Mudando time que está ganhando

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João Carlos de Campos Pimentel1

A evolução tecnológica causa um tipo de depreciação diferente daquela que o produtor está acostumado a ver desgastando suas máquinas e instalações. A evolução tecnológica causa obsolescência do próprio sistema de produção. A razão é que o conjunto de técnicas usadas em um determinado sistema de produção muda com o tempo. Marcelo Pereira de Carvalho recentemente chamou a atenção para isso ao comentar o livro O dilema do Inovador, de Clayton M. Christensen, no site Milkpoint. O autor afirma que mesmo empresas bem administradas - atentas à concorrência, voltadas ao consumidor, sintonizadas com as novas tecnologias que aparecem em seus setores de atuação - podem perder posição no mercado e desaparecer. Isto ocorre com as “tecnologias de ruptura”.

Tecnologia de ruptura

Tecnologia de ruptura é uma inovação tão grande no modo de se fazer as coisas que acaba destruindo o status quo de mercado de um produto ou serviço. Ela é um divisor de águas que separa de forma marcante a situação da produção atual de outra situação diferente que nasce. Mesmo as empresas que possuam práticas de gestão excelentes, impecáveis dentro do ponto de vista gerencial, mas que produzem produtos defasados tecnologicamente, fatalmente desaparecem.

Acontece assim: a empresa detém uma tecnologia atual - de produção de máquinas de escrever, por exemplo - e acredita que nunca será abandonada pelos seus clientes. Desta maneira, ela não se preocupa em desenvolver novas tecnologias com a rapidez necessária. Ela sabe que a maior parte de seus consumidores tem dificuldade de lidar com a inovação. Além disso, quando surgem, as tecnologias de ruptura geralmente são pouco atraentes, trabalhosas, antieconômicas e provocam a rejeição da grande maioria dos consumidores, que são, em sua grande maioria, conservadores.

No entanto, algumas outras empresas acreditam na nova tecnologia e acham que ela ganhará a boa vontade do consumidor médio se ela evoluir. Assim, tais empresas trabalham para fazer a evolução desta tecnologia. Após um bom tempo de desenvolvimento, esta tecnologia se torna a padrão, ganha os consumidores e coloca em risco de desaparecimento as empresas com tecnologias antigas.

Ao observarem o crescimento das novas empresas às expensas de seu mercado, estas empresas ainda tentam aderir à nova tecnologia. Algumas conseguem, mas para outras é tarde demais. Acontece que a tecnologia moderna pode estar muito distante de seu padrão tecnológico. Elas acreditaram erradamente que o consumidor não abandonaria seu produto, caso surgissem novos produtos com o mesmo preço e qualidade.

Christensen exemplifica com o surgimento do computador. Há 25 anos atrás, a máquina de escrever era muito mais barata, mais prática e mais útil do que o computador para o usuário comum. Não existem mais grandes fabricantes de máquinas de escrever após ter surgido a tecnologia da computação pessoal acessível ao grande público. Nenhuma empresa líder na produção de máquinas de escrever permaneceu com participação significativa no mercado de processamento de textos após ter surgido o computador. As inúmeras vantagens do computador, que vão muito além do simples processamento de textos, ainda não eram aparentes. Foram estas vantagens que fizeram desaparecer a máquina de escrever.

Christensen acha que as empresas precisam estar sempre preocupadas com a questão tecnológica e procurar criar o sucessor de sua tecnologia antes que um concorrente o faça. Chega mesmo a sugerir que mantenham uma divisão de pesquisa ou mesmo uma subsidiária com o propósito único de criar tecnologias que possam vir a colocar em risco seu produto principal.

