Dentro deste contexto, não se menciona que o mercado informal de carne é grande, que há pouco tempo atrás o país era importador, que a produção per capta é baixa, variando nos últimos dez anos de 30 a 40 kg/habitante/ano (FAO, 2003). Apesar de tudo isso, a exportação não tem sido considerada inapropriada ou problemática. A situação em outros países exportadores é diferente, pois a produção per capta da Austrália é 105 kg (maior exportador), da Nova Zelândia 151 kg e da Argentina 72 kg. Nos Estados Unidos, o maior produtor, a disponibilidade por habitante é de 44 kg/ano por causa da grande população de elevado valor aquisitivo e, por isso, o país também é o maior importador.
O setor leiteiro convive com dificuldades econômicas crônicas e insatisfação histórica, porque a produção tem sido basicamente para o mercado interno, e crises periódicas levam a grandes oscilações nos preços aos produtores desde que o leite entrou na economia de mercado em 1991. Esse problema ocorre apesar da disponibilidade per capta ser baixa, ao redor de 123 kg/habitante/ano (70 a 123 kg nos últimos 40 anos), quando comparada com 3.480 kg na Nova Zelândia, 708 kg na Holanda e 270 kg nos Estados Unidos, o maior produtor mundial de leite de vaca (FAO, 2002).
Uma das alternativas para o setor talvez fosse também a exportação de quantidades suficientes para enxugar o mercado, apesar do país ser um importador líquido de equivalente leite (Figura). Esse fato não deve ser encarado como restritivo para a venda externa, considerando o poder aquisitivo da população e o habito cultural de consumo baixo. Entretanto, a qualidade, que não é limitante para a carne após a erradicação da aftosa, pode ser um entrave para o leite. O segmento especializado que já existe teria condições de produzir para o mercado externo, mas em que quantidade? Para exportação competitiva há necessidade de garantir volumes suficientes para honrar contratos.
O problema enfrentado pelo setor lácteo do Brasil não é diferente do observado na Índia, o maior produtor de leite considerando todas as espécies que, por ter um déficit crônico de leite, fez um grande esforço e conseguiu aumentar a produção a um ritmo de 7% nos últimos anos e se encontra agora numa encruzilhada, pois o consumo mostrou elevação de somente 2% por causa do baixo poder aquisitivo da população. Com isso, os produtores não estão conseguindo nem estabilidade nos preços nem valor mais alto por um produto considerado importante para a renda de grande número de famílias que vivem da pecuária leiteira. Notícias daquele país revelam que a exportação também está sendo considerada como uma das soluções, que os preços são competitivos no mercado internacional, mas que a qualidade limita a tentativa de conquistar mercados ou ampliar a oferta de produtos de maior valor agregado.
São preocupantes as discussões políticas para retardamento da entrada em vigor no país de medidas que poderiam contribuir para conferir estabilidade ao setor, para desenvolvimento e estruturação, eliminando o estigma de péssimo negócio que o leite carrega desde o século passado. A pecuária leiteira poderia revelar o imenso potencial latente, ainda não explorado, para ficar em também em evidência.



Fonte: FAO, 2002