Introdução
A cadeia agroindustrial do leite tem passado, nos últimos anos, por profundas transformações em todos seus segmentos, da produção ao consumo. No ano de 2001 observou-se um fato até então não vivenciado, quando ocorreu uma expressiva redução no preço do leite, em plena entressafra, causando grande insatisfação entre os produtores. A compreensão dos aspectos conjunturais da produção, das tendências de mudanças no mercado e da própria relação produtor - indústria, pode levar a uma melhor equidade na distribuição de ganhos pelos segmentos que compõem o agronegócio do leite.
A renda é um componente importante na análise do consumo de leite e derivados, no Brasil. O comportamento do salário mínimo, como referência de renda, certamente influencia a demanda por laticínios, em geral. Por outro lado, é por demais conhecido, que a relação de preços (percentual do preço que o produtor recebe em relação ao preço do varejo) é motivo de constantes e acalorados debates entre os agentes que atuam nesta cadeia.
Neste artigo, é apresentada a evolução dos preços médios leite tipo "C", recebido pelos produtores e pago pelos consumidores, o comportamento do salário mínimo e uma análise comparativa entre estes valores, ao longo das duas últimas décadas. Os valores referem-se ao estado de Minas Gerais, estão apresentados em Reais e foram corrigidos para dezembro de 2001, usando como deflator o Índice Geral de Preços (IGP-DI), da Fundação Getúlio Vargas.
Evolução dos preços do leite e do salário mínimo
Na Tabela 1, observa-se que o preço recebido pelo produtor vem apresentando uma nítida tendência de queda a partir dos anos 80. O preço decresceu de R$ 0,91, que foi a média no período 1981-85, para R$ 0,33 que foi a média no ano 2001, portanto, uma queda de 64%.
O preço médio no ano de 2001, correspondendo a 14 centavos de dólar por litro de leite, coloca o Brasil entre os países com os menores preços do mundo. Segundo o Dairy Outlook Network, FAO, os preços na Nova Zelândia, Austrália, Uruguai, Argentina e Brasil, estão em torno de 10 a 15 centavos de dólar por litro; no Chile, África do Sul, Polônia, Estônia e Rússia, em torno de 16 a 20 centavos; nos Estados Unidos, México, Costa Rica e Hungria, de 26 a 30 centavos; na Alemanha, Canada, Colômbia, Inglaterra, Holanda, Irlanda e França, em torno de 31 a 35 centavos.
Em termos de preço do leite no varejo, nota-se também uma tendência de valores decrescentes, porém menos acentuada. O litro de leite, que no período 1981-85 era vendido, em média, por R$ 1,35, foi comercializado em 2001 por R$ 0,77 representando uma queda de 43% (valores corrigidos para dezembro de 2001).
O salário mínimo também apresentou uma tendência de queda ao longo do período, porém em menor proporção que o preço recebido pelo produtor. No período 1981-85 o valor médio foi de R$ 325,00, caindo para R$ 181,00 em 2001 (valores corrigidos para dezembro de 2001), portanto, uma queda de 44%.
Poder de compra do salário mínimo e relação de preços
O poder de compra do salário mínimo, medido em litros de leite, via de regra, foi decrescente (Tabela 1). Em média, as quantidades de leite adquiridas com um salário mínimo, foram: 243 litros (1981-85), 195 litros (1986-90), e 156 litros (1991-95). A partir de 1996, o salário mínimo recuperou seu poder de compra, passando para 204 litros, em média, no período 1996-00. Essa reação foi conseqüência direta da queda do preço do leite, ocorrida com a redução na demanda pelo produto, que começou a manifestar após a euforia do plano Real, implantado em 1994. Em 2001, o poder de compra do salário mínimo aumentou significativamente (236 litros), como conseqüência de uma drástica redução dos preços do leite, inclusive em plena entressafra.
Considerando a relação entre os preços ao produtor e ao consumidor, nota-se que a participação do preço ao produtor em relação ao preço no varejo tem sido decrescente. No período 1981-85 o produtor recebeu, em média, o equivalente a 68% do preço no varejo. Essa participação percentual foi gradualmente decrescendo, passando para 43% em 2001.