Competição quase perfeita

Na agricultura, o ambiente é ainda mais competitivo que o das grandes empresas urbanas tratadas por Christensen. Os economistas dizem que os agricultores trabalham em um ambiente de competição quase perfeita. Isto parece significar que o produtor rural não consegue determinar os preços de seus produtos e de seus insumos. Ele apenas toma os preços formados no mercado, na maior parte das vezes em situações oligopolísticas ou oligopsônicas. Em bom economês, isto quer dizer que são poucos os vendedores de seus insumos e poucos os compradores de seus produtos. Eles não podem determinar seus preços já que são muito pulverizados no mercado.

A única coisa que podem fazer é tentar obter lucro minimizando seus custos totais de produção e maximizando sua receita total através do uso de tecnologias adequadas ao seu sistema de produção. Uma tecnologia adequada, por definição, é a maneira eficiente economicamente de fazer as coisas que diminuem o custo unitário de produção de determinado produto.

É claro que a agricultura convive desde o início dos tempos com a evolução das tecnologias. Basta pensar no aparecimento de máquinas (trator, implementos, colheitadeiras etc), insumos químicos (fertilizantes, inseticidas, herbicidas), medicamentos, animais e plantas geneticamente melhorados, cruzamento industrial, inseminação artificial e transferência de embriões. Penso mesmo que a própria Revolução Verde, nome dado ao conjunto das tecnologias que mudaram o sistema de produção da agricultura em meados do século XX, é um exemplo de uma grande tecnologia de ruptura que levou muita gente do mundo inteiro a sair da atividade agrícola e pecuária.

Narciso e o apagão tecnológico

Voltando agora ao conceito de Christensen, podemos dizer que mesmo agropecuaristas que são atualmente bons administradores correm o risco de perder a atual onda tecnológica. É que, paradoxalmente, eles têm contra si o próprio fato de serem bons empresários e gerentes. Eles tendem a se proteger mais e a refutar as novas e melhores tecnologias simplesmente porque estão dando certo no momento atual, no momento presente. Eles têm a seu favor o sucesso, quando se comparam a outras fazendas da redondeza. Suas fazendas, bem sucedidas economicamente e com sistemas de produção modernos, podem ter problemas com a constante evolução tecnológica se os tomadores de decisão deixarem de buscar inovação.

Penso que esta é a razão de fundo que leva os agropecuaristas inovadores a ficarem extremamente “antenados” para o aparecimento de avanços tecnológicos. Eles intuitivamente sabem que, se não acompanharem tais avanços, serão vítimas do avanço tecnológico. Eles sabem que não podem entrar com atraso em uma onda tecnológica que pode mudar a economia da sua atividade. Eles sabem que essa evolução coloca em risco o produtor que fica focado demais em si mesmo. Ficam atentos para o que ocorre no mercado, fazem experiências com sistemas-piloto de produção dentro da fazenda, adotam tecnologias alternativas dentro da atividade principal, diversificam atividades etc. Eles conhecem a história mitológica de Narciso, o rapaz que se apaixona pela sua própria imagem refletida nas águas de um lago e torna-se paralisado, cria raízes e vira um vegetal.

Além disso, o inovador faz um bom gerenciamento do dia-a-dia, acompanha as atividades de produção, o fluxo de caixa, o mercado de insumos e produtos e levanta os custos de produção. Faz mais: visita outras propriedades para comparar seus índices de produtividade e de rentabilidade. Ele realiza cursos e dias de campo. Ele consulta criticamente técnicos – extensionistas, pesquisadores e acadêmicos da universidade, vendedores de insumos, lê revistas da área etc. Ele investe na qualificação da mão de obra e da gestão de curto prazo de seus sistemas de produção. Ele procura ativamente novas tecnologias e acaba produzindo capital humano e social.

É lógico que existem exemplos de produtores que adotam tecnologias em fase de desenvolvimento inicial e que não se dão bem. Isto porque há um risco que os inovadores correm: o de não gerenciar adequadamente a nova tecnologia pelo próprio fato dela ser jovem, desconhecida, mas que é sanável por adequado gerenciamento de curto prazo, que implica em rápida e boa tomada de decisões. Se a decisão estiver errada, descobre-se logo e conserta-se o que está errado. Um exemplo é o próprio cruzamento industrial, técnica disponível já no início do século XX, no Brasil. Basta dizer que o cruzamento industrial “pegou” mesmo foi em fins da década de 80. Muita gente não trabalhou bem com esse sistema de cruzamento, nos tempos iniciais.

