No site da Láctea Brasil é apresentado a pesquisa “O consumo do leite informal no Brasil”, onde evidencia-se que os maiores consumidores dos lácteos informais caracterizam-se por baixa renda e baixo nível de escolaridade, e que o produto informal mais consumido é o leite fluido para beber (quase 100% de utilização diária).
A pesquisa classificou os motivos de compra em três itens : aspectos de saúde (higiene, pureza, origem, frescor, gordura e valor nutritivo), aspectos de praticidade (validade, preço, facilidade de pagamento, facilidade de entrega, confiança, embalagem e armazenamento) e aspectos de aparência (gosto, sabor, cheiro, aspecto geral/qualidade, gordura/nata e aparência nutritiva). Responderam aos quesitos 95% da amostra selecionada, resultando na seguinte hierarquia de preferência para compras: aspectos de saúde 50%, aspectos de aparência 24% e aspectos de praticidade 21%.
Note-se que, apesar da pesquisa mostrar que a grande maioria dos consumidores dos lácteos informais serem de baixa renda, e dos entrevistados reconhecerem que o leite cru é o de preço mais baixo entre todos os tipos de leite avaliados, o fator preço na decisão de compra apareceu apenas com apenas 24% dos aspectos de praticidade, que somados, representam 21% das razões de compra. Isto significa que para os entrevistados o aspecto preço representa apenas 5% das razões de compra dos lácteos informais.
A minha leitura da pesquisa é que para o consumidor de lácteos informais o preço mais baixo não é o determinante da compra e a preferência pelo produto é por que o consumidor acha que o produto é mais puro, mais nutritivo, com bom aspecto geral e de qualidade, dentro de condições higiênicas aceitáveis o que o leva a confiar no produto.
Nas conclusões a pesquisa coloca que a eliminação ou redução do mercado informal do leite passa necessariamente pela mudança de hábitos arraigado no consumidor, sustentada por ações paralelas de forte restrição ao comércio do leite informal aliadas a outras de conscientização e informação do consumidor.
Na minha opinião, estas ações são necessárias mas não são suficientes. A eliminação ou redução do mercado informal de lácteos só será possível com um tripé, dos quais uma das pernas é a informação e conscientização do consumidor, outra a restrição ao comércio ilegal, mas falta ainda uma perna para que o tripé não fique capenga. Qual será esta terceira perna, que não ficou explicitada na conclusão da pesquisa?
A pesquisa mostra o seguinte quadro da produção brasileira de leite, em milhões de litros.

É verdade que existe certa discussão sobre a apuração do montante do leite informal, mas é inquestionável que o seu valor é extremamente significativo dentro do mercado brasileiro e principalmente que na última década o crescimento do mercado informal foi muito maior do que o crescimento do mercado formal. Qual a razão deste crescimento? Será que foi o consumidor que correu atrás do fornecedor ou foi o fornecedor que correu atras do consumidor?
Citando como fonte o Boletim do Leite CEPEA/ESALQ, a publicação “O Agrobusiness do Leite no Brasil” (IPEA-PENSA-USP), analisando a evolução dos preços pagos ao produtor formal leite formal entre julho de 1994 e julho de 1998 em quatro regiões, mostra uma significativa queda no preço real recebido pelo produtor. Neste período a queda no valor real recebido por litro de leite foi da ordem de 15% em São José dos Campos, 25% em Goiás, 30% em São José do Rio Preto e 40% no Sul de Minas. Mas o produtor de leite avalia o quanto perdeu por índices práticos, comparando a situação atual com o passado, quando recebia por litro de leite cerca de 60% do preço ao consumidor ou o equivalente a um litro de óleo diesel. Vejam quanto o produtor de leite formal está recebendo hoje, com os preços caindo em plena entresafra ! O preço que o produtor de leite formal está recebendo, como diria um conhecido âncora da televisão, é uma vergonha.
Vejamos quanto o produtor de leite informal está recebendo. A pesquisa mostrada no site da Láctea Brasil os preços recebidos pelo produtor informal variaram entre R$ 0,41 a R$ 0,80 por litro, com 64,5% das indicações para o intervalo de preços para o intervalo de preços entre R$ 0,41 a R$ 0,60 por litro. Isto é muito mais do que o produtor de leite formal recebe, sem contar que é livre de impostos. Será que se os lacticínios pagassem ao produtor formal preços nesta faixa o mercado informa teria crescido tanto na última década?
Me parece muito claro que foi o produtor que ingressou no mercado informal e correu atras do consumidor para se defender dos preços vis que recebia.
Tenho visto algumas colocações dizendo que o Brasil tem o menor custo de produção de leite do mundo. Penso que a realidade é um pouco diferente : no Brasil os preços foram tão aviltados que o produtor de leite formal está recebendo o menor preço do mundo, e a consequência inevitável é o crescimento do mercado informal, que o produtor acaba entrando até como forma de poder sobreviver na atividade.
Creio que já dá para identificar a terceira perna do tripé necessário para a redução ou eliminação do mercado informal de leite: preço justo para o produtor de leite formal.
Na minha opinião, sem pagar um preço justo ao produtor de leite formal jamais teremos leite de qualidade e nuca eliminaremos ou reduziremos de forma significativa o mercado de leite informal no Brasil, por mais dinheiro que se gaste com informação e conscientização do consumidor e com restrições e fiscalização ao comércio informal de lácteos.
O que os lacticínios estão pagando hoje ao produtor brasileiro não estimula um crescimento maior do mercado formal para absorver o mercado informal. Para pagar um preço justo para o produtor formal os lacticínios terão que aumentar sua eficiência e/ou reduzir suas margens. Se os lacticínios já estão nos limites possíveis de suas eficiências e de suas margens, e o problema é o baixo poder aquisitivo do consumidor brasileiro, os lacticínios, junto com as entidades de produtores e do agronegócio do leite, terão que pleitear junto ao governo subsídios que viabilizem o produtor de leite formal. Se não se conseguirmos uma remuneração compatível para o produtor formal, teremos que nos conformar com uma grande participação informal no mercado brasileiro de lácteos.
É preciso que o Governo e todos os participantes da cadeia do agronegócio do leite no Brasil se conscientizem que a melhoria da qualidade do leite e redução do mercado informal dependem de um tripé: preço justo ao produtor de leite formal, informação e conscientização do consumidor e restrições ao comércio informal. E sem preços justos ao produtor formal o tripé fica capenga e as demais medidas não conseguirão reduzir significativamente o mercado informal por mais dinheiro que se gaste.