Estudo sobre desempenho econômico da produção de leite no Semi-árido - Um pequeno estudo de caso - Ceará

A discussão que se segue é baseada no caso da região do Baixo Jaguaribe, composta por oito (8) municípios, localizada próxima à divisa do Ceará com o Rio Grande do Norte. Vale salientar que a condição predominante não é a predominante no semi-árido brasileiro, mas sim restrita a ilhas com disponibilidade de água e terra agricultável passíveis de utilização de irrigação.

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Por Rodrigo Gregório da Silva1, Cleber Medeiros Barreto2, Raimundo José Couto dos Reis Filho3, Alisson Regis Lima Nogueira4 e Marcos Neves Lopes5

A discussão que se segue é baseada no caso da região do Baixo Jaguaribe, composta por oito (8) municípios, localizada próxima à divisa do Ceará com o Rio Grande do Norte. Vale salientar que a condição predominante não é a predominante no semi-árido brasileiro, mas sim restrita a ilhas com disponibilidade de água e terra agricultável passíveis de utilização de irrigação.

Não diferentemente do restante do país, a pecuária leiteira local atravessou várias crises de ordem sócio-econômica, o que se traduziu na horizontalização da produção (elevação do número de animais x baixa produção) evidenciada, principalmente pelos baixos índices produtivos e econômicos, levando a crônica desestabilização do setor leiteiro como um todo, o que alguns especialistas da área consideraram como um círculo vicioso denominado de "atraso tecnológico induzido".

Outro ponto observado na atividade, talvez um dos mais comprometedores dos sistemas instalados no transcorrer destas últimas décadas, é o nível educacional do pessoal (capital humano), considerado muito aquém do necessário à uma empresa organizada, associado este a uma falta generalizada de capacidade gerencial por parte dos investidores (proprietários), o que se traduz numa fórmula exata para desestabilizar qualquer negócio, inevitavelmente levando colapso da atividade: sistemas frágeis (ingerência) x mão-de-obra semi-servil (trabalho penoso). O que não é controlado e medido não pode ser gerenciado.

Nesse ambiente, o empresário rural, que se acostumou a trabalhar por décadas com recursos disponíveis, com juros adequados a seu tipo de atividade e baixa concorrência, encontrou-se encurralado para continuar com sua atividade. Deve ser somada a isso, a ineficácia dos processos de gestão adotados nas Unidades Produtoras (UPs), que ainda seguem padrões antigos, baseados em princípios que busquem a resolução de problemas e tomada de decisões de forma empírica e reativa, sem a identificação correta de suas causas.

Foi iniciada toda uma abordagem sistêmica sobre a produção leiteira local, onde conjuntamente mobilizados órgãos oficiais de extensão e de pesquisa, empresas de insumos, laticínios, técnicos da área e produtores começam a enxergar, através de informações precisas, através de palestras, dias de campo, missões técnicas e capacitações um futuro promissor para aqueles que de forma direta ou indireta, até então trabalhara no setor leiteiro cearense. Passa-se a enxergar um verdadeiro sistema em ordenamento com potencial de produção, capaz de provocar um forte impacto regional no que tange a exploração leiteira.

As avaliações dos custos de produção de leite que se seguem são frutos de trabalho realizado pela Empresa de Assistência Técnica e Extensão Rural do Ceará - Ematerce, seguindo a metodologia do Projeto Pasto Verde/Caminhos de Israel durante os anos de 2004 a 2006.

Em seguida, são apresentadas figuras com o comportamento das variáveis Custo Operacional Efetivo (COE), Custo Total (CT) e Preço do Litro de Leite recebido pelo produtor (R$/L), de 11 produtores de um município da região do Baixo Jaguaribe, estado do Ceará, ao longo do ano de 2006 (Janeiro a Novembro).

Figura 1. Comportamento dos Custos Operacional Efetivo (COE) e Total (CT) e dos preços ao longo do ano de 2006 na região do Baixo Jaguaribe - CE.

Figura 1

O preço médio recebido pelos produtores (11) não apresentou grande variação ao longo do ano, mas houve leve tendência de redução no segundo semestre, ficando próximo dos R$ 0,60 por litro. Esse comportamento se repete nos últimos dois anos, diferentemente de outras épocas onde havia elevação dos preços em função da escassez desse produto na época seca do ano, fato esse não verificado nos últimos dois anos. Grande parte desse aumento da produção ocorreu com a entrada de novos produtores, bem como pela elevação da produção de parte dos tradicionais produtores da região estimulados pelo quadro satisfatório observado nos anos de 2004-2005 (primeiro semestre de 2005).

