Crédito de carbono para setor leiteiro: é prioridade?
No dia 06 de março passado, houve reunião da Câmara Setorial de Leite e Derivados de São Paulo, onde foi apresentada, por técnico da Secretaria da Fazenda, as novas medidas tributárias para o setor leiteiro paulista. As medidas foram bem recebidas e sugeridas outras também importantes de forma a assegurar a vitalidade da indústria e da pecuária de leite paulistas e a contribuição desse segmento para a economia e geração de empregos do Estado de São Paulo.
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Nessa reunião também foi apresentada uma palestra sobre a possibilidade de crédito de carbono para propriedades leiteiras, aproveitando o dejeto dos animais em biodigestor, que possibilitaria geração de energia elétrica, água para re-uso e a geração de créditos de carbono.
A empresa que apresentou a palestra mostrou que existe essa possibilidade e tecnologia disponível para implementá-la, e que era uma oportunidade para o setor leiteiro, pois a empresa realizaria todo o trabalho e faria o investimento, e o produtor ficaria com o aproveitamento da energia elétrica e água para re-uso e até com uma parte do crédito de carbono. Enfim, o produtor de leite não investiria, só teria benefícios e lucro, o que levou alguns que assistiam a palestra a perguntarem se existiria algo melhor que isso, e o presidente da Câmara Setorial e o Coordenador do Codeagro a colocarem que conversariam com o Governador sobre essa perspectiva.
De fato, como tese, a perspectiva é atrativa, mas evidenciam-se alguns problemas.
O primeiro é que foi colocado pela empresa que um projeto desse tipo seria viável a partir de 1.000 vacas. Ao questionamento de que na prática inviabiliza a participação de um produtor individualmente, a empresa mostrou então que esse número mínimo de vacas é para efeito de viabilizar economicamente a obtenção dos créditos de carbono, e que pode ser obtido com vários produtores, cada um com seu biodigestor na sua propriedade, mas que evidentemente uma pulverização muito grande de produtores leva a biodigestores muito pequenos que podem reduzir muito a rentabilidade do projeto ou mesmo inviabilizá-lo.
O segundo é que o produtor precisaria se comprometer a operar o biodigestor por pelo menos 10 anos. Ora, sabemos que o produtor é o elo mais fraco da cadeia produtiva e as últimas décadas mostram que o produtor foi massacrado com aviltamento dos preços e não teve possibilidade de acesso a tecnologia que lhe permitisse reduzir custos de produção, quer por falta de financiamentos com juros e prazos para pagamento adequados à realidade da pecuária leiteira, quer por dificuldade de obter assessoramento técnico.
Então, como o passado demonstra que não temos instrumento adequado para estabelecimento de política e planejamento do setor leiteiro de forma geral, especialmente para a pecuária leiteira, se essa situação se repetir no futuro, o produtor ficará obrigado a permanecer na atividade amarrado a um contrato de crédito de carbono. E essa obrigação certamente será extensiva a seus sucessores, o que poderá trazer dificuldades para vender a propriedade e para seus herdeiros no caso do seu falecimento. E permanecendo no futuro o aviltamento dos preços ao produtor, amarrado a um contrato de crédito de carbono perde a única arma que tem que hoje tem, que é reduzir a produção ou deixar de produzir, e aí, se o dejeto não for um negócio muito melhor que o leite, o sonho pode virar pesadelo.
Dentro da realidade da nossa pecuária leiteira, a possibilidade de crédito de carbono na utilização de biodigestores em propriedades leiteiras, me parece ainda distante da nossa realidade e principalmente das nossas prioridades, pois temos muitos, graves e urgentes problemas a resolver.
E em matéria de poesia eu particularmente prefiro Vinícius de Moraes. Mas não sou dono da verdade, e outros viram de outra forma, tanto que se propuseram a conversar com o Governador de São Paulo sobre o assunto.
Assim, embora reconheça o aproveitamento de dejetos em biodigestores e contratos de crédito de carbono em propriedades leiteiras possa ser uma possibilidade para o futuro mais distante, tenho também a preocupação de alertar dos riscos que um contrato desse tipo pode oferecer aos produtores de leite, e de governo e lideranças se envolverem com um tema que para a maioria está muito distante da realidade de curto e médio prazo, e que acabaria funcionando como uma manobra diversionista, tirando o nosso foco dos muitos, graves e urgentes problemas que temos que resolver, sobretudo no campo da extensão rural visando aumentar a qualidade, aumentar a produtividade e reduzir custos, cuja solução deve ser prioridade.
E no sentido de ajudar a resolver esses muitos, graves e urgentes problemas, cuja solução deve ser prioritária, ao final essa mesma reunião onde foi apresentada a palestra de crédito de carbono, a Leite São Paulo apresentou proposta solicitando ao presidente da Câmara Setorial de Leite e Derivados de São Paulo agendar uma reunião extraordinária, com o fim de apresentar e discutir uma proposta de implantação dos 10 projetos propostos pelo PENSA/USP na segunda fase do projeto da tomografia, e que tem por objetivo a solução desses problemas e o desenvolvimento do setor leiteiro paulista, sem o que, esse projeto, que envolveu representantes dos vários elos e foi financiado pelo SEBRAE-SP, FAESP e OCESP, e resultará em desperdício dos recursos humanos e financeiros nele investidos.
Material escrito por:
Marcello de Moura Campos Filho
Membro da Aplec (Associação dos Produtores de Leite do Centro Sul Paulista ) Presidente da Associação dos Técnicos e Produtores de Leite do Estado de São Paulo - Leite São Paulo
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CHAPECÓ - SANTA CATARINA - INDÚSTRIA DE INSUMOS PARA A PRODUÇÃO
EM 15/04/2008
Outro fator importante e que necessita de mais estudos aqui é referente ao processo de biodigestão que ocorre dentro do biodigestor, pois os dejetos de bovinos já são pré-fermentados (rúmen) e isto reduz o potencial de produção de metano.
Quanto a geração de créditos de carbono não sei se isto pode ser considerado como válido pois com o modelo econômico vigente não sei até quando os produtores de leite poderão suportar. A entrada neste mercado de carbono, como exposto pelo Marcelo necessita de contrato de no mínimo 10 anos.

