A inclusão do leite no Programa Fome Zero é uma das formas de garantir maior estabilidade de preços no setor lácteo. Estima-se que, com o programa implementado integralmente, o consumo interno sofrerá um incremento de, aproximadamente, cinco bilhões de litros de leite. O aumento do consumo interno garantirá preços mais atrativos para a classe produtiva, incentivando os investimentos para o crescimento da produtividade.
Os cálculos feitos pelo Ministério da Segurança Alimentar de Combate a Fome indicam uma demanda de 3 milhões de hectares a mais para produção de alimentos para atender ao Programa Fome Zero. Entretanto, os baixos índices técnicos do setor leiteiro, como produtividade aproximada de 1.200 kg/vaca/ano de leite evidenciam que aumentos da produtividade de apenas 20%, implementando a produtividade atual das 17.500 milhões de vacas para 1.400 kg/vaca/ano de leite, podem atender às necessidades de consu-mo sugeridas pelo Ministério sem acréscimos na área a ser explorada com a pecuária leiteira.
O baixo potencial produtivo da maioria das pastagens, inclusive nas princi-pais bacias produtoras de leite do País, constitui uma das principais limita-ções na produção de leite do rebanho bovino brasileiro. A produtividade das pastagens brasileiras é baixa devido, principalmente, à carência de nitro-gênio, fósforo e potássio, nutrientes que mais limitam a produção. Outro fator limitante refere-se ao fato de que na maioria das regiões fisiográficas brasileiras verificam-se duas estações climáticas bem distintas: a chuvosa, em que a umidade, a temperatura e a luminosidade são, geralmente, favo-ráveis ao crescimento das espécies tropicais e a da seca, em que esses fatores são, quase sempre, adversos. Como conseqüência, ocorre marcan-te estacionalidade anual de produção de forragem.
Por outro lado, a produção de leite de vacas em pastagens de capim-elefante (Pennisetum purpureum) e em forrageiras do gênero Cynodon, adubados com nitrogênio, já é bem estudada na Embrapa Gado de Leite. Produções diárias de leite de 12 a 14 kg/vaca em pastagem de capim-elefante, manejada em sistema rotativo e adubada com 200 kg de nitrogênio e de K2O/ha/ano, foram observadas. Esses ní-veis de produção de leite em pastagens tropicais parecem estar próximos do limite máximo de produção obtidos com vacas mestiças com potencial ao redor de 4.500 kg/lactação.
Torna-se evidente que o aumento da produção de leite é imprescindível e urgente para atender diretamente ao Programa Fome Zero e, indiretamente, à geração de empregos e a fixação do homem no campo. Porém, deve-se estar atento para que este aumento da produtividade por meio da intensifi-cação da exploração não venha a agredir mais o meio ambiente. Existe um reconhecimento, não só da comunidade técnico-científica como também dos governos acerca da necessidade de adoção de ações que promovam um redirecionamento das atividades agropecuárias, a fim de garantir a con-servação dos recursos naturais para as gerações futuras.
Há muitas evidências de que as atividades humanas são causadoras de mudanças no meio ambiente. Os aumentos nas concentrações atmosféri-cas de CO2NO2 e outros gases-estufa causados por emissão dos solos depois do desmatamento mostram que a derrubada e a queima das matas nas áreas tropicais é assunto de impor-tância global. Entretanto, de todos os problemas ambientais advindos do avanço da agricultura nacional, o mais importante, sem dúvida, é a erosão hídrica, que vem, a cada ano, se agravando, comprometendo os recursos naturais e pondo em risco a produção econômica, além de degradar o seu mais importante recurso: o solo.
Um tema enfatizado pela agricultura orgânica é a exploração de policultivos que estimulam a biodiversidade. Em um sistema de produção orgânico a alimentação do rebanho deve ser equilibrada e suprir todas as necessida-des dos animais. O consórcio de gramíneas e leguminosas na pastagem é recomendado e é exigida a diversificação de espécies vegetais. Sugere-se a implantação de sistemas silvipastoris (SSP), nos quais as árvores e arbus-tos fixadores de nitrogênio (leguminosas) possam se associar com pasta-gens. Nos SSP, além da fixação do carbono na gramínea e na leguminosa herbácea (caso exista), há acúmulo de carbono na madeira e nas raízes das árvores. Em geral os SSP têm maior produtividade primária líquida como conseqüência da sua maior captação de luz, maior ciclagem de nutrientes e maior eficiência no uso dos recursos como água. Maior produtividade pri-mária líquida implica maior imobilização de carbono no sistema.
