Novas abordagens para os programas de treinamento e educação rural

Publicado por: MilkPoint

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Msc Alexandre de Azevedo Olival e Msc Andrezza Alves Spexoto 1

Atualmente, muito se tem comentado sobre o papel da assistência técnica para o desenvolvimento da cadeia do leite no país. Acredita-se que a melhoria nas condições de produção de leite possui relação direta com os trabalhos de treinamento e educação voltados ao produtor rural. Além disso, estão previstas ações governamentais neste sentido, dando uma atenção especial à agricultura familiar, envolvendo temas como capacitação rural e profissionalização do setor. Sabendo que muitos profissionais que podem realizar este trabalho estão em cooperativas e associações, uma vez que o sistema de extensão rural oficial no país encontra-se ainda em fase de reestruturação, este texto tem como objetivos contribuir com o tema, apresentando algumas novas perspectivas para o planejamento, desenvolvimento e avaliação de programas de capacitação e desenvolvimento rural.

Um primeiro ponto importante para ser comentado diz respeito a como os programas de treinamento e educação podem estar inseridos no quadro atual da pecuária leiteira nacional. Neste sentido, deve-se destacar que o país possui um número ainda extremamente grande de pequenos produtores de leite, muitos dos quais ainda estão em uma fase praticamente extrativista, inclusive não comercializando o produto. Em recente trabalho realizado pelo Instituto Fernando Costa na região de Pirassununga, SP, foi identificado que cerca de 37% dos produtores de leite da região somente produziam leite para o autoconsumo. No entanto, a passagem destes produtores para o mercado informal ou formal de leite pode ser feita a qualquer momento, principalmente quando o preço do leite é favorável, devendo assim estes produtores serem incluídos dentro de programas de modernização ou intensificação da atividade. Pensar no simples desaparecimento desta faixa de produtores pode ser uma ingenuidade bastante grande.

Algumas outras características comuns na atividade leiteira são o tradicionalismo, entendido como a dificuldade em modificação dos costumes e hábitos realizados, e a baixa qualificação da mão de obra envolvida com a atividade leiteira, seja ela familiar ou terceirizada. Logicamente que existem verdadeiras bacias leiteiras especializadas, mas com certeza a maioria dos produtores (não da produção) pode ser caracterizada desta forma bastante simples.

Este quadro se agrava quando se avalia o atual nível de desafio que estes produtores estão submetidos. As constantes exigências com relação ao volume de leite produzido e qualidade tornam a modificação de hábitos tradicionais uma necessidade indiscutível. É importante mencionar que, independentemente das razões pelas quais estes novos desafios existem e das suas conseqüências para a cadeia láctea, deve-se ter em mente que tanto a qualidade quanto o aumento da produção pela eficiência representam uma mudança radical na forma de encarar a atividade leiteira.

Por outro lado, os profissionais responsáveis pela divulgação de novas idéias e informações nas propriedades estão buscando na especialização a forma de resolver os problemas vivenciados no dia a dia. Assim, aparecem especialistas na área de nutrição, especialistas em gestão de pessoas, em qualidade do leite entre outras áreas do conhecimento (especialização esta oriunda do próprio sistema universitário brasileiro, que privilegia a segmentação do conhecimento). A técnica passa ser vista como a nova salvação para o setor, como um retrocesso à época do milagre econômico, marco na agricultura brasileira em termos de aumento de produtividade em diversas culturas mas também de fortes problemas sociais, entre eles a acentuação do êxodo rural. A visão de que somente através da modernização é que se atinge o desenvolvimento pode ser comparada com a visão ingênua ou tradicional tão presente entre os produtores do meio rural brasileiro.