CHAPECÓ - SANTA CATARINA - PESQUISA/ENSINO
EM 08/04/2008
Dito isso, não vou entrar no mérito da técnica dos biodigestores e nem diretamente nos aspectos econômicos e de interesses, que já foram bem explorados pelo Marcelo.
Gostaria sim de chamar atenção para uma produção a base de pasto, com pastoreio rotativo, em que os dejetos são retribuídos ao solo (pastos), devolvendo parte da fertilização. Esse sistema não envolve nem terceiros (geralmente picaretas que vivem dos produtores de leite), nem intermediários políticos, nem governos, nem burocracias e ainda é mais competitivo em termos de custos de produção de leite e envolve muito menos investimentos. Biodigestores nesse sistema tendem a ser elementos alienígenas.
Se SP e outras regiões insistirem mais intensivamente em trajetórias pouco competitivas, a agricultura familiar sul brasileira, produtora de leite a base de pastos, agradece. Ou seria por acaso que SP perde espaço na produção de leite?
Pronto, agora acabei por colocar uma terceira via no debate.....mas o Marcelo está no caminho correto.
Saudações a todos

GOIÁS - PRODUÇÃO DE LEITE
EM 02/04/2008

TUCUNDUVA - RIO GRANDE DO SUL - PROFISSIONAIS DE CIÊNCIAS AGRÁRIAS
EM 26/03/2008
Mas também concordo que os créditos de carbono não foram pensados para incluir os produtores de leite, mas sim para gerar mais lucro para empresas que intermediam esta questão. Também sugiro matérias sobre biodogestores e seus usos e também sobre proteção de fontes, pois o tema da água, este sim é central para a pecuária leiteira.

