Leite com soro: mentira tem perna curta

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Gostaria de expressar algumas considerações sobre a entrevista concedida pela Dr.ª Daniela Rodrigues Alves , da ABLV, ao MilkPoint.

Em primeiro lugar é preciso deixar claro que ninguém é contra o aproveitamento pleno do leite, seus derivados e subprodutos a nível de indústria e portanto de consumo. É preciso deixar no passado a prática de alimentar suínos com soro, ou de lançá-lo em cursos d'água. O que vem gerando forte reprovação por parte de lideranças do setor é a forma proposta para utilização do soro: diluir (para não dizer batizar) leite e produtos lácteos com soro, de forma pouco evidente ao consumidor. O termo batizar explica a referência à fraude que tem permeado as críticas ao projeto. Se hoje há não só evidências como por vezes comprovação de fraudes por adição de soro ao leite destinado ao consumidor, a partir da regulamentação esta prática se reveste de uma aura de legalidade, embora a fragilidade da fiscalização e a conveniência ética continuem as mesmas.

A forma pouco evidente com que se informa o consumidor da diluição, contribui para a correlação com fraude. O próprio nome, leite modificado, num mercado consumidor com baixo nível de informação, que considera o produto uma commodity, é uma atitude perigosa, para não dizer de má fé. É evidente que o consumidor não irá interpretar o termo "modificado" como "diluído", "batizado" ou coisa parecida. O argumento de que a composição do produto, impressa na embalagem, é suficiente para esclarecer o consumidor, é tão pequeno quantas as letras utilizadas na embalagem.

Além da ética duvidosa da regulamentação proposta, é preciso atentar também para os prejuízos diretos que esta pode causar a todo o setor. Embora a ampliação da base de consumo pareça evidente, a questão é mais complexa do que isto. Na verdade, dois comportamentos distintos são esperados dos consumidores. De um lado ex-consumidores de leite que não mais podiam arcar com esta despesa são motivados a voltar a consumir leite atraídos pelo preço reduzido do leite diluído. Neste caso o setor precisa vender mais de um litro do produto diluído para colocar um único litro de leite no mercado. De outro, consumidores que ainda consomem leite migram para o produto diluído atraídos pelo preço reduzido. Neste caso o setor perde vendas na exata proporção da diluição: quanto mais a indústria diluir, atraída pelo lucro fácil, menos leite o setor vende.

Preocupa-me ainda o prejuízo à imagem do setor à medida em que as críticas à diluição vierem não do próprio setor, mas sim das entidades de defesa do consumidor.... Afinal de contas, é possível enganar muitos por algum tempo ou alguns por muito tempo, mas nunca todos para sempre (em bom português, mentira tem perna curta).

Concorre ainda contra a regulamentação proposta a fragilidade de nossa fiscalização. Como bem lembrou a Dr.ª Daniela, a análise do nível de adição de soro "não seria de rotina"; ou ainda " ... hoje, pode estar havendo adição de soro sem que estejamos quantificando," e, por fim: " não é a existência da lei que evitará a fraude."

Para terminar quero reiterar minha defesa pelo aproveitamento de maneira integral do leite, seus derivados e subprodutos. Apenas insisto que isto se dê de maneira inteligente e ética. A própria Dr.ª Daniela cita o uso do soro em produtos não lácteos, como pães e biscoitos. Isto sim amplia a base de consumo, sem risco de canibalização, pegando carona em outros mercados. A separação do soro em seus componentes principais, como proteínas e lactose, é outro exemplo, já comum em muitos países. Gerando novos insumos para outras indústrias alimentícias, agrega valor e amplia sua gama de aplicação. Frente a estas alternativas, a solução proposta de servir de diluente só é comparável à de alimento de pocilgas.
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Material escrito por:

Andre Zanaga Zeitlin

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Fernando Zaparolli
FERNANDO ZAPAROLLI

PEREIRA BARRETO - SÃO PAULO - PESQUISA/ENSINO

EM 16/05/2002

Sou acadêmico de medicina veterinária e concordo plenamente com o autor deste artigo. E também acho que já está prejudicando o setor, principalmente o leite em saquinho, pois sabemos que muitas marcas e empresas adicionam o soro no leite em caixinha, fazendo com que seu preço final seja ridiculamente baixo. E, infelizmente, alguns consumidores optam pelo mais barato. Com isto, "puxa" o preço do comércio lá para baixo, enquanto que a qualidade fica em segundo plano para estas empresas desonestas (este é o termo).

Em minha cidade, Marilia, tem leite em caixinha sendo vendido a 0,75R$, vindo de locais com mais de 900 km de distância (aumenta custos...). Um absurdo, e fazendo testes físico-químico e até microbiológico, vemos a "porcaria" que é o leite. E isto é rotulado depois para todos os tipos, prejudicando ainda mais o mercado.

Chega de ladroagem no leite. Está na hora de investir não só na qualidade do produtor, mas também na qualidade final do produto in natura. Com relação ao leite, só exigem do produtor. Quem industrializa o produto faz o que quer e não acontece nada. E na prateleira ou na geladeira a qualidade está caindo e ninguém atenta para isso.
Qual a sua dúvida hoje?