentada naquele início, visando convencer os produtores a aderir ao processo. O produtor que possui tanque de expansão, enfrenta o pior escoador possível da rentabilidade de seu negócio, que é a eminência de perda de grandes volumes de leite. Não importa a que custo, com que tecnologia se produz e a que preço se vende, nada é pior que gastar para produzir e ter que jogar fora, como veremos:
- Segundo o laticínio 100% granelizado (que é o que mais coleta leite a granel em nossa região e em todo o Estado), para que se tenha qualidade, as coletas deveriam ocorrer de dois em dois dias, mas seja por acidentes com caminhões (bastante frequentes por sinal), por quebras, ou por estes ficarem atolados nas nossas precárias estradas vicinais, é muito comum se passarem três dias, ou mais, entre as coletas. A postura dos laticínios é de que a responsabilidade pelas estradas é do produtor, cabendo a este pressionar o poder público para realizar sua conservação. Os produtores organizados têm meios, não muito simples, de fazer esta cobrança e de deixar claro para a opinião pública quem sãos os prefeitos que cumprem, ou não, suas obrigações. Mas, são comuns casos em que os próprios serviços feitos acabam por gerar o impedimento das estradas, já que, por mais organizados que sejam, os produtores ainda não dispõem de linha direta com São Pedro, para solicitar a interrupção das chuvas. E, mesmo que faça sol nos dois primeiros dias após a coleta, os caminhões não apareçam e só chova a partir do terceiro dia, o laticínio 100%, continua a afirmar que a responsabilidade em fazer o leite sair da fazenda é do produtor. Numa conta muito simples, basta uma perda do leite de três dias, para que se vá 10%, ou mais, da receita mensal produtor.
- Tristemente, a granelização não é de 100%, pois existem casos de ex-transportadores (cujo patrimônio ia de um caminhão a uma Toyota velha com os bancos soltos) que "adquiriram" tanques de expansão (alguns instalados em perímetro urbano), coletam leite em latões e repassam para os bonitos caminhões tanque que majestosamente levam o produto aos postos do laticínio. Para seus fornecedores, que continuam vendendo a qualquer preço, não há responsabilidade pelas estradas. E o custo de manutenção das estradas e de fretamento de veículos para coleta de socorro também tem que sair da nossa rentabilidade?
Não seria justo deixar de citar que há produtores, alguns incentivados pelos laticínios (que devem ter dimensionado mal a bacia leiteira), comprando e fazendo coleta do leite de vizinhos em latões, porém, se esta atitude também é errada, pelo menos as distâncias percorridas são normalmente menores.
- A tabela de preço do leite, deste mesmo laticínio, leva em conta a quantidade produzida por dia e, caso esta esteja próxima da divisão entre duas faixas, ao ocorrer uma perda do leite de mais de dois dias, o preço pago por litro cairá para a faixa inferior de remuneração. E cairá também pela redução da cota, caso a perda ocorra no período de formação da mesma.
- Criou-se um extrato de qualidade, anuncia-se para breve bonificações e perdas baseadas em temperatura e contagem de CCS e UFC. Mas não se diz no extrato em que dia foi feita a coleta da amostras, nem a quanto tempo o leite estava no resfriador. Dois, três, quatro, cinco dias? Se realmente há algum limite, porque isto não é expresso claramente? Amostras colhidas com mais de dois dias de resfriador servem como parâmetro? O técnico responsável pela manutenção do tanque afirma que a temperatura marcada na caixa de controle é maior que a real. Como ficamos?
- A despeito do racionamento-apagão que se aproxima, cujas consequências serão, certamente, temerárias na maior parte da zona rural do país, em especial na minha querida Bahia, falhas no sofrível fornecimento de energia elétrica implicam em perdas de leite, praticamente em todos os meses do ano. Tais perdas, segundo a concessionária, são ressarcidas apenas se as interrupções forem superiores às metas propostas pela ANEEL. Atenção ANEEL, o problema é que a questão não é de quanto tempo se ficou sem energia, mas quando (quantos litros havia no resfriador) isto ocorreu.
- Quando a luz volta, muito comumente, ocorre sobretensão, não suportada por nossos modernos tanques de expansão. Ao ligar para a assistência técnica, pode-se ter a suspresa de que o técnico está a 350 quilômetros, instalando novos tanques. E ainda, o representante da fabricante afirma, deslavadamente, que o contrato ao qual aderimos, no ato da compra, deixa claro que não há responsabilidade por perda de produto estocado no tanque (seria bom checar com o Código do Consumidor). Pode-se perder os mais de 10% , já citados e ainda ter que arcar com os custos dos reparos (comumente de mais de R$ 500,00, ou 8,5% da renda de uma produção de 700 litros/dia a R$0,28/litro), para tentar ressarcimento posterior, junto à concessionária de energia.
- Por fim chega-se, por que não, ao preço propriamente dito. Dois laticínios da região (um deles de uma cooperativa de assentados do MST) têm atrasado os pagamentos aos produtores, ficando o grande laticínio do Estado livre para praticar, sem concorrência significativa, sua tabela que, se por um lado, representou um grande avanço no sentido da transparência, em contrapartida parece buscar cercear a capacidade de negociação dos produtotres, já que o "adicional de mercado" (hoje 20% da receita) vem sendo imposto e, o que é pior, formalizado apenas quando da entrega da nota fiscal de fornecimento.
Pelo exposto, é difícil afirmar que houve algum progresso para os produtores que aderiram à coleta granelizada de leite e que, em havendo uma opção de laticínio não granelizado que tenha solidez financeira, quem ainda não o fez, deva adquirir um tanque de expansão, já que, na região Nordeste, o prazo para fechamento do processo se estenderá até (salvo engano) janeiro de 2004. Houve benefício para os laticínios, pela diminuição dos fretes, para os fabricantes de resfriadores, que vendem como nunca haviam sonhado. Diferente do que se disse no início, a música não mudou e ...
... "o produtor que colocou sua roupa de gala, na verdade está é dançando a "Dança das Cadeiras" da granelização".
No final seu artigo , o Dr. Otaliz passou a palavra para as associações de classe. Passo-a, então, aos demais integrantes da cadeia, para que me provem que estou errado. Tudo que eu gostaria é de estar errado. Sei que existem situações mais graves (como a falta de liquidez de certos laticínios), porém cito situações que envolvem empresas de bom nível e as críticas que faço são no sentido de aparar as arestas. Também conclamo a união dos colegas de outras entidades, estaduais, e mesmo nacionais (será que é só na Bahia que estes problemas ocorrem?), para negociar, junto a nossos clientes e fornecedores, soluções que motivem os produtores (de quem estes dependem para manter seus negócios) a se profissionalizar e manter-se na atividade de forma sustentável.
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