Necessidade de uma Câmara Nacional de Arbitragem para o Leite

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Marcello de Moura Campos Filho1

Neste início de século 21 ainda encontramos pessoas que acreditam que os mercados são livres e perfeitos e que a lei da oferta e procura determina preços justos para todas as partes. Estas pessoas julgam que basta deixar o mercado funcionar para aumentar a eficiência de toda uma cadeia produtiva, e se horrorizam com qualquer interferência do Estado na administração de preços.

Defenderei até a morte o direito destas pessoas assim pensarem. Todavia, penso diferente. Para mim, neste mundo globalizado, dominado por alguns poucos países ricos e pelas multinacionais, acreditar nisto não é muito diferente de acreditar nos Contos da Carochinha ou em Papai Noel. Naturalmente que esta é a forma de pensar de um simples produtor de leite, mas parece que tem pessoas, com mais conhecimento em economia, que pensam da mesma forma.

O jornalista Rolf Kuntz, no artigo "A redescoberta do Estado", mostra que com a "nova economia" ruíram os mitos econômicos do final do século, e reaparece o debate sobre a noção de responsabilidade pública. Afirma que o mercado pode ser muito bom, mas não garante segurança, condições mínimas de bem estar e de prosperidade sustentável.

O economista Paul Krugman, professor da Universidade de Princeton, em artigo publicado no The New York Times e também no O Estado de São Paulo, faz considerações sobre a Enron ( uma das grandes multinacionais de energia ) e a Argentina, mostrando que eram duas histórias de sucesso que terminaram em fracasso. Mostra que a fé cega no "laissez-faire"acabou com a Enron e com a economia da Argentina.

Krugman diz : não me entendam mal. Não sou daquelas pessoas que acham que os mercados são diabólicos, que o objetivo do lucro é sempre nefasto. Ao contrário, eu acho que os mercados são realmente bons. Mas a grande lição do século 20 foi que para funcionar, um sistema de mercado precisa de uma pequena ajuda governamental : regulamentações para evitar abusos, política monetária ativa para enfrentar as recessões. As quebras em Houston e em Buenos Airtes demonstram que esta lição não perdeu sua importância.

É exatamente isto que penso do agronegócio do leite. Eu também digo, não me entendam mal. Não defendo preços tabelados pelo Governo. Acho que preços de mercado são mais saudáveis para o agronegócio do leite, mas que é necessária uma participação do Governo para evitar abuso de poder econômico e garantir o crescimento sustentável em todos os elos da cadeia láctea.

De 1990, quando foi abolido o tabelamento de preços pelo governo, até agora verificou-se uma vertiginosa queda dos preços pagos ao produtor de leite formal, cujo produto é vendido para laticínios submetido à inspeção federal. Em 1990 o produtor de leite recebia por litro de leite o equivalente a um litro de óleo diesel. Hoje o produtor recebe por litro de leite cerca de 40% dpo preço do óleo diesel, portanto uma perda em termos reais da ordem de 60%. E, por mais que se tenha procurado ganhos de produtividade, está difícil permanecer na atividade, e isto explica por que na última década a produção de leite formal praticamente não cresceu enquanto a produção informal praticamente triplicou.

Os preços vem sendo aviltados por que de um lado temos mais de um milhão de produtores desarticulados e de outro os compradores dominados pelos oligopólios dos laticínios e as grandes redes de supermercados, em grande parte multinacionais. Não existe um mercado perfeito neste mundo globalizado, e em específico no caso do leite, os produtores brasileiros podem ser facilmente manipulados pois não têm capacidade de estocagem e não dispõem de informações sobre o mercado. Os produtores acreditam que está havendo abuso de poder econômico por parte dos laticínios e das grandes redes de supermercados, e por isso estão sendo instaladas CPI's em vários estados.

Por isto, a Carta da Expomilk de 2001 propõe ao Ministro da Agricultura, Pecuária e Abastecimento, providências para a criação de uma Câmara Setorial do Leite Nacional, onde teriam assento representantes de todos os elos da cadeia do agronegócio do leite e dos consumidores, com uma Câmara de Arbitragem, com mediação do Governo, que analisaria as margens de todos os elos da cadeia do leite, estabelecendo preços mínimos e máximos regionais de conformidade com padrões de qualidade, de sorte que as negociações comerciais resultem em preços justos para todos os elos da cadeia, inclusive para o consumidor, e que não haja abuso de poder econômico por nenhuma das partes envolvidas nas negociações.

Neste fórum de discussões seriam criadas as estratégias para que o Brasil possa se tornar exportador de lácteos ao invés de voltar a ser um grande importador de leite e derivados.
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1Produtor em Botucatu
Diretor da APLEC - Associação dos Produtores de Leite da Região Centro Sul
Campinas - SP
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Cícero Coelho Pedrosa
CÍCERO COELHO PEDROSA

ASSIS - SÃO PAULO - PRODUÇÃO DE LEITE

EM 04/01/2002

Gostei muito do artigo, o qual aborda a premente necessidade de se criar no Brasil a Câmara Nacional de Arbitragem para o leite, antes que seja tarde demais.

Nestor Luiz Breda
NESTOR LUIZ BREDA

SÃO MIGUEL DO OESTE - SANTA CATARINA - PESQUISA/ENSINO

EM 04/01/2002

Gostei de seu comentário e endosso a minha opinião. Acredito que todos os segmentos da cadeia produtiva do leite sejam envolvidos, proponho que sejam criadas Camaras Setoriais do Agronegócio do leite de âmbito regional. Esta consideração está baseada em que há diferenças seginificativas de coordenação e nos sistemas de produção primária nas diferentes regiões do Brasil. Analisando o sistema de produção e Coordenação no Oeste de Santa Catarina, quando comparado com o sistema de produção do Sul de Minas, do qual tive oportunidade de conhecer e estudar em parte no Curso de Mestrado em Agronegócios realizado em Lavras, constatei diferenças significativas em termos de sistemas de produção, apoios municipais e relações com as indústrias, entre outras. Portanto acredito que as câmaras de arbitragem devem ser regionais, porém organizadas em sistema de redes até formar uma câmara de arbitragem nacional. Existem muitos conflitos nas relações contratuais, entre os segmentos da cadeia produtiva, que são específicos de uma determinada agroindústria ou região, os quais podem ser mediados na região.
Gerson Araldi
GERSON ARALDI

OUTRO - PARANÁ - PRODUÇÃO DE LEITE

EM 04/01/2002

Concordo plenamente com o autor deste artigo, mas é preciso que entidades e organizações tomem a iniciativa de organizar os produtores, ou melhor, de orientar os produtores sobre como agir nas horas de protestos, pois, particularmente, não gosto muito de caravanas ou marchas para protestar, mesmo reconhecendo o poder das mesmas.
Qual a sua dúvida hoje?