Mais do que um fim, a modernização é apenas um complemento posterior para o processo de desenvolvimento sustentável. Em uma realidade tão conflituosa quanto a da cadeia do leite no país, marcada com fortes disparidades culturais, sociais e econômicas, a ação diretamente na técnica não permite obter os resultados animadores a longo prazo. Programas de capacitação e treinamento realizados por diversas instituições comprovam este fato: quando aspectos organizacionais e estruturais não são abordados em conjunto com a modernização, tais programas estão marcados para o insucesso.

Como conseqüências deste quadro, identifica-se o distanciamento entre profissionais e produtores. Ambos não falam a mesma língua, possuem visões de mundo diferentes. Para um produtor que vive sem saber o que vai acontecer no próximo mês torna-se muito complicado aceitar a visão de "investimento" e "prevenção" trazida pelos profissionais e técnicos. Este fato leva a uma ineficiência nos programas de treinamento e a desmotivação de profissionais e produtores.

Outro ponto a ser destacado é que muitas vezes os profissionais atuam apenas como reprodutores de técnicas, sem a preocupação de adaptação de tais técnicas para diferentes realidades. A aplicação de pacotes tradicionais, sem respeitar particularidades locais, é um dos principais pontos mencionados pela literatura como causa de falhas nos programas de treinamento. Mas talvez o maior problema originário deste fato não seja a falha na técnica em si, mas como esta falha reflete na mente do produtor: observa-se geralmente que, mais do que desacreditar naquela técnica específica, o produtor passa a desacreditar na modernização, assumindo o tradicionalismo não por ignorância, mas como um mecanismo inteligente de proteção e sobrevivência.

A soma de todos estes pontos justifica a idéia de que, com o aumento das exigências na produção leiteira, deva ocorrer nos próximos anos um processo de seleção natural dos produtores, alguns abandonando a atividade e outros partindo para a informalidade, conseqüências que efetivamente ocorreram durante o processo da revolução verde mas que nossa atual sociedade não está preparada para absorver.

A esta altura o leitor pode estar pensando que somos contra a modernização na atividade. Muito pelo contrário! Qualquer experiência de desenvolvimento passa pelo processo de modernização. O processo de troca das formas tradicionais de produção e de trabalho por formas mais eficientes (aumentando os ganhos ou diminuindo os gastos) é inevitável e extremamente necessário na sociedade capitalista em que vivemos. Entretanto, este processo, que a partir de agora será caracterizado pelo termo "treinamento", não pode sozinho garantir o desenvolvimento por igual da cadeia do leite. Isto porquê muitos dos problemas que esta cadeia vive não são técnicos, são estruturais, culturais e sociais. Desta forma, torna-se necessário um trabalho mais de base, um trabalho que podemos chamar de "educação" (na verdade os termos pouco importam. É importante apenas diferenciar a forma tradicional de trabalho, baseado na informação em si e na melhoria da técnica, e a forma mais inovadora de ação, baseada na pessoa).

A educação rural está preocupada não em melhorar a qualidade do leite, a nutrição dos animais ou a gestão nas propriedades. Está preocupada no desenvolvimento do ser humano como um todo para que ele, por conta própria e com base na sua realidade, melhore sim a qualidade do leite, a nutrição dos animais e a gestão na sua propriedade. O chamado desenvolvimento cultural, que ocorre quando as pessoas descobrem que podem por si só e através do seu trabalho conjunto modificar a sua realidade, e o desenvolvimento social, que ocorre quando as pessoas efetivamente unem-se para resolver seus problemas de forma consciente, estão na base de qualquer processo de desenvolvimento sustentável. Já dizia Paulo Freire: o homem não é capaz de modificar a realidade até descobrir que pode fazê-lo. Modernização e avanço cultural e social fazem parte de uma mesma discussão. Ignorar algum destes aspectos do desenvolvimento pode trazer conseqüências a longo prazo bastante sérias para o país. Infelizmente, o que se observa é a elevação a um nível quase que divino da técnica e da modernização, deixando pontos relativos ao crescimento e evolução do ser humano para "fóruns mais apropriados".

