José Otaviano de Oliveira Ribeiro
Achar uma resposta para as dificuldades da produção leiteira talvez ultrapasse de longe a capacidade de todos os que militam na atividade. Por isso ouvimos pronunciamentos constantes abordando os mais diversos tópicos e emitindo opiniões muitas vezes conflitantes.
Segundo meu ponto de vista, a posição do produtor não foi ainda suficientemente discutida dentro da Cadeia de produção leiteira. Ela é de uma fragilidade extrema.
A característica principal do nosso produto quando “in natura” é a sua pouca duração em condições de comercialização mesmo com a utilização de resfriadores. Isto significa a total impossibilidade de ser adotada uma posição de força junto aos demais elos da Cadeia Láctea.
É por causa disso que quando um produtor encontra outro uma pergunta é inevitável: Para quem você está entregando a sua produção?
Infelizmente a atividade leiteira está entre as que não podem negociar com antecedência sua produção. Só sabemos quanto vamos receber pelo nosso produto cerca de 40 dias após sua entrega.
A verdade é que em todos os países sérios onde o leite é produzido, a participação do Estado no gerenciamento da cadeia produtiva é marcante. Seja através da participação em “boards” (Canadá, Nova Zelândia, Inglaterra etc.) ou mediante regulamentações nacionais ou mesmo grupal (Estados Unidos, Dinamarca, Mercado Comum Europeu etc.). Mesmo na América do Sul (Argentina, Uruguai, Chile etc.) a participação do Estado é maior.
Não poderia deixar de mencionar fato recentemente ocorrido na Austrália, onde após o afastamento do Estado e término da regulamentação do setor leiteiro, ocorrido em 1 de julho de 2000 os preços pagos aos produtores reduziram-se drasticamente de US$ 0,27 para US$ 0,14/litro.
A presença do Estado não poderia acontecer como antigamente ocorria no Brasil, onde seu único objetivo era controlar o preço final ao consumidor, mas sim ajudando manter o equilíbrio de forças na Cadeia Láctea, evitando assim que o produtor seja transformado em um mero joguete nos interesses dos demais componentes.
Eu sei que a primeira crítica que será feita a esta colocação passará pela impossibilidade de sua execução em função da pouca confiança que historicamente depositamos em nossos governos.
Porém não me refiro ao Governo, mas sim ao Estado em toda a sua plenitude, representado pelos seus três Poderes: Legislativo, Executivo e Judiciário exercendo seu papel de defesa de seus cidadãos.
Para isto acontecer bastaria um trabalho conjunto das lideranças do setor leiteiro para conseguir apoio junto à opinião pública e aos responsáveis pela criação de Leis e Decretos.
Outra crítica que poderia ser feita é de como obter dados para fixação de parâmetros de preços de garantia.
Isto também não será problema, porque apesar de estarmos vivendo em uma economia estável ainda temos o habito de calcular mensalmente índices baseados em preços pagos pelos consumidores e isto é feito por várias instituições com alta confiabilidade, (F.G.V, FIPE, IBGE etc.).
Com estes dados e com o trabalho bem feito de nossas lideranças junto também aos representantes dos demais componentes da Cadeia Láctea (Fornecedores de Insumos, Indústria Processadora, Comércio e Consumidores) e com a presença do Estado agindo como moderador ou mesmo policiador se necessário, acredito possamos traçar uma política que poderá resgatar o produtor leiteiro da escravidão a que está condenado atualmente.
O meu principal objetivo é colocar para discussões este ponto de vista e pedir caso isto seja realmente considerado oportuno que aconteça rapidamente, porque um grande contingente de produtores leiteiros está abandonando a atividade pela total inviabilidade de se produzir leite na situação atual.
José Otaviano de Oliveira Ribeiro é engenheiro agrônomo e produtor de leite na região de Londrina (PR)
Encontrar soluções para os problemas que nos atormentam não é fácil
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