Usando números índices
Para melhor visualização do comportamento dos preços e salário, foram determinados números índices, que estão apresentados na Tabela 2. Para obtenção dos índices dos preços e salário tomou-se os valores reais relativos ao período 1981-85 atribuindo-lhes o índice 100, como base. Os índices dos demais períodos foram calculados a partir dessa base.
No período 1981-85 a 2001, o salário mínimo decresceu 44 pontos percentuais. Por outro lado o seu poder de compra, embora decrescente até 1995, reagiu a partir deste ano e recuperou em 2001 o mesmo patamar que tinha no período 1981-85.
Em relação aos preços, observou-se no varejo uma queda menos acentuada (57) quando comparada com o segmento produtivo (37). Isto significa uma perda para o produtor, em relação ao varejo, de 20 pontos percentuais.
Preços ao produtor como percentual sobre o preço de varejo
Na Tabela 3 são apresentados os preços que o produtor receberia, tomando como referência diferentes percentuais sobre o preço do leite no varejo. Para o ano de 2001 foi observado o preço ao produtor de R$ 0,33 correspondendo a 43% do preço no varejo. Por outro lado, no período 1981-85, em termos médios, o preço ao produtor correspondeu a 68% do preço no varejo. Mantido esse percentual, o preço ao produtor em 2001 teria sido de R$ 0,52.
Entre estes valores extremos do período, foram simulados diferentes percentuais que aplicados ao preço do varejo resultaram nos preços que o produtor receberia caso estas referências tivessem prevalecido. Por exemplo: se o produtor recebesse 50% do preço praticado no varejo, teria recebido, em média, R$ 0,39 por litro, durante o ano de 2001.
Conclusões
Os resultados apresentados sugerem que houve uma transferência de renda do segmento produtivo para outros elos da cadeia (indústrias processadoras / embalagem, distribuição, mercado etc.). Além disso, indicam que a redução na renda líquida da atividade leiteira, decorrente de preços menores ao longo dos anos, requer ajustes no comportamento dos produtores, tanto em relação ao sistemas de produção quanto as formas e mecanismos de comercialização do produto. Certamente, decisões e práticas que visam maior eficiência na produção e na venda do produto devem ser uma preocupação constante, sob pena de serem excluídos da atividade.
No que se refere ao segmento da produção, além da redução do custo por litro deve haver uma busca constante de crescimento na escala de produção (quantidade produzida). Sendo o leite um produto que proporciona reduzida margem de lucro por unidade, somente através do aumento da escala de produção será possível a obtenção de uma renda líquida satisfatória para manutenção da atividade e crescimento do produtor como empresário.
Em relação a comercialização, a identificação de novas estratégias a ser adotadas pelos segmentos da cadeia do leite é prioritária. Estas novas estratégias devem buscar a construção de vínculos transparentes e sólidos no relacionamento produtor - indústria. Este relacionamento, obrigatoriamente, passa por um sistema de pagamento que privilegie o produtor especializado, com preços mais estáveis, valorizando a qualidade do produto, estimulando a regularidade da produção, e garantindo mais segurança e confiança entre os agentes envolvidos.
Tabela 1 - Evolução anual do salário mínimo e seu poder de compra, preços médios do litro de leite ao produtor e no varejo e relação de preços produtor/varejo.
Obs.: Valores corrigidos pelo IGP-DI para dezembro 2001.
Fonte: Dados originais: Banco de Dados www.cnpgl.embrapa.br Cálculos: L. A. Stock.
Tabela 2 - Índices de preços do leite, do salário mínimo, do poder de compra do salário mínimo e da relação de preços produtor/varejo. Base: 1981-85 = 100.

Fonte: Dados originais: Banco de Dados www.cnpgl.embrapa.br Cálculos: L. A. Stock.
Tabela 3 - Preços que o produtor estaria recebendo no ano de 2001 tomando como referência diferentes percentuais em relação ao preço no varejo.

Preço no varejo: foi considerado como referência R$ 0,77/litro, que foi o valor médio de 2001.
Fonte: Dados originais: Banco de Dados
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