O assunto não é novo, mas tem ganho dimensão com a internet. Recordo ter lido toda essa argumentação “made in america” há cerca de 10 ou 15 anos, numa revista na sala de espera de um consultório médico.
“O leite é para os bezerros?” Dizem os “inimigos do leite” que a vaca produz leite para o bezerro e que o ser humano é o único mamífero a beber leite em adulto. São duas verdades que nada provam. De todos os alimentos que o homem “produz” ou recolhe na natureza, qual é produzido “especificamente” para o homem? Quando a macieira produz maçãs ou a batateira produz batatas, estão "pensando” na alimentação humana ou na reprodução/continuação da sua espécie? Ao longo dos milhares de anos de existência, a humanidade foi testando os alimentos que encontrou na natureza.
O leite é consumido há cerca de 10000 anos. Citando Maria Paes de Vasconcelos, comentando um post de um blog que refiro mais abaixo, “Somos os únicos mamíferos que bebem leite em adultos, mas também somos os únicos que estudam filosofia e foram à Lua (para escolher 2 exemplos ao acaso...). No desenvolvimento da nossa espécie houve um momento crucial em que se iniciou o pastoreio, e passou a disponibilizar proteína de alto valor biológico à mão sem ter de matar o animal, o que é mais econômico e "amigo dos animais" (aliás, como o ovo). A escolha de beber ou não leite é pessoal, e é possível viver bem sem ele, mas é prático (para levar na carteira/mochila, por exemplo), é adaptável (com sabores, em queijo, em iogurte...) e é barato (principalmente se comparado com outras fontes proteicas).”
Teresa Mendonça, médica, no blog http://paisdequatro.blogs.sapo.pt/, respondeu em 16.01.13 a um leitor que escreveu: “O leite não é a maior fonte de cálcio disponível, não sendo necessariamente essencial à dieta de uma criança (como muitos meninos e meninas intolerantes à lactose que nem por isso deixam de crescer saudáveis o comprovam). Até amêndoas e sementes de sésamo têm mais cálcio do que o leite (e ambos podem ser incluídos facilmente em pães ou até bolachas caseiras - em que se controla os açúcares e nem por isso deixam de ser atrativas para os mais jovens.)”
Escreveu então a médica no referido Blog:
“ Nos últimos anos têm sido muito acesas as discussões e debates sobre se o leite é ou não um alimento saudável para os humanos, em especial para as crianças. Os argumentos de um e outro lado da questão são múltiplos e por vezes extremados e pouco simpáticos (ou não fossem os nomes dos pobres animais que produzem o dito cujo - vacas e cabras - propícios a trocadilhos deselegantes). Por decreto, quando nos referimos a leite alimentar estamos falando de leite de vaca. Quando queremos falar de leite de cabra ou outros temos que especificar a origem. (…)
A decisão de ingerir ou não produtos de origem animal é uma filosofia de vida e, desde que todos os nutrientes sejam incluídos na dieta, por vezes com necessidade de recorrer a suplementos, é uma escolha que só a cada um diz respeito. Não devem ser aqui esquecidas as crianças (em especial os lactentes) que em raros casos sofrem déficits vitamínicos importantes, com sérias consequências para a sua saúde, pelas escolhas alimentares pouco informadas dos pais.
É verdade que existem alguns alimentos mais ricos em cálcio do que o leite. As sementes de sésamo ou as amêndoas (estas muito menos) são um exemplo. Agora vejamos: aproximadamente, a quantidade de cálcio existente numa porção de amêndoas integrais é 378 mg e numa de leite é 300 mg. Só que se ingerirmos a primeira estamos a consumir cerca de oito vezes mais calorias do que com a segunda. Percebe-se, portanto, porque as amêndoas não são consideradas pela FDA (órgão governamental que controla os alimentos e medicamentos nos EUA) um boa fonte de cálcio (por definição a quantidade de referência diária de um determinado alimento deve fornecer 10-19% da dose diária recomendada desse nutriente para ser considerada uma boa fonte nutricional), ainda que o seu consumo seja altamente recomendável. (…)
É verdade que o tratamento térmico que o leite sofre (com vista a destruir os organismos indesejáveis), e a sua homogeneização, alteram significativamente a fração proteica útil do leite e induzem perda de nutrientes. Aqui o que conta é o que se obtém da relação custo-benefício e ainda assim o resultado, segundo estudos credíveis de equipes credenciadas na área de Pediatria e Gastrenterologia, é positivo, reassumindo-se o leite como uma fonte primordial de proteínas e cálcio. (…)”
A médica não se pronuncia sobre o alegado ”conteúdo ilícito de antibióticos, hormonios, pesticidas e bactérias no leite”, mas refere que “ os métodos de análise e controle do leite estão regulamentados, são minuciosos, e é suposto que funcionem e sejam verificados pelas entidades responsáveis.” E sobre isto eu acrescento que o leite é dos alimentos mais fáceis de controlar, que é analisado regularmente entre o gado e o consumidor, e que análises regulares, por exemplo, da DECO, Defesa do consumidor, não encontraram resíduos de antibióticos ou hormonios no leite, concluindo pela sua boa qualidade. Isso tem sido publicado regularmente na revista “Deco proteste”.
Fala-se muito na intolerância à lactose, que efetivamente ocorre em algumas pessoas, mas tal não impede o consumo de leite: já existe “leite sem lactose” e leite de “digestão fácil”.
Dizer que em 2011 a Universidade de Harvard retirou o leite da “roda de alimentos”; é outra meia-verdade, pior que uma mentira. Na prática, Harvard tirou o leite do “prato” de alimentos sólidos para o colocar no “copo” ao lado com as bebidas, recomendando uma ou duas “doses/copos diários”. Um consumo moderado, portanto, mas incluído.
Temos, enfim, uma minoria ativa e empenhada em convencer a esmagadora maioria a deixar de beber leite (e comer carne, já agora), citando alguns médicos e alguns estudos. Temos, a favor do leite, as associações de nutricionistas, a Direções Gerais de Saúde, Organização Mundial de Saúde, a ONU… o leitor escolha quem lhe pareça mais credível.
Até prova (e consenso científico) em contrário, continuarei a produzir e consumir leite convencido que se trata de um alimento completo, saudável, saboroso e barato (com boa relação qualidade-preço), base para todo um conjunto de alimentos fantásticos como os milhares de queijos, iogurtes e manteigas e todos os produtos que incluindo leite se produzem e consomem pelo mundo fora.
O artigo foi adaptado pela equipe MilkPoint Brasil.
Carlos Neves é Produtor de leite desde 1996, numa exploração em Vila do Conde, com 60 vacas leiteiras e 20 ha de cultivo, produção de milho (silagem) e azevém. Leite entregue à AGROS – União de Cooperativas.
Formação: Curso de operador agrícola e Técnico de Gestão Agrícola na Casa-Escola Agrícola Campo Verde, na Póvoa de Varzim. Licenciatura em Ciências Sociais na Universidade Aberta.
