Por José Luiz Bellini Leite1
Se existem conceitos em pecuária leiteira bastante conhecidos e discutidos, o custo de produção, seguramente, está entre eles. Esse conceito ficou em evidência e se tornou por demais conhecido, devido ao seu papel no passado, de instrumento de estabelecimento do preço do leite. Era papel do governo determinar o preço do leite, por meio de tabelamentos, os quais eram estabelecidos com base em planilha oficial de custos de produção elaborada pela Embrapa Gado de Leite.
Toda essa história é conhecida do setor e a memória da vinculação do preço com o custo ficou, àquela época, bastante estabelecida. A estimativa dos custos de produção para uma região específica é um processo complicado devido a grande diversidade de sistemas de produção encontrados. O que se pode fazer é estimar custos médios ou custos de propriedades, sejam reais ou virtuais, chamadas de representativas. Isto sempre provoca polêmica, pois produtores que conseguem custo abaixo daquele estimado ficam em silêncio com relação ao valor encontrado, e produtores que conseguem custos mais elevados ficam contrariados. Na verdade, quando se estima custo de produção de dada região ou localidade, corre-se o risco de não agradar ninguém e desagradar muitos.
Parece equívoco querer utilizar o custo de produção como instrumento de negociação do preço a ser pago aos produtores de leite como no passado. Em uma economia aberta e concorrencial os preços são determinados no mercado por meio do ajuste entre a demanda e a oferta. Assim, utilizar os custos de produção como instrumento de pressão para se obter melhores preços parece bastante desatualizado.
Quem busca conhecer a cadeia láctea irá achar o poder de determinação dos preços junto ao consumidor - por meio de seu poder de compra e percepção sobre a utilidade que os produtos a serem adquiridos possuem para ele - e a lógica econômica das grandes redes varejistas. A partir desse embate inicial (rede varejista - consumidor) é que se determinam os preços e as margens ao longo da cadeia. Cabe destaque que as redes varejistas têm retirado das processadoras de leite o papel de regentes da cadeia láctea. Por isso, negociar a remuneração da produção por meio de planilha de custo parece inócuo.
Cabe destaque ainda que o ajuste inicial varejo-consumo, estabelece o teto para trás na cadeia do leite no que se refere a preços e margens. Outro destaque importante é que o processo de "embate" ou negociação é reproduzido ao longo da cadeia e a lógica que tem prevalecido é a de que, quem pode mais se apropria de mais margens, do que quem pode menos.
Pode-se afirmar que no agregado o mercado de leite é concorrencial. Todavia, merece estudo a coleta de leite a nível regional onde as poucas opções de entrega de leite que o produtor possui podem indicar a existência de estruturas oligopsônicas, com grande poder de negociação. Considerando ainda a característica de produto perecível do leite - o que enfraquece a posição do produtor nas negociações - acenar com custos para se estabelecer preços parece mais choramingo do que estratégia de negociação.
Se a lógica do mercado é prevalente, e está calcada em negociação, é preciso estabelecer estratégias sólidas e competentes para se negociar. A primeira estratégia que parece bem óbvia, já que a questão é queda de braço, é fortalecer o poder de barganha dos produtores. Para que isto ocorra é preciso que a negociação seja coletiva, ou agrupada. Um produtor isolado, por maior que seja, é por demais fraco para fazer frente a uma compradora de leite. A fórmula de agrupamento mais utilizada ao redor do mundo tem sido as cooperativas. Assim, fortalecer as cooperativas e se juntar a elas é a melhor estratégia de fortalecimento do poder de mercado que o produtor pode obter.
A segunda estratégia a ser considerada é a competência nas negociações. Historicamente as cooperativas foram geridas pelos próprios produtores muitos dos quais sem a capacitação técnica adequada para aquela empreitada. Além do que, quando do estabelecimento das cooperativas elas passaram, como instituição nova, a ter interesses próprios, muitos dos quais não se coadunavam necessariamente com os interesses dos próprios produtores que as criaram. É como se a criatura se voltasse contra seu criador, ou se sentisse maior do que ele. Isto leva a uma indicação também bastante conhecida que mostra a necessidade de profissionalização gerencial das cooperativas.
Essa profissionalização deve ser conduzida de forma a colocar na mão de profissionais com formação adequada para a gerência, um plano de ação com resultados esperados e que serviriam de indicadores de desempenho a serem verificados em dado espaço de tempo. Essa verificação poderia ser caracterizada como um controle social de desempenho da cooperativa e caberia, necessariamente, aos cooperados. Isto é completamente diferente de se colocar um produtor formado nas lides do campo na frente de batalha do mercado concorrencial, ou mercado com imperfeições que possibilitem o surgimento de estruturas oligopsônicas.