MINEIROS - GOIÁS - PRODUÇÃO DE LEITE
EM 24/03/2008

GOIÂNIA - GOIÁS - PRODUÇÃO DE LEITE
EM 24/03/2008

LAVRAS - MINAS GERAIS - TRADER
EM 24/03/2008
Assim, como cada vez mais a água das nascentes está aumentando, porque cerquei todas as nascentes e boa parte do curso d´agua próximo as mesmas, preciso urgentemente, partir para outra fonte de energia, porque um dia, não sei se a receita da propriedade, pagará a conta de energia, mantidas as mesmas proporcões (o aumento da agua das nascentes e o preço do kwh).
Nossos sinceros agradecimentos.

ARAXÁ - MINAS GERAIS - PRODUÇÃO DE LEITE
EM 23/03/2008
Obrigada, Dalva

BARUERI - SÃO PAULO - PRODUÇÃO DE LEITE
EM 23/03/2008
Aguardo, Zezo Goulart.

DOM AQUINO - MATO GROSSO - PRODUÇÃO DE LEITE
EM 22/03/2008
Parabéns marcello pelo artigo escrito.
MADRE DE DEUS DE MINAS - MINAS GERAIS
EM 21/03/2008
Descobri recentemente que uma fermentação eficiente baseiava-se em temperaturas mais elevadas e que mais de 4 graus centígrados de variação do meio de fermentação ( 2 pra mais ou 2 pra menos ), eram suficientes pra afetar a eficiencia do processo.
Outro problema que vislumbro, é que, se o leite a pasto é o que está dando mais certo entre os sistemas de produção, como conciliar isso com os biodigestores, os quais imagino, necessitem dos animais confinados em piso impermeabilizado para coleta e encaminhamento dos efluentes para o mesmo?

CERES - GOIÁS - PRODUÇÃO DE LEITE
EM 21/03/2008
Gostei muito da materia, gostaria de saber como iniciar o desenvolvimento de um biodigestor.
Edson Freire

GOIÂNIA - GOIÁS - PRODUÇÃO DE LEITE
EM 20/03/2008
GOVERNADOR VALADARES - MINAS GERAIS - PRODUÇÃO DE LEITE
EM 20/03/2008

RIO DE JANEIRO - RIO DE JANEIRO - PRODUÇÃO DE LEITE
EM 20/03/2008
Se possível, sugiro uma matéria mais completa no site com "pré-projetos", tamanhos, idéia de investimentos, endereços de empresas capacitadas a execução, assistência técnica, etc.
Parabens pela idéia.
Mozart Galvão
GOIÂNIA - GOIÁS - PROFISSIONAIS DE CIÊNCIAS AGRÁRIAS
EM 20/03/2008
Li uma nota, salvo engano, no Milkpoint, que os produtores de leite da N. Zelândia estão vendendo créditos de carbono por algum mecanismo de manejo do solo. Não tenho os detalhes.
Creio que apesar das dificuldades os negócios ambientais por você descritos e outros, relacionados com a bovinocultura de leite, deveriam sim, ser melhor pesquisados, apesar das dificuldade burocráticas, pois na minha opinião, prometem.
A. Carlos de Souza Lima Júnior

ÁGUAS DE CHAPECÓ - SANTA CATARINA - PRODUÇÃO DE LEITE
EM 20/03/2008
Tem um monte de gente querendo ganhar dinheiro nas nossas costas. Estes projetos que voçe não gasta nada para implantar e é obrigado a ficar na atividade preso por um contrato, só serve para produzirmos comida barata para os europeus, japoneses e americanos com custo baixo para eles.
Se for bom, primeiro é para os oportunistas, depois para quem pega no pesado.

ANÁPOLIS - GOIÁS - PRODUÇÃO DE LEITE
EM 19/03/2008

ÁGUA SANTA - RIO GRANDE DO SUL - REVENDA DE PRODUTOS AGROPECUÁRIOS
EM 19/03/2008
Tens toda a razão sobre a burocracia, mas devemos enfrentá-la. Gostaria, se possível, que me enviasse com qual instituição que estas tratando, eu estou iniciando este processo e gostaria de trocar algumas idéias.
Obrigado Eng. Roman

OUTRO - SÃO PAULO - PRODUÇÃO DE LEITE
EM 19/03/2008