Novela América, o planeta "country"
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Arre, xo, chega tche! Tudo bem. Gosto de música "country" americana. Nada contra. Mas a cidade de boiadeiros da novela América da Rede Globo é uma galáxia de Nashville. Todo mundo está o tempo todo cantando e dançando "country music". Que raio de lugar é esse? Pelo amor de Deus, volta Sérgio Reis, Almir Sater, Rolando Boldrin, Borghetinho, mineiros, goianos, nordestinos, pessoal da viola do caterete. Até Chitão e o Xororó!
Quem só anda aqui pelos lados da "cidade grande", olha essa novela, vai achar que o interior brasileiro é a maior festa "country" do planeta. Estive na capital da música country do mundo, nos Estados Unidos: Nashville, pelo menos uma meia dúzia de vezes. Nunca vi as pessoas dançando country pelas ruas, e shows somente os bem pagos para turistas nos salões ou na "countrylândia" local. Uma espécie de Disneylândia da música country.
Impossível não imaginar que não exista uma operação da indústria fonográfica country para inundar o Brasil com o seu modelo.
Se essa coisa pegar, não passaremos mais por Itumbiara, Rio Verde, Rondonópolis, Vilhena, Ribeirão Preto, Uberaba ou Passo Fundo sem aprender a cantar, dançar e agir, no mais perfeito "american country way".
Curiosamente esta poderosa invasão cultural, num dos mais espetaculares tempos dedicados de "merchandising" já vistos, ocorre exatamente quando o Brasil passa a ser reconhecido e percebido, como pais de primeiro mundo no agronegócio (ou agribusiness para quem gosta mais de country). A carne brasileira domina o planeta. E domina exatamente por ter sido mantida tropicalizada, ao longo de toda sua história. Do boi Nelore, cruzamentos de raças, do gado europeu nos pampas gaúchos, e preservada a sua espetacular ração natural. Boi brasileiro come capim. Come fotosíntese. Não tem vaca louca.
Realmente deixamos a época "Jeca Tatu" bem distante, utiliza-se tecnologia e a música do interior também incorpora esta evolução.
Alguém poderá sempre dizer, até que ponto essa chamada música "sertaneja" que faz sucesso no Brasil é representativa das raízes? É híbrida eu diria. Como a tropicália misturando o trópico com o rock. Tem arte e melodias lindas e tem porcarias comerciais. Mas é fruto desse contraste nacional.
Sem dúvida Almir Sater, Renato Teixeira, Sá, Guarabira são distintos de centenas de duplas sertanejas que andam por aí. Mas não importa. Não falamos de "xenofobia" ou preconceitos. O country também é uma bela expressão musical.
Porém, o que intriga e me deixa perplexo é o resultado de tamanha exposição de um modelo só. À quem interessa isso? Não posso crer que a autora de América acredite que exista uma cidade brasileira assim. Ou que deva existir.
Abre a cena em Boiadeiros e , todo mundo no maior "country", dançando à moda da "quadrilha americana", o tempo todo. Até lindas "boiadeiras" de maiô!?
Ou os gaúchos bravos da fronteira e os movimentos de raízes nos salvam, ou acho melhor começarmos a produzir e exportar música country também. Aí sim, nossos irmãos do hemisfério norte ficarão mais furiosos tendo de competir não só na soja, no boi, no algodão, milho, laranja cana, porco, frango... Mas também numa das indústrias que mais vendem nos Estados Unidos. Música "country".
Isso é agronegócio também, mas só interessa se for para exportação.
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1José Luiz Tejon Megido, Presidente da ABMRA - Associação Brasileira de Marketing Rural e Agronegócio
Artigo originalmente publicado no Jornal da Tarde, reproduzido com autorização do autor.
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SÃO CARLOS - SÃO PAULO - PROFISSIONAIS DE CIÊNCIAS AGRÁRIAS
EM 22/06/2005
Concordo em gênero, número e grau.
Glória Perez foi e está sendo muito infeliz no desenvolver da novela. Poderia aproveitar a mídia enorme que envolve o horário na globo para mostrar realmente o que é o interior (que não tem nada a ver com o que é mostrado).
Principalmente que existe pessoas sérias e trabalhadoras que movem esse país.
LONDRINA - PARANÁ - PROFISSIONAIS DE CIÊNCIAS AGRÁRIAS
EM 13/06/2005
A própria música tema da novela "Soy Loco por Ti, América", escrita por Caetano Veloso, que originalmente destaca a alegria e as peculiaridades dos povos da América central e do sul, é usada na novela como uma exaltação ao pseudo-paraíso encontrado pelos brasileiros nos subempregos dos EUA.

OUTRO - SÃO PAULO - FRIGORÍFICOS
EM 13/06/2005
O interior é formado por pessoas de personalidade e cultura forte, inteligentes e cada vez mais técnicas, que realmente sabem o que querem, agora, na novela, os inteligentes moram no Rio e tem terra no interior, e o nosso povo é representado por Tião, Jil e companhia, tenha dó, realmente estou decepcionado com a Glória Peres desta vez, acho que faltou se informar melhor, ou realmente é puro merchandising, "vamos vender música, bota, chapéu, fivela"...

TEIXEIRA DE FREITAS - BAHIA
EM 11/06/2005
Já perdemos nossas folhas, vendemos nossas madeiras e agora querem nos fazer esquecer de nossas raízes? Será que não temos uma história mais rica e atraente do que essa que tentam nos fazer engolir?
Realmente que saudade de Almir Sater, Sérgio Reis, Renato Teixeira, Rolando Boldrin, Xangai, Elomar, Adelmário Coelho, os repentes nordestinos, os cantadores de toadas, os aboios de vaquejada...
Será que o Brasil se foi?
TEIXEIRA DE FREITAS - BAHIA - PROFISSIONAIS DE CIÊNCIAS AGRÁRIAS
EM 11/06/2005

SÃO SIMÃO - GOIÁS - EMPRESÁRIO
EM 08/06/2005

OUTRO - SÃO PAULO - MÍDIA ESPECIALIZADA/IMPRENSA
EM 07/06/2005
Há muito tempo não lia uma crítica tão adequada (em que pese a inadequação da novela).
Você foi muito feliz e sereno, o que é melhor. De qualquer forma, acho esta novela um porre.
Sob minha ótica, a Homérica, ou melhor, América presta valorosa contribuição para reforçar a imagem estereotipada que através da qual os americanos identificam o povo brasileiro.
Roselana Tolentino

SÃO PAULO - SÃO PAULO - PRODUÇÃO DE GADO DE CORTE
EM 06/06/2005
Isso é ruim, pois deixamos de valorizar grandes compositores e cantores brasileiros que, de certa forma, deixariam o folhetim muito melhor, assim com em "Renascer" ou em "O rei do gado".
Enfim, o que mais importa nessa questão é como o homem do campo está sendo exposto, entendo que novela tem que dar ibope e fazer marketing, entretanto tem que passar o mínimo de realidade.
O contexto pelo qual o Brasil rural passa, deveria ser enfocado na novela e quem sabe formando opiniões.
O brasileiro precisa pensar e trabalhar para que não seja influenciado por um modo de vida e estilo, na minha opinião de qualidade duvidosa.