Está na hora de abandonar a atividade de produzir leite?

Publicado em: - 4 minutos de leitura

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Continuam as liquidações de planteis e fazendas leiteiras, principalmente em S. Paulo, Minas Gerais e agora em Goiás. Isso indica que as expectativas de preços para o leite continuam baixas para este ano, embora alguns sinais de boa vontade tenham aparecido no cenário. O contrato de fornecimento da Nestlé com os produtores de Montes Claros dentro de uma faixa de variação mínima entre 25 e 35 centavos, já é algum avanço para uma região de criação extensiva, mas mantém os preços do leite, em termos internacionais, considerando o dólar a 2,3 reais, entre 10,8 e 15,2 centavos de dólar.

Tem-se alegado que a maioria dos planteis leiteiros e empreendimentos liquidados provêm de “sistemas tecnificados” e que a vocação do país é a produção de leite a pasto. Quando escuto esse argumento debito ele no cabide das simplificações que nós brasileiros gostamos de fazer, incapazes que somos de refletir a complexidade do país em que vivemos e principalmente sua extensão territorial e o fato inconteste de que não somos um, mas vários países, considerando as peculiaridades regionais que incluem níveis diferenciados de desenvolvimento econômico e tecnológico. Em se tratando de leite, tanto os custos de produção como de processamento e distribuição variam, dependendendo da dispersão geográfica dos produtores, da quantidade e qualidade do leite in natura que têm condições de produzir, dos custos de captação, da localização e escala das unidades de processamento, dos tipos de produto, da logística de acesso e distribuição aos mercados consumidores.

Como se vê, são muitos os condicionantes e diferenciadas as condições em que opera o setor leiteiro. Querer que funcione dentro de um figurino ou modelo padronizado aí incluídos os sistemas de produção e os preços é irrealismo. Acaba-se estabelecendo compensações que inevitavelmente nivelam por baixo os preços e os produtores, atingindo a todos, particularmente os produtores ditos “tecnificados” que trabalham com parâmetros de produtividade, qualidade e exigências de capitalização maiores.
Esquece-se que esse sistema de produção vem se estabelecendo de preferência em torno das grandes cidades, nas regiões mais desenvolvidas, utiliza muitas vezes a capitalização excedente de profissionais e empresários, aplica tecnologias modernas de melhoramento genético, produção e administração. O que vai se traduzir em vantagens para indústria, como custo menores de captação, qualidade da matéria prima, baixa sazonalidade da produção, elasticidade de resposta aos estímulos de ampliação da produção. Para não se falar das vantagens indiretas para o setor leiteiro como um todo, pois vem desses produtores especializados a produção de matrizes leiteiras de qualidade mais apurada, o que vai refletir no aumento da produtividade das fazendas de leite.

Assim sendo, em vez de decretar soluções milagrosas e simplistas de produção barata de leite, deveríamos trabalhar as diferenças no que têm de vantagens comparativas considerando as vocações regionais para desenvolver mais esse ou aquele sistema de produção. A regulamentação da qualidade do leite in natura é a meu ver a pedra de toque para começar a resolver esse problema. Uma regulamentação que tenha como requisito básico a simplicidade e a exequibilidade de aferir a qualidade. Para tal seria preciso que se estabelecessem:

a) parâmetros de qualidade do leite in natura utilizando aqueles parâmetros mais determinantes para a sua classificação nos níveis, a, b, c ( exemplo: a contagem de células somáticas, ao que parece, correlaciona-se positivamente com contaminação bacteriana e resíduos de antibióticos);

b) monitoramento da qualidade pela indústria que seria financiada a se equipar em termos de laboratórios e instrumentos de avaliação a campo;

c) fiscalização da indústria por laboratórios de referência de universidades e institutos de pesquisa com e divulgação dos resultados ao produtor ou à associação de produtores;

d) dispensa do produtor da parafernália de instalações e equipamentos que a legislação em estudo, ao que parece, se prepara para exigir, pois é humanamente impossível fiscalizá-lo (será estimulado a se equipar para melhorar a qualidade movido pelo melhor preço do leite, não será a parafernália que vai fazer a qualidade do leite - padrões de higiene e assepsia podem ser observados no leite tirado a mão) ;

e) exigência mínima de qualidade nível c para todos os produtores que vendem às indústrias;

f) pagamento diferenciado do leite caso atinja níveis de qualidade superiores ao nível c;

g) linhas de produção em função dos níveis de qualidade a, b, c ;

h) prazos diferenciados para as várias regiões se obrigarem à exigência mínima de qualidade de nível c;

i) inclusão da qualidade na contratação da venda do leite in natura à indústria.

Na Suíça, tive oportunidade de visitar uma fazenda leiteira e assistir a uma ordenha à mão feita com toda higiene, luvas, assepsia prévia dos tetos, etc. Uma coisa engraçada, os rabos das vacas eram amarrados num varal em cima, para evitar que batessem e espalhassem impurezas. Toda defecação levava a mulher que ordenhava a suspender seu trabalho...

Para terminar, gostaria de colocar aqui que a qualidade seria o melhor critério e o mais estratégico para equiparar todos os produtores e todos os sistemas de produção em termos de verdade e oportunidade. Todos começariam do nível c, o mais baixo. Os que atingissem ou tivessem demanda para os níveis mais altos de qualidade seriam remunerados por isso. Assim os “produtores tecnificados” só abandonariam a atividade de produzir leite na hipótese incrível de não haver interesse pela qualidade superior de seu produto, e não por estarem sendo remunerados pelo nível de qualidade mais baixo. Da mesma forma, o produtor de leite a pasto e o pequeno teriam oportunidade de escapar da linha dágua do nível de qualidade c.

Com isso encerraríamos todas essas discussões bizantinas que estão por aí, fazendo a glória paroquial de muitos daqueles a serviço da indústria e da embalagem. Com isso, ganhariam os produtores sem distinção de grandeza e tecnologia, os consumidores, o setor leiteiro, que não pararia sua modernização e o Brasil que poderia exportar lácteos.
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Material escrito por:

Maria Lucia Garcia

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Paulo R. F. Mühlbach
PAULO R. F. MÜHLBACH

PORTO ALEGRE - RIO GRANDE DO SUL - PROFISSIONAIS DE CIÊNCIAS AGRÁRIAS

EM 06/02/2002

Meus cumprimentos à Sra. Maria Lúcia A. Garcia, pelo excelente artigo. Será que esse "movimento" da produção a pasto não é mesmo uma estratégia de certas indústrias para receber leite barato e vender como "longa vida" ?

Fernando Enrique Madalena
FERNANDO ENRIQUE MADALENA

BELO HORIZONTE - MINAS GERAIS - PESQUISA/ENSINO

EM 06/02/2002

Parabéns à Sra. Maria Lúcia pelas verdades que falou. Quem consegue produzir com as técnicas requeridas para ter baixo custo não abandona.

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