A terceira estratégica a ser considerada é a obtenção de alianças estratégicas de longo prazo entre produtores/cooperativas - industrias processadoras de leite. Essa estratégia de difícil obtenção deveria estar alicerçada em instrumentos formais como os contratos de compra de leite. Esses deveriam possuir uma característica temporal - prazo médio de dois anos - e estrutura flexível que permita negociação para absorção das oscilações do mercado.
E onde fica o custo de produção nessa conversa toda? Pode-se considerar as estimativas dos custos de produção médios de dada região como informação reservada para agentes negociadores. Nesse caso, não se deve perder de vista sua característica de média e de ser somente uma indicação aproximada dos custos possíveis de serem encontrados nas diferentes propriedades da região considerada.
Na verdade, a principal finalidade da obtenção dos custos de produção está na possibilidade de conhecer onde se pode melhorar a atividade. Sabem-se os impactos dos diversos fatores de produção no custo final do produto e com isto pode-se tomar decisão e priorização onde se deve dar maior atenção para obter melhorias. Assim, custo de produção é instrumento gerencial de controle da produção, por conseguinte, ele se encontra no nível micro das propriedades. Aí sim ele é muitíssimo importante, devendo servir de feedback para o produtor no seu processo de tomada de decisão.
Enfim, pode-se dizer que a relação dos custos de produção com os preços recebidos pelos produtores encontra guarida no nível da fazenda, quando o produtor verifica suas margens, ou a nível agregado de dada região como informação reservada e de acesso restrito. Pensar ou insistir na utilização dos custos de produção como instrumento de pressão nas negociações da remuneração dos fatores de produção nas propriedades parece uma ação de volta ao passado quando o agronegócio do leite possuía indicadores de desempenho muitíssimos acanhados.
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1Coordenador do Grupo de Pesquisa Socioeconomia do Agronegócio do Leite - Embrapa Gado de Leite
Estabelecimento de preço pago ao produtor de leite é uma ação atrelada ao custo?
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RUI DA SILVA VERNEQUE
JUIZ DE FORA - MINAS GERAIS - PESQUISA/ENSINO
EM 01/07/2004
Prezado Bellini:
Muito oportuno seu artigo. Muitos acham que o preço que deveria receber tem de ser maior do que o custo, mas esquece de avaliar se sua atividade está sendo conduzida com eficiência. Por outro lado, como você bem disse, sabendo-se o custo e o preço recebido, é possível corrigir rumos: melhorar a eficiência, reduzir custo ou abandonar a atividade, se não for possível produzir a um custo inferior ao preço recebido.
Abraços,
Rui
<b>Resposta do autor:</b>
Caro Rui,
O levantamento dos custos de produção em uma determinada região pode e deve ser efetuado por instituições sérias e isentas. Esses custos, como informação de cunho reservada, devem ser utilizados por negociadores para aparelhar o processo decisório mostrando a margem média que se está obtendo.
O risco que existe quando se levanta custos em uma região é levar os produtores a imaginar que aqueles custos médios são seus custos reais. Isto pode levar ainda, produtores menos esclarecidos a não se importarem com o conhecimento detalhado dos custos de produção em suas propriedades, o que é um grande equivoco.
Caro Rui, creio que seus comentários foram oportunos e que você captou a mensagem do artigo. Preços estão sendo estabelecidos no mercado e custo de produção sempre foi instrumento de controle no processo gerencial de uma propriedade. Quem não sabe "na ponta da língua" os custos de produção de leite de sua propriedade, não pode ser chamado de produtor de leite. Felizmente, e devido ao processo de seleção que o próprio mercado acaba realizando, esses produtores são espécie em extinção.
Obrigado pelos comentários.
Bellini
Muito oportuno seu artigo. Muitos acham que o preço que deveria receber tem de ser maior do que o custo, mas esquece de avaliar se sua atividade está sendo conduzida com eficiência. Por outro lado, como você bem disse, sabendo-se o custo e o preço recebido, é possível corrigir rumos: melhorar a eficiência, reduzir custo ou abandonar a atividade, se não for possível produzir a um custo inferior ao preço recebido.
Abraços,
Rui
<b>Resposta do autor:</b>
Caro Rui,
O levantamento dos custos de produção em uma determinada região pode e deve ser efetuado por instituições sérias e isentas. Esses custos, como informação de cunho reservada, devem ser utilizados por negociadores para aparelhar o processo decisório mostrando a margem média que se está obtendo.
O risco que existe quando se levanta custos em uma região é levar os produtores a imaginar que aqueles custos médios são seus custos reais. Isto pode levar ainda, produtores menos esclarecidos a não se importarem com o conhecimento detalhado dos custos de produção em suas propriedades, o que é um grande equivoco.