Já os custos apresentaram comportamento bastante variado ao longo do ano. De modo geral apresentaram comportamento padrão para região, onde os custos se reduzem na época das águas (menor uso de energia, suplementação concentrada e mão-de-obra) com posterior elevação no período seco. O pico de elevação dos custos foi verificado no fim das águas - início da seca.

Nesse momento, muitos produtores realizam processos preparatórios para o período seco do ano como re-ligação da energia, concerto dos sistemas de irrigação, preparo das áreas irrigadas, compra de suplementação concentrada, preparo de silagem, etc, podendo assim justificar esse comportamento.

No geral, o preço recebido pelo produtor foi suficiente para cobrir somente os custos operacionais, mas não foram suficientes para os custos totais, a não ser nos meses de março e abril. Deste fato resulta a atenção que os produtores deverão desprender sobre a melhoria desses índices, haja vista que se mantendo esse quadro ao longo dos anos as unidades produtivas tenderão a se descapitalizar, pois o valor recebido não é suficiente para cobrir todos os custos, como exemplo as depreciações e remuneração do capital, havendo a necessidade de avaliar o negócio periodicamente e tomar as decisões a cerca das alterações passíveis de uso e que venham a resultar em melhorias desses índices no curto prazo.

Ao se avaliar o comportamento desses índices separando-se por tamanho da área (menor que dois hectares e maior que dois, mas menores que cinco hectares) verifica-se que há diferença entre o preço recebido pelos produtores, sendo que os produtores com áreas menores que 2 ha obtém, em média, melhores preços (R$ 0,63 por litro de leite) por litro de leite que os produtores com áreas superiores a dois ha (R$ 0,55 por litro de leite).

Mesmo comportamento é verificado quando se avalia o comportamento do preço em função da produção média diária, onde os produtores com produção acima de 80 litros ao dia receberam menores preços (R$ 0,58 por litro de leite) que os produtores com produção inferior a esse limite (R$ 0,62 por litro de leite). Quando se confronta essas informações, verifica-se que os produtores com produção maior que 80 litros ao dia também possuem áreas superiores a 2 ha, salvo algumas exceções.

Foi verificado que grande parte do leite dos produtores com áreas inferiores a dois (2) ha e produção inferior a 80 litros ao dia são comercializados diretamente aos consumidores (venda porta a porta), sendo praticado preços superiores quando comparados com a indústria, explicando os valores médios superiores recebidos pelos produtores dessa categoria.

Fato preocupante foi verificado nesse estudo onde os produtores com áreas menores a dois (2) ha como também com produções menores que 80 litros de leite ao dia obtiveram CT superior aos preços recebidos ao longo do ano, a exceção do mês de abril. E com relação ao COE, dos 11 meses avaliados somente em quatro meses o preço recebido foi superior ao custo de produção.

Nesses casos existe comprometimento desses negócios logo no curto prazo, havendo grandes chances desses produtores (caso não busquem alternativas para solucionar tal situação) deixarem a atividades em poucos anos. Há extrema importância dos órgãos públicos de assistência técnica nesse momento, sendo eles os responsáveis pelo aporte tecnológico tão necessário a esses produtores, podendo ser os responsáveis pela manutenção dessa parcela da população em sua atividade tradicional, contribuindo na diminuição do êxodo rural por força da manutenção de condições financeiras e sociais adequadas a permanência dessa população.

Contrariamente ao ocorrido acima, os produtores com áreas superiores a dois (2) ha e produções acima de 80 litros de leite ao dia, a exceção do mês de julho, apresentaram valores de custo de produção (COE e CT) que lhes asseguraram leve lucratividade, mas continuam demandando informações sobre os processos envolvidos na produção como forma de melhorar seu desempenho financeiro, possibilitando a esses negócios condições de permanecerem viáveis ao longo dos anos.

Foram esses sistemas (maiores que dois hectares e com produção superior a 80 litros ao dia) mais equilibrados ao longo do ano, demonstrando característica desejada, em especial para sistemas de produção de base familiar onde a renda distribuída ao longo do ano lhes confere a manutenção do poder de compra mês a mês, favorecendo o equilíbrio das contas da casa e a aquisição de bens de consumo, como exemplo os alimentos não produzidos em suas propriedades.

