Outro dia um produtor nos ligou e perguntou se havia algo de positivo no setor, que pudesse animá-lo, ou animar seus filhos, a permanecerem como produtores rurais, atividade de sua família há quatro gerações. Segundo ele, sempre se lê sobre preços acima do interesse do consumidor, especulações das indústrias, agressividade do varejo, subsídios internacionais, barreiras tarifárias e não tarifárias contra nossas exportações, desvantagens negociais na ALCA, carga tributária, juros elevados, etc. Haveria algum fato para se animar com a produção rural?
Não, não há nada com o que se animar. Não há razão para ser otimista e é exatamente daí que virá a força dos produtores nacionais, tanto de leite como da agricultura em geral.
O otimismo e a resposta desordenada em produção a pequenos estímulos são os fatores que mais facilitam a manipulação do mercado pelos elos mais organizados da cadeia agro-industrial. Vale lembrar o que ocorreu com a produção entre 2000 e 2001, quando acreditava-se em preços extremamente elevados para o leite. A resposta otimista sobre a produção de leite facilitou a pressão de mercado.
Ao contrário do que se pensa, o otimismo não é benéfico. O otimista espera que algo de bom ocorra, espera preços altos, espera que o governo favoreça sua produção, acredita na sorte, no acaso, na justiça para quem trabalha duro. Enfim, o otimista não se prepara para a realidade, que muitas vezes é dura e extremamente adversa. O otimista não planeja, não cria suas oportunidades.
Lentamente, o otimista vai passando a ser entusiasmado. O entusiasmado faz acontecer, estabelece objetivos e luta por eles. As dificuldades são enfrentadas com ações e não se acredita em soluções milagrosas para os seus problemas. Como diz o antropólogo Luiz Marins, "é preciso descer do muro e encontrar a briga".
Desta forma os produtores rurais, e seus representantes, vão entrando na revolução da informação, a tão comentada terceira grande revolução na sociedade (as primeiras foram a revolução da imprensa de Gutenberg no século XV e a revolução industrial no século XVIII e XIX). Mesmo que se diga que o produtor está atrasado para a revolução, "antes tarde do que nunca".
Alguns fatos comprovam esta mudança no comportamento dos envolvidos com a produção agropecuária, não só por parte dos produtores, mas também técnicos, pesquisadores e fornecedores de insumos. Abaixo estão listados apenas alguns deles:
* Neste ano, quando assediados por indústrias que oferecem alguns centavos a mais, grande parte dos produtores procuram se informar sobre as consequências de sua mudança de indústria. Muitos cooperados de diversas regiões ligaram para a Scot Consultoria buscando informações de mercado e possibilidades de cenários. O mesmo foi observado em escritórios de outros consultores que acompanham mercado ou prestam assistência técnica aos produtores. O produtor, em geral, parece ter adotado postura mais profissional este ano durante as negociações com as indústrias. Em algumas regiões apareceram os primeiros esboços de contratos de fornecimento, o que consistiria num importante passo para reduzir as prejudiciais oscilações nos preços do leite ao longo do ano.
* A criação da Serlac Trading S.A., empresa que envolve interessados no mercado externo, é um exemplo de ações que visam "abrir" mercado para exportações brasileiras a mercados promissores. Com planejamento e foco nos objetivos, a Serlac certamente dinamizará o canal de escoamento do leite brasileiro a mercados potenciais.
* A fundação das centrais Leite Nilza e da Centroleite mostrou que o cooperativismo ainda respira e pode funcionar no Brasil. Relutam em aceitar que o modelo cooperativista não dá certo no país. Sendo assim, mesmo quando encontram dificuldades, continuam buscando alternativas e soluções para um modelo adequado à nossa realidade.
* A Láctea Brasil, que gerou muitas dúvidas no início, já está em estágio avançado com relação a uma metodologia adequada de marketing institucional para os produtos lácteos no Brasil. Com isso, já conta com a adesão de várias indústrias de laticínios de pequeno, médio e grande porte. O esforço, iniciado com a indústria de insumos e serviços há dois anos, valeu a pena. Concorrentes e elos divergentes ao longo da cadeia sentados juntos para planejar o futuro do mercado, que é de interesse comum, consiste num grande avanço dentro da realidade empresarial brasileira.
* Técnicos e pesquisadores mudaram radicalmente sua conduta em seminários, textos e debates. Ao invés de passarem apenas o conhecimento técnico sobre o assunto que dominam, estão sempre alertando os produtores sobre a necessidade de administração e planejamento para qualquer tecnologia que desejam adotar. Gradualmente vai se reduzindo o número de técnicos com mensagens milagrosas e descomprometidas com o sucesso do seu cliente: o produtor. O reflexo desta tendência pode ser confirmado nos assuntos e discussões gerados nas revistas (impressas e virtuais) especializadas do setor agropecuário. Cada vez mais fala-se sobre assuntos referentes a mercado e atuação pós porteira. O produtor aceita e participa deste tipo de discussão, o que é um excelente sinal.