Surfando novas ondas tecnológicas

Parece-me que um novo conjunto de tecnologias de ruptura já está atuando na agricultura brasileira. Entre esses agentes vejo desde o GPS (Global Positioning System) e o chip de identificação animal - instrumentos usados na agropecuária de precisão - até ferramentas de gestão baseadas em computadores que usam conceitos de pesquisa operacional e as tomadas de decisão de longo prazo do planejamento estratégico. Entre esses agentes coloco também a rápida compreensão das mudanças que ocorrem no ambiente externo à fazenda. As preferências do consumidor mundial estão privilegiando claramente as tecnologias sustentáveis, com base ecológica e social que permitam a continuidade da sobrevivência da humanidade.

Concordo que às vezes é um pouco difícil perceber a vantagem de realizar planejamento estratégico, adotar um sistema de identificação eletrônica para animais ou produzir recompondo o ambiente, tomar decisões com auxílio de ferramentas matemáticas adequadas, especialmente em fazendas lucrativas: o espírito da aversão a riscos do empresário rural conservador geralmente fala mais alto.

Mas já existem muitos agropecuaristas inovadores surfando as novas ondas tecnológicas do século XXI. Eles encaram a concorrência quase perfeita da agricultura, acirrada ainda mais pelos subsídios da União Européia e dos Estados Unidos, com muita competência tecnológica nas áreas de produção e gestão. Produtores de soja do Centro-Oeste obtêm uma produtividade maior que a os produtores americanos, com custos de produção menores (tendo, é claro, uma ajuda de Joana Dobereiner, a grande cientista da EMBRAPA que fez avançar o conhecimento dos rizóbios, bactérias que fertilizam as raízes da soja com nitrogênio a custo quase zero). Pecuaristas de gado de corte brasileiros produzem carne bovina com custos menores que a metade dos custos americanos e a terça parte dos custos europeus. Para isso usam desde técnicas convencionais de pastejo extensivo até técnicas intensivas de pastejo rotacionado e/ou alimentação para animais confinados com rações de origem unicamente vegetal, enriquecidas ou não com aditivos naturais totalmente aceitos por seus clientes. Exportadores de milho e soja estão ganhando o mercado mundial alardeando o fato de produzirem apenas grãos convencionais, não transgênicos. Nichos do mercado orgânico europeu já foram conquistados pelo açúcar Native e pelo boi orgânico, do Frigorífico Independência.

Minha leitura é que esses produtores brasileiros estão sendo fortemente orientados para o mercado. Eles permitiram que o Brasil enfrentasse a quase sempre desleal concorrência da Europa e dos Estados Unidos em terceiros mercados internacionais quase sempre com êxito. Eles mostraram que têm acertado no diagnóstico da tecnologia necessária para a produção econômica e não têm sido surpreendidos pela evolução tecnológica. A esses agricultores, nossa homenagem.

Finalmente, uma palavra para os homens e mulheres dos órgãos competentes - ministérios das relações exteriores e agricultura, secretarias da agricultura e universidades. Não desanimem com a estrutura de pessoal que seus congêneres dos países europeus e americanos levam para jogar nas quadras da OMC. Façam como os jogadores de vôlei brasileiros da década de 80 ou como a Embraer dos anos 90. Devemos persistir na luta até vencer: perder faz parte do jogo, assim como aprender com a derrota. Em algum momento a vitória aparece se formos persistentes.

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1Assistente Agropecuário III - Casa da Agricultura de São Paulo
Coordenadoria de Assistência Técnica Integral
Secretaria de Agricultura e Abastecimento
E-mail: catiregionalsp@uol.com.br
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