A diluição dos custos fixos nesses sistemas com a elevação da produtividade assume importância significativa. Como qualquer outra atividade produtiva, a produção de leite em pastagens irrigadas com lotação rotativa, apresenta limites de produção onde a partir desse ponto há a possibilidade ou não de se obter lucro (ponto de equilíbrio) e esse resultado decorre da eficiência de utilização dos fatores de produção ali empregados.

A produção onde foi atingido o ponto de equilíbrio, em um sistema composto por um hectare (1 ha) irrigado, foi de aproximadamente 125 litros ao dia. Esse sistema é composto por pastagem irrigada de capim Tanzânia e animais holandeses PC. Esse comportamento foi verificado em outros casos. Vale salientar que essa produtividade é bastante elevada, não sendo comum a sua obtenção na região. Nesse sentido também se realizou estudo quando a área era de dois hectares (2 ha) e o que se verificou é que esse nível, em média, é o mencionado anteriormente (90 litros por hectare ao dia), o qual garante a cobertura dos custos totais.

Em levantamento realizado em novembro de 2006, tendo como objetivos identificar um nível de produção que apresentasse os índices financeiros (TIR: taxa interna de retorno; VPL: valor presente líquido; e B/C: relação benefício custo) satisfatórios, foi verificado que o nível de produção onde proporciona tal comportamento desejado era o de 2.000 litros ao dia, e preço real liquido recebido pelo produtor da ordem de R$ 0,52 por litro de leite.

Tabela 1. Avaliação financeira do investimento em sistema de produção de leite, com nível de produção de 2.000 litros ao dia, em sistemas de produção em pastagens irrigadas na região do Baixo Jaguaribe, Novembro de 2006.

Figura 2

Fonte: LEITE Nordeste - Consultoria e Assessoria Agropecuária


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1Agrônomo, M.Sc, Professor da FATEC - Sertão Central, ex-Agente Máster de Bovinocultura do Baixo Jaguaribe e Produtor de leite de Pequenas Áreas: rodrigogregorio@hotmail.com
2Zootecnista, M.Sc, Técnico da Adagri e Produtor de leite de pequenas áreas
3Zootecnista, M.Sc, Presidente da EMATERCE: rndoreis@ematerce.ce.gov.br
4Tecnólogo em Saneamento Ambiental, Agente Máster de Bovinocultura da Baixo Jaguaribe
5Graduando em Agronomia, ex-Agente Rural de bovinocultura do município de Limoeiro do Norte
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Ana Gláudia
ANA GLÁUDIA

OUTRO - CEARÁ - ESTUDANTE

EM 15/01/2008

trabalho
Eduardo Aguiar de Almeida
EDUARDO AGUIAR DE ALMEIDA

SALVADOR - BAHIA - PROFISSIONAIS DE CIÊNCIAS AGRÁRIAS

EM 23/02/2007

Chorar preços pagos pelo leite usando rebanhos com grau tão elevado de sangue holandês, inclusive PC, como informado, não é novidade, com todo respeito.

Vamos respeitar mais os fatores ambientais e não brigar com eles. Vamos prestar mais atenção no potencial econômico das raças e linhagens leiteiras zebuínas, sobretudo no Nordeste. Vamos pensar pra frente e não pra trás.

<b>Resposta dos autores:</b>

Caro Eduardo, concordamos com parte das afirmações realizadas por você, mas gostaríamos de relatar algumas particularidades que resumem melhor os sistemas avaliados.

O pensamento partidário (que até onde sentimos e pensamos não é característico nosso) é, ao nosso ver, no mínimo sujeito a interpretações apaixonadas. Nesse sentido, procuramos avaliar os sistemas de produção de leite da região de forma não partidária, como forma de tentar contribuir de forma positiva.

O exemplo das holandesas PC foi simplesmente para demonstrar um produtor que busca a maximização da eficiência de seu sistema (nessa afirmativa não está incluido o conceito de maximização da produção a todo custo, mas a maximização dos retornos).

Em regiões onde o hactare de terra gira em torno de 4.000,00, com custo da irrigação da ordem de 5.000,00 por ha, restrição na disponibilidade de terra com propriedades em torno de 5-10 ha, não há possibilidade de se viver com o leite com uma produção diária muito reduzida. Necessita-se de um volume diário que proporcione renda mínima a essas familiar.