* Ao invés de esperar que políticos encontrem a solução para a agricultura, os produtores estão mostrando possibilidades de soluções e cobrando pareceres dos políticos mesmo antes da eleição, o que é mais importante. A CNA (Confederação Nacional da Agricultura) preparou um documento a partir de pesquisa de opinião feita junto aos produtores. A ABAG (Associação Brasileira de Agribusiness) organizou um congresso sobre o agronegócio onde se discutiu cenários futuros de mercado e soluções governamentais que possibilitem a competitividade dos produtores brasileiros a longo prazo. A idéia é gerar um documento com linhas que deverão ser adotadas pelos políticos ou ao menos negociadas. Através do documento, há possibilidade de se avaliar quais políticos o setor realmente deve apoiar e cobrar a atuação coerente com sua campanha. A idéia não é criar um programa de governo, nem um projeto, mas um objetivo que atenda as exigências do produtor rural para que possa se tornar competitivo.
* O grupo PENSA (Programa de Estudos do Negócio do Sistema Agroindustrial da Faculdade de Economia e Administração da USP) gerou diversos números sobre a política de subsídios norte americana, o que nos dá maior capacidade de negociar com os Estados Unidos, seja na formação da ALCA (Área de Livre Comércio das Américas) ou nas rodadas da OMC (Organização Mundial de Comércio). O estudo visa dar subsídios nas negociações e, embora ainda em desvantagem com os Estados Unidos, hoje o agronegócio brasileiro tem pelo menos condições de negociar com o governo a pauta de exigência nas negociações.
Pode-se dizer que sempre se discutiu os diversos assuntos enumerados acima. No entanto, hoje em dia, os envolvidos estão tendo uma atuação mais proativa, ou seja, embarcam na busca de soluções e alternativas, agem de acordo com suas convicções e não ficam apenas na crítica e sugestões distantes de quem poderia atuar.
As propostas de alternativas, como é o caso da Agência Reguladora do Leite, estão sendo colocadas em debates, abertas à sugestões (leia Jorge Rubez no espaço aberto). Não são apresentadas como solução única, em que todos os produtores devam apostar suas fichas.
Quanto maior número de idéias, maiores as chances de êxito das soluções buscadas para o setor.
A agricultura em geral tem sido apresentada como sucesso em tecnologia e produtividade, que melhora ano a ano. De fato, esta melhora é uma realidade, porém não tem sido acompanhada de ganho em receita e geração de riquezas, o que é um ponto negativo.
Outro ponto positivo é o amadurecimento gradual dos produtores e técnicos que atuam no agronegócio.
Se a agricultura tem futuro, basta colocar na balança. Temos condições de criar oportunidades? As soluções vem dos produtores e nada que gere resultado no curto prazo, solucionará problemas a longo prazo.
Vamos continuar planejando!!!!
Do otimismo ao entusiasmo
Publicado por: Maurício Palma Nogueira
Publicado em: - 6 minutos de leitura
Material escrito por:
Maurício Palma Nogueira
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FRANCISCO ARMANDO DE AZEVEDO SOUZA
BANDEIRANTES - PARANÁ - PESQUISA/ENSINO
EM 01/07/2002
Excelente artigo! Como professor universitário na UNIMAR, tenho procurado sensibilizar nossos alunos que, em sua maioria são produtores rurais, de entenderem a agropecuária como um negócio. Sem terem uma noção sistêmica do setor que atuam ou pretendem atuar não chegarão a lugar nenhum.
Há necessidade da classe produtora enxergar a cadeia produtiva como um todo, organizarem-se e a partir deste ponto tomarem medidas efetivas. Outro ponto importante do artigo é a necessidade da mudança de postura de professores e técnicos no que se refere a maneira que ditam regras aos produtores. É preciso olhar o bolso do produtor e resolver problemas locais com soluções locais!
Toda a classe produtora bem como todos envolvidos dentro da porteira precisam tomar posturas políticas e não ficarem enclausurados dentro de sua propriedades e cooperativas!
Parabéns!
Há necessidade da classe produtora enxergar a cadeia produtiva como um todo, organizarem-se e a partir deste ponto tomarem medidas efetivas. Outro ponto importante do artigo é a necessidade da mudança de postura de professores e técnicos no que se refere a maneira que ditam regras aos produtores. É preciso olhar o bolso do produtor e resolver problemas locais com soluções locais!
Toda a classe produtora bem como todos envolvidos dentro da porteira precisam tomar posturas políticas e não ficarem enclausurados dentro de sua propriedades e cooperativas!
Parabéns!