De olho no custo de produção

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Fernando Enrique Madalena1

Concurso de lucro no Sul acerta na mosca

No recente número de junho, o jornal Elegê Rural apresenta os resultados de concurso de fazendas leiteiras com base no seu desempenho zootécnico e econômico, onde são apresentados os lucros obtidos por 15 unidades produtivas. Como ao produtor interessa o lucro e a rentabilidade do seu empreendimento, este concurso está focando a atenção exatamente onde deve -produção de leite, intervalo de partos, serviços/concepção, são co-ajudantes, muito embora os técnicos muitas vezes percamos a perspectiva e os coloquemos em primeiro lugar. Considero esta iniciativa da maior importância para a pecuária leiteira, e creio que ainda vamos vê-la multiplicada pelo Brasil afora. Os organizadores e a equipe do Dr. Ernesto Krug estão de parabéns!

Embora a amostra é pequena e os dados se referem só a 2002, o exame dos números mostra alguns fatos interessantes. Um deles é que as fazendas com maior produção por vaca em lactação ou por vaca em total, não foram as que tiveram maior lucro, como pode ser visto nas Figuras 1 e 2, construídas com os dados informados na publicação da Elegê.


Mais interessante ainda é a forte relação negativa existente entre o custo de produção e o lucro por litro, apresentada na Figura 3. A correlação entre ambas variáveis foi -0.80. Observa-se na Figura 3 que a variação do custo foi muito ampla, de R$ 0,19 a R$ 0,39, com o lucro caindo a medida que aumentou o custo, até ficar no vermelho no caso extremo.

Uns anos atrás, quando ainda se discutia se os confinamentos eram rentáveis, Evandro Holanda Jr. fez estudo semelhante, com dados de sete fazendas de Minas Gerais e São Paulo, chegando à mesma conclusão ( "Leite caro não compensa", Anais do 20 Encontro de Produtores de Gado Leiteiro F1, Cad. Téc. Esc. Vet. UFMG 25:13, 1998). Pelo que se vê, o leite caro continua não compensando, também no Sul.


A boa notícia foi que a maioria desses 15 produtores teve lucro de razoável para cima, como pode ser visto na Figura 4, sendo que apenas quatro tiveram lucro de 0,01 R$/litro ou menos, nove tiveram lucro de 0,05 a 0,11 R$/litro, e os top 2 tiveram lucro de 0,16 e 0,18 R$/litro.


Ambos os campeões do lucro tinham 30 vacas cada, sendo 23 ou 24 em lactação, produzindo 21 litros/dia, com custo de 0,20 e 0,24 R$/litro. Com produção total diária de 490 e 510 litros, são produtores medianos, ilustrando que as fazendas podem ser eficientes independentemente de seu tamanho.

É claro que com dados de 15 fazendas em apenas um ano não se podem tirar conclusões definitivas, mas os fatos apontados ilustram a importância de se contar com informações de receitas e custos para analisar o desempenho dos sistemas de produção de leite. Tomara que a experiência dos gaúchos se generalize a todo o Brasil.
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1 Fernando Enrique Madalena é Professor da UFMG e ex-Presidente da Sociedade Brasileira de melhoramento Animal (SBMA)
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Paulo César
PAULO CÉSAR

CURITIBA - PARANÁ - INSTITUIÇÕES GOVERNAMENTAIS

EM 07/07/2003

Vemos atualmente o mercado leiteiro em mudança, estão reduzindo os pequenos Produtores, dando lugar ao crescimento dos grandes. Seria interessante se soubéssemos a realidade dos produtores pesquisados porque entendo que em termos percentuais sempre teremos um resultado bom para ótimo nos pequenos mas que infelizmente, em função do volume, não oferece um valor mensal que justifique seu trabalho. Um produtor de 500 litros por dia que ganhe 0,10 por litro produzido estará ganhando no final do mês R$1.500,00, será que vale o trabalho e principalmente o risco? Precisamos oferecer ao produtor de leite um ganho mensal que lhe dê condições de viver dignamente e não podemos esquecer que em uma atividade com tantos riscos, com investimentos em terras, animais e equipamentos tão altos, não podemos trabalhar com números percentuais iguais à industria. Seria interessante também se soubéssemos como foi calculado o lucro destas propriedades.
Rafael Gonçalves Veloso
RAFAEL GONÇALVES VELOSO

UBERABA - MINAS GERAIS - PROFISSIONAIS DE CIÊNCIAS AGRÁRIAS

EM 04/07/2003

Em primeiro lugar, parabenizo o autor pelo capricho e empenho desenvolvidos na edição deste artigo.

Por outro lado, gostaria de dizer aos caros leitores do milkpoint, e ao autor do artigo, que embora o custo operacional total tenha uma correlação negativa com o lucro por litro de leite, em casos onde o produtor tem uma alta produtividade por vaca esta situação é justificável, pois se por um lado ele ganha pouco por litro de leite, no final do mês talvez ele tenha uma renda líquida total maior, a qual proporcionaria ao produtor viver dignamente da atividade.

Diferantemente de um pequeno produtor, o qual pode obter um alto lucro por litro de leite mas não possuir um grande volume comercializado. O que não lhe daria, também, uma grande renda no final do mês.

Sendo assim, concluo dizendo que um custo um pouco mais alto por litro de leite, pode compensar sim. Quando esta situação for justificável em função de um grande volume produzido.

Rafael Gonçalves Veloso


<b>Resposta do autor</b>: Obrigado pelo elogio. Tudo bem, custo "um pouco" mais alto pode compensar sim, concordo. Um pouco. Por outra parte, comparar grande produtor com pequeno com base à renda, é como dizer que é melhor ser rico que pobre. Se o sujeito é pobre, não vai ter grande renda no final do mês, nem sendo dono de banco. Quem tiver mais capital vai ter maior renda, mesmo sendo "um pouco" menos eficiente. Só um pouco, se for muito ineficiente vai perder dinheiro. Também deve ser considerado que o mesmo capital, utilizado em muitas unidades menores, porém mais eficientes, daria maior rentabilidade, concorda?, embora isto tenha seus limites de gerenciamento. Note que eu não faço afirmativas de caráter universal quando se trata de produtor individual, pelo contrário, cada caso é um caso, porque há muitas variáveis envolvidas. Com respeito a modelos para o país, aí é diferente, os modelos de alto custo que foram divulgados deram com os burros n´agua. A maioria dos que embarcaram nessa se deu mal.


Qual a sua dúvida hoje?