Os produtores que geraram esses dados possuem animais sem raça definida, mestiços de zebú com animais tipo pardo suiço, mestiços de guzerá, mestiços de holandes, etc. Nesse sentido, a situação não está boa para nenhum deles. O das holandesas está um pouco melhor, mas isso não quer dizer que holandes é melhor, mas o sistema poderá está sendo mais eficiente, por conta da gestão, do uso da informação de forma precisa, do pessoal envolvido, etc.

Queremos mostrar que deve-se atentar para a gestão dos sistemas e não para uma parte do sistema. Não há grande justificativa em se defender partidos mas sim, os resultados adequados, compatíveis com os objetivos dos sistemas.

Nesse aspecto poderiamos obter os resultados esperados com holandes, pardo suiço, gir (leiteiro), guzerá, cruzamentos, etc. Vai depender dos objetivos, das condições da propriedade, dos desejos dos proprietários, etc.

Às vezes olhar pra trás, procurando aprimorar o presente, poderá gerar bons frutos no futuro.

Rodrigo Gregório da Silva

<b>Resposta de Eduardo Aguiar de Almeida:</b>

Prezado Rodrigo,

Não se trata de partidarizar a questão. Não é o meu caso. Quando muito, vemos sim, de fato, os aspectos políticos originários por trás de certas mentalidades tradicionais. Claro que na questão da genética bovina para leite essa questão deve ser vista sob dois prismas: um pragmático e outro estratégico. E tudo tendo em vista a viabilidade econômica e a sustentabilidade, esta tanto econômica quanto ambiental.

Sem dúvida, tudo tem que levar em conta a capacidade de retorno, de rentabilidade, por seus aspectos estruturais e não aparentes ou contextuais. Então, competitividade no longo termo é essencial, sem dúvida. E hoje, eu não tenho a menor dúvida de que genética zebu leiteiro aprimorada, já amplamente disponível no mercado (no caso, sêmem, pois matrizes ou embriões ainda são pouco acessíveis), sobretudo das raças gir e guzerá, sao ferramentas cruciais por motivos sobejamente demonstrados.

Grato pela atenção,
Eduardo Almeida

<b>Resposta dos autores:</b>

Agradecemos a oportunidade de discussão sobre esse assunto. Concordamos com a idéia dos benefícios gerados atualmente e futuros das raças zebuinas ao sistemas de produção de leite e/ou carne.

Vislumbramos possibilidades de sistemas de produção de leite baseados em um zebú e/ou seus mestiços. Sistemas esses com grande apelo, tendo em vista a sua possível classificação em produtor de alimentos mais saudáveis, sistemas com menor uso de insumos externos, de maior valor agregado, etc.

Aqui na faculdade estamos planejando um sistema com essas características, bem como dois outros com caracteristicas similares aos existentes atuais na grande maioria das propriedades, como forma de contribuir nesses sistemas. Para aqueles que despertarem para o modelo natural, existirá o terceiro (mencionado no início).

Ontem estivemos em propriedade onde cria-se Guzerá leiterio. Tivemos a oportunidade de ver 6 exemplares com lactações da ordem de 6.000 kg de leite (acompanhamento oficial). Animais cruzados e puros. Sistema de produção de leite com percentual de gordura de 5,5 %, de maior valor recebido, dentre outras vantagens.

Acreditamos nesses sitemas so estamos buscando informações sobre sistemas que sejam passíveis de utilização nas condições de semi-árido do ponto de vesta técnico, financeiro, ambiental e social.

Atenciosamente,

Rodrigo Gregório da Silva
Jairo Braga da Silva
JAIRO BRAGA DA SILVA

GARANHUNS - PERNAMBUCO - PRODUÇÃO DE LEITE

EM 22/02/2007

É de suma importância o mapeamento das várias regiões produtoras de leite do Nordeste - qual o melhor sistema de produção de cada uma, formação de UDs e forte presença da extensão rural principalmente na capacitação humana.

Com a IN 51 entrando em vigor já neste ano, o produtor tem que fazer a sua parte. Porém, tem que cobrar do poder publico que também faça. A atividade leiteira é a única certeza de renda no semi-árido gera emprego, fixa o homem.

É uma atividade de cunho social muito grande, precisa por isso de uma melhor atenção do Governo, pois o retorno do dinheiro empregado no campo é dez vezes mais eficiente do que o gasto na cidade com o êxodo rural.
Qual a sua dúvida hoje?