Caro Rui, creio que seus comentários foram oportunos e que você captou a mensagem do artigo. Preços estão sendo estabelecidos no mercado e custo de produção sempre foi instrumento de controle no processo gerencial de uma propriedade. Quem não sabe "na ponta da língua" os custos de produção de leite de sua propriedade, não pode ser chamado de produtor de leite. Felizmente, e devido ao processo de seleção que o próprio mercado acaba realizando, esses produtores são espécie em extinção.
Obrigado pelos comentários.
Bellini

RONALDO AUGUSTO DA SILVA
BRASÍLIA - DISTRITO FEDERAL - PRODUÇÃO DE LEITE
EM 22/06/2004
Sr. José Luiz Bellini Leite,
O selo "Embrapa Gado de Leite" que endossa o currículo de V. Sª é suficientemente respeitado e consagrado, aqui e alhures, para que sejam levantadas dúvidas ou mesmo suspeitas de contradições no artigo escrito por V. Sª e veiculado neste site, que goza do melhor conceito no setor agropecuário nacional. Não obstante, permita-me, a análise de V. Sª por vezes tangencia questões de ordem que determinam procedimentos, independentemente do modelo político-econômico em voga. Faço uma analogia com o setor de transportes, ao qual me dediquei durante 30 anos no Governo Federal. Na década de 70, sob a bandeira do milagre brasileiro que ensejava taxas de 8, 9 ou 10% de crescimento anual do PIB, o setor de transportes era chamado a responder pelo escoamento da produção que se multiplicava de forma exponencial. Havia preços controlados, cujos parâmetros eram vinculados a um custo operacional. Dediquei-me muitos anos ao cálculo do custo operacional do transporte rodoviário de cargas, sugerindo parâmetros para remuneração dos transportadores em função de índices de eficiência e eficácia calculados. O cenário mudou e hoje entramos no chamado preço globalizado, mercado concorrencial, sem barreiras à entrada de novos agentes, com o preço sendo estabelecido pela lei natural da oferta e demanda. O resultado? Era inexorável que, uma economia absolutamente despreparada, sem instrumentos institucionais suficientemente adequados e contando com a prestimosa omissão do poder público, chegássemos onde chegamos: os agentes, as instituições, as transportadoras de cargas, salvo eróicas exceções, estão descapitalizadas, sonegam o que podem e o que não podem, uma frota de caminhões com 18,8 anos de idade média, caindo aos pedaços pelas nossas rodovias, colocando em perigo tudo e todos! No setor leiteiro, não havia, até 20 anos atrás (?) instituições fortes, grandes, consolidadas no setor produtivo mas sim produtores, uma infinidade deles, pulverizados, de altíssima capilaridade em todas as regiões do país, com produção pequena e produtividade sem a menor expressão. Do outro lado, o monopólio já se avizinhava. Se houve uma evolução para duopólio ou oligopólio, isso é inócuo para o produtor pois no estabelecimento do preço de compra prevalece o princípio físico dos vazos comunicantes. Qual é o cenário grotesco que se desenha: Não há a menor ação de governo no sentido de destacar a qualidade do leite. E pior, a irresponsabilidade chega ao ponto de virar as costas para as reconhecidas epidemias decorrentes de consumo de leite contaminado. Na minha cidade, vacas criadas na periferia comem restos de lixo e o leite é vendido na carrocinha. A mãe de família pouco ou muito esclarecida (sobre outras coisas), entende que fervendo o leite este estará purificado. Suponho que Luis Pasteur deve dar viravoltas no túmulo toda vez que isso é comentado. Enfim, quando V. Sª faz apologia ao modernismo político, entendo que seu comentário deveria levar em conta a questão da saúde pública. Para se chegar aos custos planilhados, pela ordem devem ser estabelecidas as seguintes condições: 1º não abrir mão da qualidade do leite(fiscalização); 2º Desonerar sim e incentivar os pequenos laticínios pois eles repassam os custos para trás, i.e., qualquer aumento de custos rebate no preço pago ao produtor e não é repassado ao consumidor;3º Incentivar, a exemplo de outros países, o consumo de leite, especialmente pelas crianças de creches e da rede pública de ensino.
Enquanto no setor de transportes as instituições estão sendo matadas, no setor produtivo do leite elas nem vão se consolidar. Vão morrer antes.
Ronaldo Augusto
<b>Resposta do autor:</b>
Caro Ronaldo.
