Desabafo dos produtores de leite

Publicado por: MilkPoint

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Sindicato Rural de Nova Granada

Vivemos na era da globalização. O mundo não tem fronteiras. A competitividade é enorme. Só os mais preparados sobreviverão. É preciso ser eficiente. É preciso controlar custos. É preciso ser profissional. Ser produtor hoje não basta. É preciso ser empresário rural. Essa é, a um só tempo, a certeza que deve inspirar o nosso trabalho e o desafio que nos é proposto. Devemos recuperar um atraso de, pelo menos, 50 anos, em menos de cinco. É o mercado que exige.

Essa, a grande verdade que não podemos ignorar.

Vivemos, contudo, um paradoxo. Façam o que eu digo mas não façam o que eu faço.

Como toda atividade rural, a pecuária de leite carece de uma política que oriente o setor.

Exige-se, de um lado, competitividade. Mas competir com quem? Competir com produtos subsidiados que perambulam pelo nosso mercado com a complacência das autoridades? A competição em condições de igualdade é salutar e em condições de igualdade o produtor não se furtará ao desafio de precisar competir. De outro lado, porém, as indústrias que compram nosso produto não se sujeitam ao risco da competição. Para adquirir matéria prima se reúnem e estabelecem o preço máximo que será pago pelo produto na região, deixando-nos sem opção de lutar por melhores condições de comercialização.

Exige-se profissionalismo. Que administrador, por mais competente que possa ser, consegue manter equilibrada suas contas, quando descobre que, depois de ter entregue seu produto, receberá preço 10, 15 ou 20% menor do que aquele que levou em consideração ao planejar a suas atividades no período. Temos que ser profissionais. Os outros elos da cadeia não. Mudam a maneira de agir a seu bel prazer, sem que nos seja dada a oportunidade de, por alguma forma, obstar ou, ao menos, atenuar os efeitos desastrosos dos seus desmandos, que justificam invocando as leis de mercado.

Basta relampejar para que, no período seguinte, ocorra substancial decréscimo no preço pago pelo leite. Se chover então... Uma coisa foge à nossa compreensão. Se é verdade que o Brasil não é auto suficiente em leite, qual então o motivo de tão acentuada queda no preço, ainda que durante o período das águas? Não bastaria uma política adequada que procurasse distribuir esse excedente nas épocas de menor disponibilidade, para, só depois, abastecer o mercado com produto importado, caso ainda houvesse necessidade? Essa realidade absurda e penosa faz lembrar Shakespeare: "Há mais coisas entre o céu e a terra do que supõe sua vã filosofia meu caro Horácio".

A estabilidade econômica hoje é apoiada nos alimentos baratos. O leite, contudo, apresenta um diferencial nesse contexto. Um aumento, ou melhor dizendo, um preço justo e compatível com os custos de produção não se reflete apenas no bolso do consumidor. Dói mais no bolso do Governo. Quem já ouviu dizer que o Governo distribui carne para a população carente? E leite?

Somos vítimas de um modelo cínico. Querem combater a miséria nacional levando o pecuarista de leite à miséria. No sistema vigente, com compras de leite centralizadas para distribuição em programas assistenciais, ocorre, naturalmente, uma pressão para a diminuição da remuneração paga ao produtor. Por que não descentralizar essa compra e deixar que as prefeituras, através do repasse de verbas, possam disciplinar a compra desse leite de produtores do próprio município, assegurando-lhes, inclusive, a possibilidade de uma remuneração mais satisfatória?

A verdade é que somos um gigante adormecido. Se são corretos os dados de que 1/3 das propriedades agrícolas do Brasil produzem leite, e que são gerados aproximadamente 2,7 milhões de empregos diretos, mais de quatro vezes o que gera a indústria automobilística, está na hora de nos darmos o devido valor e mostrarmos a força que juntos temos.

