O setor produtivo leiteiro mineiro iniciou o ano sofrendo uma redução nos seus preços recebidos, conseqüência do período de safra (maior disponibilidade de matéria prima e retração no consumo), mas principalmente pela quebra da filial da Parmalat no Brasil e sua inadimplência junto ao seus fornecedores. O aumento na oferta de leite dos produtores nas diversas bacias leiteiras estaduais, associado à necessidade de escoamento do leite produzido principalmente na Zona da Mata, o qual anteriormente era vendido para a unidade da Parmalat de Itaperuma, permitiu aos laticínios derrubar a cotação paga ao produtor abaixo do que o mercado (oferta X demanda) sinalizava.
Se no front interno as notícias não eram favoráveis ao produtor, no front externo o resultado dos dois primeiros meses do ano também não eram nada animadores. As exportações, tanto nacionais quanto mineiras, apresentaram retração no valor e no volume exportado quando comparadas ao mesmo período do ano anterior. Esta queda nas vendas externas, e portanto maior disponibilidade da interna do produto, permitiu que o setor industrial pressionasse ainda mais as cotações do produto pagas ao produtor.
A partir do mês de março, o quadro desfavorável ao produtor de leite começa a se alterar. A reativação da atividade econômica, que se iniciou no terceiro trimestre do ano passado e continuou no primeiro de trimestre de 2004, foi confirmada pelas estatísticas oficiais de emprego e renda. De acordo com o "Cadastro Geral de Empregados e Desempregados" realizado pelo Ministério do Emprego e Trabalho, acusou-se o crescimento do saldo do emprego (admissões - contratações) formal em sete dos nove estados pesquisados nos quatros primeiros meses de 2004, sendo que em São Paulo, o principal consumidor de produtos lácteos, o aumento absoluto no numero de pessoas empregadas foi de 223.065, o que representou 51,5% de todo o emprego gerado no país no período de janeiro a abril (433.256).
Segundo a pesquisa mensal de emprego divulgada no boletim do IPEA, o aumento na renda nominal dos trabalhadores acumulou alta de 5,3% no primeiro trimestre de 2004 sobre o patamar alcançado em dezembro de 2003. Como os índices inflacionários se situaram em níveis bem mais baixos, permitiram uma recuperação real no rendimento do trabalho. O aumento no número de pessoas ocupadas, associado à recuperação do rendimento dos trabalhadores, permitiu a retomada das vendas de leite e derivados no varejo em 2004.
Pelo lado das exportações, o crescimento considerável nas quantidades e nos valores exportados nos meses de março e abril em nível de Brasil reverteu a queda dos dois primeiros meses de 2004. Ao mesmo tempo, as importações seguiram sua tendência de queda. No acumulado do ano, o crescimento nas exportações de leite e derivados foi 83% na receita e 46% na quantidade exportada, quando comparado ao mesmo período de 2003.
No acumulado de janeiro a abril de 2004 as exportações mineiras representaram 30% de todo o leite exportado, enquanto no mesmo período de 2003, este percentual encontrava-se na casa dos 9,6%. Este aumento nas exportações mineiras é extremamente benéfico para os produtores, pois quanto maior forem as exportações brasileiras e mineiras, menor tendem a ser as oscilações nos preços recebidos pelos produtores.
Estes quatros movimentos (recuperação na renda, aumento no emprego, elevação nas exportações e redução nas importações), em conjunto, deram sustentação para que o preço pago ao produtor pudesse iniciar uma recuperação a partir do mês de março. Apesar desta recuperação ser uma boa notícia para o setor, percebe-se que a recomposição no preço pago ao produtor esta se dando em ritmo lento. Quando se compara o preço médio atualizado de janeiro a maio de 2004 com o mesmo período do ano anterior, conclui-se que estes estão 14,34% menores. Esta redução nos preços de 2004, no comparativo de 2003, levou a uma redução na projeção do faturamento bruto (VBP) da pecuária de leite da ordem de 4,8%.
Para os próximos meses, a expectativa do setor produtivo é de elevação no preço pago ao produtor. Para isto, contribui o aumento da demanda dos laticínios e cooperativas para atender os mercados internos e externos, o que vem elevando de forma acentuada as cotações do leite spot nos mercados de Minas, Goiás e São Paulo, desde dezembro de 2003. Pelo lado da balança comercial, as exportações devem continuar a sua expansão, podendo no final do ano superar as importações, o que colocará o Brasil como um país exportador líquido de produtos lácteos. Para isto, têm contribuído os altos preços do leite em pó no mercado internacional e a desvalorização do real frente ao dólar, o que aumenta a competitividade das exportações nacionais no exterior.
Gráfico 1: Preços Pagos ao Produtor Mineiro Atualizados pelo IGP-DI de Maio de 2004
Elaboração: FAEMG/DETEC
Gráfico 2: Exportações de Leite e Derivados Brasileiros
Elaboração: FAEMG/DETEC
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1 Economista, Mestre em Economia Aplicada e Assessor Econômico da Federação da Agricultura e Pecuária de Minas Gerais - FAEMG