A presença da leguminosa aumenta a disponibilidade de forragem da pas-tagem consorciada, tanto por sua contribuição per se como pela disponibi-lização de nitrogênio, estimulando o crescimento da gramínea. Mesmo com menor área para crescimento, por causa da presença da leguminosa na pastagem, a B. decumbens consorciada com o S. guianen-sis apresentou produção de MS semelhante à da monocultura, evi-denciando que a leguminosa tenha aumentado a quantidade de nitrogênio no solo, contribuindo para o crescimento da gramínea. A massa de forra-gem na pastagem consorciada foi maior que a do monocultivo.
A produção de leite pode ser incrementada com a introdução de SSP nas propriedades. Resultados indicam que aumentos de produção podem ser obtidos usando-se práticas recomendadas num sistema orgânico, evitando-se o uso de adubos químicos e preservando o meio ambiente.
Temos que estar atentos para não repetirmos os erros cometidos nas dé-cadas passadas. Nos últimos 50 anos, todos os esforços de pesquisa fo-ram orientados para desenvolver tecnologias de alto rendimento, fortemen-te dependentes de grandes insumos e orientadas, principalmente, para a maximização da produtividade. Além do aumento da produção e produtivi-dade, agora é hora de pensar nos aspectos ecológicos envolvidos na ca-deia produtiva do leite.
Leite orgânico - uma saída para aumentar a produção
Publicado por: Luiz Januário Magalhães Aroeira
Publicado em: - 4 minutos de leitura
Material escrito por:
Luiz Januário Magalhães Aroeira
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ELCIO CARVALHO RODRIGUES
RIO DE JANEIRO - RIO DE JANEIRO - PRODUÇÃO DE LEITE
EM 24/02/2003
Muito oportuno o artigo. No entanto, não encontro informações comparativas entre os sistemas tradicionais de produção e o sistema orgânico, do ponto de vista do retorno econômico para o produtor. Há mercado para o leite orgânico? Há interesse das cooperativas/empresas do setor em explorar este segmento?
<b>Resposta</b>:
Infelizmente, pelo menos do meu conhecimento, ainda não existe no Brasil, uma comparação econômica entre os custos de produção de leite convencional e o orgânico. O mercado para o leite orgânico, com selo da Certificadora, é informal. Devido ao pouquíssimo volume da oferta, o leite orgânico é vendido em feiras e em algumas poucas lojas especializadas. Conheci uma mercearia em Campinas que estava pretendendo vender leite certificado. A única produção certificada que eu conheço fica em Brasília e o produtor vende o leite em feiras por um preço três vezes maior do que o produto convencional. Acredito que haja demanda, mas a oferta ainda é tão pequena que não existe, por enquanto, interesse formal das cooperativas em explorarem este segmento. A produção orgânica de leite, está apenas iniciando. Muito ainda tem e deve ser feito a esse respeito.
Espero ter esclarecido as dúvidas do Sr. Elcio, muito pertinentes, por sinal. Disponho a fornecer maiores esclarecimentos, se necessário for. Luiz Aroeira, EMBRAPA - Gado de Leite.
<b>Resposta</b>:
Infelizmente, pelo menos do meu conhecimento, ainda não existe no Brasil, uma comparação econômica entre os custos de produção de leite convencional e o orgânico. O mercado para o leite orgânico, com selo da Certificadora, é informal. Devido ao pouquíssimo volume da oferta, o leite orgânico é vendido em feiras e em algumas poucas lojas especializadas. Conheci uma mercearia em Campinas que estava pretendendo vender leite certificado. A única produção certificada que eu conheço fica em Brasília e o produtor vende o leite em feiras por um preço três vezes maior do que o produto convencional. Acredito que haja demanda, mas a oferta ainda é tão pequena que não existe, por enquanto, interesse formal das cooperativas em explorarem este segmento. A produção orgânica de leite, está apenas iniciando. Muito ainda tem e deve ser feito a esse respeito.
Espero ter esclarecido as dúvidas do Sr. Elcio, muito pertinentes, por sinal. Disponho a fornecer maiores esclarecimentos, se necessário for. Luiz Aroeira, EMBRAPA - Gado de Leite.