Em 1996, Greenspan, o poderoso Presidente do Federal Reserve - Fed, vendo a euforia do mercado com relação às ações de alta tecnologia, classificou a situação, profeticamente, com a expressão "exuberância irracional", que se tornou célebre. De fato, em 2000 suas previsões se concretizaram e estas ações despencaram.
Agora, vendo as fraudes que estão acontecendo com a contabilidade de grandes multinacionais dos EUA, Greenspan definiu a situação com mais uma expressão que ficará para a história: "a ganância infecciosa" dos líderes empresariais.
No Brasil, há vários anos, os grandes laticínios vem aviltando o preço pago ao produtor, contando nesse processo com a ajuda dos supermercados e da omissão do Governo. Em valores reais, ou seja, deflacionados, o preço do leite ao produtor caiu significativamente enquanto os custos de produção aumentaram apesar dos ganhos de produtividade dos produtores.
Em 2000, face à falta de leite e a conjuntura, os preços pagos ao produtor tiveram uma tímida reação. Mas em 2001 o preço ao produtor foi derrubado violentamente em plena entressafra, sob alegação de que face aos preços de 2000 havia em 2001 um excesso de oferta. Talvez para tentar encobrir a realidade, alguns contratos de exportação de lácteos foram assinados, e embora pouco significativos em termos de volume, foram amplamente divulgados na mídia como a solução para o excesso de oferta. Mas a realidade foi outra, pois em 2001 o balanço do ano mostrou um Brasil ainda importador de leite e lácteos, com suspeitas das importações de soro de leite estarem sendo utilizadas para fraudes. Em 2002, apesar de alguma melhoria dos preços ao produtor ainda durante a safra, a desastrada ação dos laticínios no ano anterior não permitiu a recuperação da oferta nacional, e apesar do crescente aumento do dólar americano, as importações aumentaram. No primeiro semestre de 2002 as importações de leite subiram 10,6% com relação ao mesmo período do ano anterior. Em diversos estados foram instaladas CPI's, acusando os grandes laticínios e os supermercados de abuso de poder econômico.
Em 2002, a partir de maio, já começaram os "balões de ensaio" dos laticínios, com insinuações de que o preço começaria a cair a partir do próximo mês.
Se Greenspan fosse brasileiro e analisasse o que vem acontecendo com o preço do leite, provavelmente usaria de uma só vez as duas frases célebres para caracterizar a situação: "exuberância irracional e a ganância infecciosa" dos grandes laticínios.
Apesar dos balões de ensaio lançados desde maio, os preços ao produtor não caíram, pois não havia a menor condição de caírem, como não seria lógico que caiam pelo menos até setembro. Mas mesmo a partir de setembro não é lógico que caiam em reais de forma significativa. É preciso que a indústria entenda que a partir de agosto os produtores, além do custo operacional normal, estarão fazendo pesados gastos para o plantio de volumoso, não podendo ficar sob o fogo cruzado de uma queda de preços e do elevado aumento dos custos, ocasionados, além dos fatores de inflação interna, por um dólar extremamente elevado com relação a moeda nacional, que chegou inclusive superar a barreira dos R$ 3,00.
Se os preços caírem depois de setembro, novamente muitos abandonarão a atividade e muitos dos que ficarem reduzirão a produção, tentando novos negócios. O resultado é que as importações voltarão a crescer, condenando o Brasil a ser, como foi nas últimas décadas, um significativo importador de leite, apesar de ter as condições para ser um dos grandes exportadores mundiais.
Até agora parece que as duas célebres expressões de Greenspan cabem aos dirigentes dos grandes laticínios, que tem se portado com a sutileza de um elefante dentro de uma loja de cristal: a cada mexida causam um estrago espantoso na pecuária leiteira nacional. Esperemos que os erros do passado tenham servido de lição e que daqui para frente as coisas sejam diferentes.
Exuberância Irracional, Ganância Infecciosa e o Preço do Leite
Publicado por: Marcello de Moura Campos Filho
Publicado em: - 3 minutos de leitura
Material escrito por:
Marcello de Moura Campos Filho
Membro da Aplec (Associação dos Produtores de Leite do Centro Sul Paulista ) Presidente da Associação dos Técnicos e Produtores de Leite do Estado de São Paulo - Leite São Paulo
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