Está na hora de levantar nossas vozes contra tudo e todos que nos desprezam e oprimem. Levantar nossas vozes por uma política justa, levantar nossas vozes contra o abuso do poder econômico, levantar nossas vozes para que o consumidor não seja induzido a comprar um produto de qualidade duvidosa, cuja embalagem, muitas vezes, custa mais do que o seu conteúdo. Em fim, levantar nossas vozes para que não desapareçamos como pecuaristas de leite e que, daqui para diante, o ex pecuarista de leite arrependido não seja obrigado a vender suas vacas para o futuro pecuarista iludido.

Se alguém vai nos ouvir? Só depende de nós!

Da nossa coragem. Do nosso protesto consciente e indignado. Da nossa luta perseverante.

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Manifesto que foi apresentado no 3º Encontro de Lideranças da Pecuária Leiteira Paulista dia 26/10 na Expomilk 2000 em nome do Sindicato Rural de Nova Granada, da Associação dos Produtores de Leite de Onda Verde e da Associação dos Agropecuaristas de Nova Granada
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Andreos Leite
ANDREOS LEITE

ANANINDEUA - PARÁ - PESQUISA/ENSINO

EM 24/11/2009

CRESCIMENTO E ORGANIZAÇÃO DO SETOR LEITEIRO NO ESTADO DO PARÁ
O setor leiteiro está em crescimento no Pará, especialmente no sul e sudeste do Estado. A atividade é ainda recente, quando comparado a outras regiões do país. Produtores organizados demandam novas tecnologias para viabilizar o desenvolvimento regional. O volume de leite industrializado aumentou nos últimos anos, mesmo diante de dificuldades como a de infra-estrutura viária por exemplo. Contudo, a experiência dos três últimos anos demonstrou resultados com a organização social dos produtores. A experiência foi relatada durante o II Workshop Tecnológico do Leite que aconteceu em Xinguara e Água Azul do Norte no Estado do Pará em 21 e 22 de novembro de 2009.

A organização setorial partiu de lideranças, há cerca de três anos, e mobilizou a comunidade e autoridades municipais em Canaã dos Carajás, Eldorado dos Carajás, Jacundá, Rondon do Pará, Sapucaia,Conceição do Araguaia, Xinguara e Água Azul do Norte. Instituições foram envolvidas, como Sebrae, Governo Estadual e Prefeituras Municipais para a criação de um programa de desenvolvimento. Os produtores foram organizados com estratégias de capacitação continuada. Várias demandas foram levantadas no I Workshop Tecnológico ocorrido em 2008 e contou com técnicos da UFPA, UFRA e Embrapa Amazônia Oriental. A resposta das demandas foi a implantação de seis Unidades de Referência Tecnológicas em integração lavoura-pecuária-floresta com suporte tecnológico da Embrapa, apoio da Emater e uso de máquinas, implementos e corpo técnico das prefeituras. O Sebrae disponibilizou técnicos em tempo integral para atuação nestes municípios e priorizou o projeto institucionalmente. A Embrapa Amazônia Oriental e o Sebrae estão monitorando os resultados. A Secretaria Estadual da Agricultura distribuiu tratores às prefeituras e criou a Câmara Setorial do Leite além de disponibilizar equipamentos e insumos. A Emater disponibilizou técnicos para acompanhamento do projeto e trabalha em sintonia com a Agência de defesa agropecuária do Estado (Adepará).

A experiência de organização das bacias leiteiras é digna de ser difundida e os resultados foram concretos. Neste período foram instalados 16 tanques de resfriamento comunitários, que atende a 118 pequenos produtores com capacidade de resfriamento de 32 mil litros. Os equipamentos foram adquiridos pelos produtores se organizando para a aquisição destes sem subsídios. Isto também é um bom exemplo de como o setor está se dinamizando, pois os produtores mostraram consciência coletiva quanto à importância de se organizarem coletivamente para solucionar problemas individuais que, na verdade, acabam se refletindo em toda a comunidade.Outra prova disso é o novo discurso entre entre estes produtores que já pedem orientações sobre educação voltada ao cooperativismo. As demandas de pequenos produtores mostraram elevado nível de maturidade um importante passo para a consolidação da produção sustentável na Amazônia, nova fronteira do leite.
Qual a sua dúvida hoje?