Efeitos do touro zebu na produção de leite
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Recentemente concluí uma pesquisa no Estado do Rio de Janeiro, onde foram entrevistados 485 produtores de leite que forneceram dados interessantes sobre as estratégias de cruzamentos adotadas em 2002. A amostra foi dividida em quatro estratos, tendo como critério a produção de leite, por dia/vaca em lactação, a saber: até 5; de 5 a 8; de 8 a 12 e mais de 12.
No estrato de mais de 12 litros, por dia/vaca em lactação, 6% dos reprodutores eram de 3/4 a 7/8 HZ; 28%, puro holandês; e 66%, puro sangue de raças zebuínas, especialmente nelore. No estrato de 8 a 12 litros, por dia/vaca em lactação, a presença de touros zebuínos era significante, 42% do total de reprodutores deste estrato.
Quanto aos métodos de reprodução, os resultados do estrato de mais de 12 litros, por dia/vaca em lactação, foram os seguintes: 20% dos entrevistados adotavam inseminação artificial; 20%, monta natural controlada; e 60% monta natural não-controlada. Portanto, a maioria dos entrevistados adotava um sistema primitivo de reprodução do rebanho, em que o touro permanecia junto às vacas durante todo o tempo.
O grau de sangue das vacas no estrato de mais de 12 litros, por dia/vaca em lactação, era assim distribuído: 14%, em torno de 1/2 HZ; 9%, de 1/2 a 3/4 HZ; 40%, de 3/4 a 7/8 HZ; e 37%, mais de 7/8 HZ. O touro cruzava com todas as vacas, e não apenas com aquelas de maior grau de sangue holandês. Provavelmente, as filhas deste cruzamento, quando submetidas às atuais condições tecnológicas vividas pelas mães, produzirão menos leite do que elas, em razão do menor grau de sangue holandês; raça já comprovada como líder na produção de leite.
Um dos principais argumentos a favor do touro zebu é a maior rusticidade das crias e, por conseqüência, o menor custo de produção por litro de leite. De fato, isso acontece com o custo operacional efetivo, em razão da menor utilização de insumos, especialmente concentrados. Os dados da pesquisa do Estado do Rio de Janeiro indicam R$ 0,14/litro de custo operacional efetivo no estrato até 5 litros, por dia/vaca em lactação, e R$ 0,28/litro no estrato de mais de 12 litros, por dia/vaca em lactação. Entretanto, os resultados do custo total, por litro, nesses dois estratos, foram R$ 0,37 e R$ 0,36, respectivamente.
Por conseguinte, o custo operacional efetivo/litro aumentou e o custo total/litro diminuiu com o aumento da produtividade. A diferença desse comportamento é explicada pela redução do custo fixo/litro, em razão do aumento da escala de produção. No curto prazo, o que interessa ao produtor é o custo operacional, porém no longo prazo é o custo total, que, se não coberto, conduz o produtor a um processo de empobrecimento.
Outro argumento a favor do cruzamento com touro zebu é o preço dos bezerros "azebuados", que é maior que o dos "enraçados". De fato, isso acontece. Todavia, não se deve esquecer de dois detalhes: o bezerro "azebuado", de bom preço, é aquele que é bem criado; portanto, seu custo de produção não é desprezível, dada a quantidade de leite que ele consome. O segundo ponto diz respeito à composição da renda da atividade leiteira. Em média, a venda de bezerros representa apenas 12 a 20% do total, em rebanhos mestiços, ficando a maior parte com a venda do leite.
Na escolha do sistema de produção de leite, o produtor leva em conta os recursos disponíveis, em especial, a terra. No Brasil, a produção de leite está concentrada em pequenas propriedades. Alguns exemplos de áreas médias utilizadas para o gado de leite: 93 hectares, em Minas Gerais; 65 hectares, no Rio de Janeiro; e 48 hectares, em Rondônia. A pouca disponibilidade de terra é limitante para modelos extensivos de produção. O aumento da produção por área, com o uso intensivo de pasto, e de forrageiras para corte, é condição fundamental para tornar a produção de leite um negócio atrativo.
A utilização do touro zebu em toda a vacada poderá causar, no futuro, problemas na substituição das matrizes descartadas. A alternativa de comprar as substitutas, quando generalizada, aumentará a diferença entre o preço e o custo da novilha, com prejuízo para quem compra. Em algumas regiões, isso já está acontecendo.
A colocação do touro zebu na metade do número de vacas (as mais "enraçadas") e do touro de raças européias na outra metade (as mais "azebuadas") pode representar uma solução interessante para o produtor. Isto significa ter um programa de cruzamento que leva em conta as características de cada vaca. Para que isso aconteça, a cobertura não controlada tem de ser abolida.
O que foi discutido anteriormente pode ser assim resumido: 1) A pouca disponibilidade de terra exige produtividade que viabilize volume de produção de leite que atenda às necessidades do produtor e de sua família; 2) Não basta ao produtor ter um sistema de produção de baixo custo operacional por litro, pois elevado volume e baixo custo total, por litro, são condições requeridas por um modelo atrativo, para qualquer estratégia de cruzamento; 3) A utilização de touros de raças zebuínas no cruzamento com vacas leiteiras pode ser um caminho interessante, num contexto de pacote tecnológico produtivo e eficiente. Em outras palavras, o touro zebu com tecnologia é uma boa opção; porém, como muitos estão fazendo, pode ser uma bomba relógio cujos efeitos serão conhecidos no futuro.
Escrito em 06 de abril de 2003
Material escrito por:
Sebastião Teixeira Gomes
Professor Titular da Universidade Federal de Viçosa
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Produtores que vislumbram produzir a partir de sistemas a pasto, pensam no cruzamento como uma alternativa para reduzir o tamanho das vacas (melhorando assim sua eficiência alimentar no sistema a pasto), melhorando ao mesmo tempo o teor de sólidos do leite, na esperança que as indústrias remunerem melhor esse leite.
Poucos parecem perceber que isso também é uma bomba relógio, como disse o Prof. Teixeira Gomes, em relação ao destino das F2 e F3 (que rumo tomar?) e também pelo fato de que as indústrias remuneram qualidade de uma maneira quase simbólica, mais penalizando do que bonificando, mas principalmente por que bonificam até um teto, normalmente de 4% para gordura e 3,4% para proteína, o que é inferior ao potencial produtivo do Jersey.
O estímulo à produção de sólidos hoje é muito mais filosófico do que financeiro.

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No caso dos bezerros, o produtor que busca complementar a renda com a venda de bezerros filhos desse cruzamento de zebu com holandês, na verdade é um péssimo produtor de leite e de corte, pois esse cruzamento produzirá fêmeas ineficientes na produção e os machos serão péssimos animais para o corte.
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O grande problema do sistema é realmente a reposição, pois a recomendação técnica é que sejam comercializados todos os produtos (machos e fêmeas).

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