Nas últimas três décadas, mudou o padrão de crescimento da produção de leite no Brasil. Nos anos 70, esse crescimento foi explicado pelo aumento do número de vacas; nos anos 80, as participações dos aumentos da produtividade e do número de vacas ordenhadas na explicação dos crescimentos da produção foram praticamente iguais. Entretanto, nos anos 90, quem puxou o crescimento da produção de leite foi o aumento da produtividade, segundo dados da Tabela 1.
Tabela 1. Taxas anuais de crescimento da produção de leite, da produção/vaca ordenhadas e do número de vacas ordenhadas, no Brasil

O significativo crescimento da produtividade, nos anos 90 (5,4% ao ano), reflete as mudanças estruturais verificadas nos sistemas de produção, que respondem pela maior parte da produção nacional. Maior abertura comercial, desregulamentação do mercado de leite e queda da inflação foram os argumentos que mais contribuíram para as mudanças estruturais verificadas. Aliado a essas variáveis macroeconômicas, não se pode deixar de reconhecer o importante papel da pesquisa agrícola, cujas inovações tecnológicas permitiram aumentos de produtividade.
As mudanças nas fontes de crescimento da produção contribuíram para alterar as participações relativas dos diversos grupos de produtores na produção total. Segundo dados da Itambé (Tabela 2), em 1990, os pequenos produtores respondiam por 21% da produção recebida por esta cooperativa central e, em 2000, apenas por 2%. No outro extremo, os grandes produtores respondiam, em 1990, por 10% da produção total e, em 2000, por 60%, ou seja, os pequenos participaram menos e os grandes participaram mais da captação de leite da Itambé, no período de 1990 a 2000.
A maior participação da produtividade, como fonte de crescimento da produção, indica o crescimento de sistemas especializados na produção de leite, os quais têm maior elasticidade de oferta. Segundo pesquisa desenvolvida por Daniel Pacífico Homem de Souza, em 2000, na Universidade Federal de Viçosa (tese de mestrado), os sistemas de gado zebu têm 0,430 de elasticidade de oferta; os de gado mestiço, 0,653; e os de gado holandês, 1,471.
Tabela 2. Participação do número de produtores e da produção de leite do sistema Itambé

O crescimento da produtividade, verificado na década de noventa, ajudou a compensar, pelo menos em parte, a queda nos termos de troca daqueles produtores que tiveram condições de conhecimento e recursos financeiros de adotarem tecnologias que possibilitaram os ganhos de produtividade.
Nos anos 90, o crescimento de 3,4% ao ano na produção de leite, foi maior que o crescimento da população, que foi de 1,44% ao ano. Em outras palavras, houve crescimento da produção per capita, comportamento que se repetiu em 2000 e 2001, desenhando um cenário de eventuais excessos de produção, para os atuais níveis de crescimento do consumo. Nesse contexto, problemas relacionados com o consumo de lácteos assumiram maiores proporções que os relativos à produção.