É preciso desenvolver a humildade de aceitar que nossas verdades técnicas são passageiras. A cada dia surgem novos conceitos e novos desafios. Mais do que vender "pacotes milagrosos" ou "técnicas salvadoras", o papel de um educador talvez seja preparar e ajudar pessoas para que descubram as verdades de cada tempo.

Esta forma de atuar exige três características fundamentais do profissional e das instituições envolvidas com os programas de educação:

    a) O comprometimento efetivo com produtores: como dizem os teóricos da educação, não existe educação neutra. Ou o educador contribui para reproduzir a atual sociedade ou faz a sua parte para levar à evolução. A educação verdadeira, comprometida com o homem, está preocupada em quebrar estruturas.

    b) O envolvimento dos produtores, que pode ser entendido como motivação inicial. Sabe-se que treinar e capacitar produtores "urbanizados" é fácil. A sua visão de mundo é muito próxima à visão do profissional. São chamados de "especializados", "empresários rurais". O verdadeiro desafio está em envolver os pequenos produtores, aqueles que não compartilham da mesma visão de mundo e que, pejorativamente, são chamados de "tradicionais", "não especializados", "ineficientes".

    c) Implementar um processo real de participação, processo este no qual todos os envolvidos (produtores + profissionais) são parte da identificação e resolução dos problemas. Isto significa descartar qualquer forma de pacote ou resposta pronta aos problemas. Significa unir o conhecimento pontual e técnico do profissional ao conhecimento sistêmico, prático e aplicado do produtor rural para a construção de um novo conhecimento, melhor do que o pensamento individual de ambos.
Dentre as principais conseqüências desta nova visão de educação está o desenvolvimento da visão crítica do produtor e do profissional, contrapondo-se a ineficiente visão ingênua anterior. Esta visão crítica garante a inserção do produtor dentro da cadeia produtiva (será que poderíamos chamá-lo agora de especializado?). Garante ainda a tão almejada sustentabilidade social e cultural da produção, bases para a sustentabilidade econômica e ambiental que devem estar presentes em qualquer sistema de produção.

Logicamente que a implementação de um programa de educação não é fácil. Novos conhecimentos e habilidades são necessários aos profissionais que quiserem efetivamente desempenhar o papel de educador. É necessário desenvolver ainda a visão multidisciplinar e sistêmica da produção: compreender que não existe um problema de qualidade do leite ou um problema de nutrição, mas sim problemas mais básicos, geralmente enraizados dentro da cultura das pessoas e que se refletem em problemas técnicos pontuais. E a modificação de cultura é um processo multidisciplinar.

Finalizando, o período pelo qual está passando a cadeia produtiva do leite é único. As novas normas de produção e qualidade do leite oferecem uma excelente oportunidade de contato com os produtores e desenvolvimento de projetos efetivos de educação. A existência de um período longo até a adequação de todos os produtores às novas normas permite a realização de programas educativos completos, sem a urgência de ações paliativas. Este é o momento de definir os rumos da pecuária leiteira no Brasil. Cabe a todos os envolvidos, inclusive nós, definir que tipo de país estamos buscando: um país onde a desigualdade é normal ou um país que se indigna com os contrastes e se mobiliza para resolver os problemas.

"A educação popular não visa criar sujeitos subalternos educados: sujeitos limpos, polidos, alfabetizados, bebendo água limpa fervida, comendo farinha de soja e cagando em fossas sépticas. Visa participar do esforço que já fazem hoje todas as categorias de sujeitos subalternos - do índio ao operário do ABC - para a organização do trabalho político que, passo a passo, abre caminho para a conquista da sua liberdade e de seus direitos. A educação popular é um modo de participação dos agentes eruditos neste trabalho político"


(BRANDÃO, C. R., 1982. Lutar com a Palavra. Rio de Janeiro: Editora Graal)
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1 Diretor Instituto Fernando Costa
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