Acredito que você tocou em pontos altamente relevantes, como é o caso do consumo de leite e sua qualidade. Mas por favor, note que estou comentando, buscando informar e orientar o produtor sob como o preço tem sido formado e como ele deve se organizar para enfrentar a realidade do dia-a-dia. Não tenho a pretensão de discutir, ao nível que o problema merece, essa questão da intervenção ou não do governo na economia, suas vantagens e desvantagens. Esse é um tema muitíssimo interessante e poderia ser motivo de um outro artigo. Como afirmei no artigo publicado no MilkPoint, o produtor deve procurar se organizar e se profissionalizar para negociar os preços do seu produto.
Atenciosamente,
Bellini
O selo "Embrapa Gado de Leite" que endossa o currículo de V. Sª é suficientemente respeitado e consagrado, aqui e alhures, para que sejam levantadas dúvidas ou mesmo suspeitas de contradições no artigo escrito por V. Sª e veiculado neste site, que goza do melhor conceito no setor agropecuário nacional. Não obstante, permita-me, a análise de V. Sª por vezes tangencia questões de ordem que determinam procedimentos, independentemente do modelo político-econômico em voga. Faço uma analogia com o setor de transportes, ao qual me dediquei durante 30 anos no Governo Federal. Na década de 70, sob a bandeira do milagre brasileiro que ensejava taxas de 8, 9 ou 10% de crescimento anual do PIB, o setor de transportes era chamado a responder pelo escoamento da produção que se multiplicava de forma exponencial. Havia preços controlados, cujos parâmetros eram vinculados a um custo operacional. Dediquei-me muitos anos ao cálculo do custo operacional do transporte rodoviário de cargas, sugerindo parâmetros para remuneração dos transportadores em função de índices de eficiência e eficácia calculados. O cenário mudou e hoje entramos no chamado preço globalizado, mercado concorrencial, sem barreiras à entrada de novos agentes, com o preço sendo estabelecido pela lei natural da oferta e demanda. O resultado? Era inexorável que, uma economia absolutamente despreparada, sem instrumentos institucionais suficientemente adequados e contando com a prestimosa omissão do poder público, chegássemos onde chegamos: os agentes, as instituições, as transportadoras de cargas, salvo eróicas exceções, estão descapitalizadas, sonegam o que podem e o que não podem, uma frota de caminhões com 18,8 anos de idade média, caindo aos pedaços pelas nossas rodovias, colocando em perigo tudo e todos! No setor leiteiro, não havia, até 20 anos atrás (?) instituições fortes, grandes, consolidadas no setor produtivo mas sim produtores, uma infinidade deles, pulverizados, de altíssima capilaridade em todas as regiões do país, com produção pequena e produtividade sem a menor expressão. Do outro lado, o monopólio já se avizinhava. Se houve uma evolução para duopólio ou oligopólio, isso é inócuo para o produtor pois no estabelecimento do preço de compra prevalece o princípio físico dos vazos comunicantes. Qual é o cenário grotesco que se desenha: Não há a menor ação de governo no sentido de destacar a qualidade do leite. E pior, a irresponsabilidade chega ao ponto de virar as costas para as reconhecidas epidemias decorrentes de consumo de leite contaminado. Na minha cidade, vacas criadas na periferia comem restos de lixo e o leite é vendido na carrocinha. A mãe de família pouco ou muito esclarecida (sobre outras coisas), entende que fervendo o leite este estará purificado. Suponho que Luis Pasteur deve dar viravoltas no túmulo toda vez que isso é comentado. Enfim, quando V. Sª faz apologia ao modernismo político, entendo que seu comentário deveria levar em conta a questão da saúde pública. Para se chegar aos custos planilhados, pela ordem devem ser estabelecidas as seguintes condições: 1º não abrir mão da qualidade do leite(fiscalização); 2º Desonerar sim e incentivar os pequenos laticínios pois eles repassam os custos para trás, i.e., qualquer aumento de custos rebate no preço pago ao produtor e não é repassado ao consumidor;3º Incentivar, a exemplo de outros países, o consumo de leite, especialmente pelas crianças de creches e da rede pública de ensino.
Enquanto no setor de transportes as instituições estão sendo matadas, no setor produtivo do leite elas nem vão se consolidar. Vão morrer antes.
Ronaldo Augusto
<b>Resposta do autor:</b>
Caro Ronaldo.
Acredito que você tocou em pontos altamente relevantes, como é o caso do consumo de leite e sua qualidade. Mas por favor, note que estou comentando, buscando informar e orientar o produtor sob como o preço tem sido formado e como ele deve se organizar para enfrentar a realidade do dia-a-dia. Não tenho a pretensão de discutir, ao nível que o problema merece, essa questão da intervenção ou não do governo na economia, suas vantagens e desvantagens. Esse é um tema muitíssimo interessante e poderia ser motivo de um outro artigo. Como afirmei no artigo publicado no MilkPoint, o produtor deve procurar se organizar e se profissionalizar para negociar os preços do seu produto.
Atenciosamente,
Bellini