Por Marcello de Moura Campos Filho1
Artigo do MilkPoint mostra que o governo dos Estados Unidos quer se livrar de um estoque de 498.950 toneladas de leite em pó, cuja manutenção custa US$ 23 milhões por ano, ou seja, US$ 46,1 por tonelada por ano.
A compra da quantidade de leite em pó estocada, que custou ao governo 1 bilhão de dólares, ou seja, US$ 2.000,00 a tonelada, certamente ajudou a manter os preços ao produtor dos Estados Unidos.
Parte da redução do estoque deverá vir da venda de 113.390 toneladas de leite em pó para algumas indústrias fazerem caseína. Outra parte poderá vir da doação de 68.030 toneladas de leite em pó para países pobres
O governo já autorizou uma doação de 98.880 toneladas para os produtores rurais do Oeste, destinados para alimentação animal, para auxiliá-los em função das dificuldades da seca que acomete aquela região do País. E se a seca continuar, deverá ser autorizada nova doação, de 113.390 toneladas de leite em pó. Isto contribuirá muito para reduzir os estoques e ajudar os produtores do oeste do país, que estão em dificuldades.
A venda do leite em pó nos Estados Unidos seria uma opção, mas a colocação desse leite de volta no mercado poderia reduzir os preços e forçar o governo a comprá-los de volta.
Esses fatos, condensados do artigo do MilkPoint, mostram claramente a preocupação do governo dos Estados Unidos com seus produtores de leite: o governo atua no mercado para evitar o aviltamento do preço ao produtor, e, num momento de crise, toma medidas para socorrê-lo.
Isso deveria servir de exemplo ao governo brasileiro, que ao longo dos anos tem abandonado os produtores de leite à sua própria sorte, deixando-os à mercê da indústria de laticínios, e das imposições das grandes redes de varejo, que caracterizam oligopólios compradores de leite e lácteos, que aviltam os preços ameaçando com importações. Por isso o mínimo que o governo brasileiro pode fazer para os produtores nacionais é garantir que não se importe leite ou lácteos sem taxas efetivamente compensatórias para os subsídios e para a prática de dumping.
Estamos num momento em que a oferta de leite no País está sensivelmente abaixo da demanda, com tendência natural de elevação dos preços ao produtor, recuperando as perdas reais que o produtor sofreu.
Nessa situação de recuperação de preços ao produtor, em função da oferta ser sensivelmente menor que a demanda, a queda da cotação do dólar americano em relação ao real, pode levar à tentação da indústria de lacticínios e das grandes redes de varejo importarem certas quantidades de leite e lácteos para derrubarem os preços ao produtor nacional.
O governo brasileiro deve estar atento a essa situação, não apenas por estar preocupado com o produtor de leite brasileiro e estimulá-lo para que no mínimo a produção nacional atenda às necessidades de consumo, mas por que sem isso, a exemplo do que aconteceu no passado, o Brasil será um importador crônico de leite, deixando de gerar no campo milhares de empregos e contribuindo para o aumento fome e da violência urbana em nosso País
Vale lembra o que citou Paulo do Carmo Martins, da EMBRAPA, em recente artigo veiculado nesse site: a cada R$ 5.081,00 de leite importado deixa-se de gerar um emprego permanente na economia brasileira por um período de um ano !
Citamos o exemplo do governo dos Estados Unidos e a tentação da importação de leite nesse momento, para alertar o Presidente Lula e o Ministro Roberto Rodrigues para estarem atentos, que se a importação de leite na atual conjuntura for utilizada como pressão para derrubar os preços aos produtores nacionais, o preço a ser pago nos próximos anos será muito alto em termos de importações do produto, de falta de geração de empregos no campo, prejudicando o combate à fome e à violência urbana.
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1 Marcello de Moura Campos Filho, Presidente da Leite São Paulo
O exemplo dos EUA e a tentação da importação de leite
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