Como Cingapura venceu a corrupção

Seção Espaço Aberto: "O Brasil vive o seu momento mais crítico de teste das instituições e bases do que queremos ser no futuro. Vi recentemente um gráfico interessante que comparava a qualidade das instituições com a renda per capita de mais de cem países. A relação é absolutamente linear: quanto maior a qualidade institucional, maior a renda per capita. Simplesmente não há casos de países pobres com boas instituições. Tampouco há países ricos com más instituições", por Marcos Sawaya Jank, especialista em questões globais do agronegócio.

Publicado em: - 2 minutos de leitura

Ícone para ver comentários 3
Ícone para curtir artigo 0

*Marcos Sawaya Jank, especialista em questões globais do agronegócio, para o jornal Folha de São Paulo. Caderno Mercado 05/03/2016

O Brasil vive o seu momento mais crítico de teste das instituições e bases do que queremos ser no futuro. Vi recentemente um gráfico interessante que comparava a qualidade das instituições com a renda per capita de mais de cem países. A relação é absolutamente linear: quanto maior a qualidade institucional, maior a renda per capita. Simplesmente não há casos de países pobres com boas instituições. Tampouco há países ricos com más instituições.

E, quando falamos de qualidade das instituições, talvez o principal item seja o combate à corrupção, em que Cingapura é um dos exemplos mais notáveis de sucesso.

Nos anos 1960, essa cidade-nação era pobre, suja, perigosa e, assim como quase todos os países asiáticos, tomada pela corrupção. Em seu livro de memórias, Lee Kuan Yew – o líder que levou Cingapura do Terceiro para o Primeiro-Mundo – narra as mudanças institucionais que transformaram um país muito corrupto em uma das nações mais limpas do mundo. Abaixo alguns trechos:

"Corrupção, nepotismo, propinas e suborno são um meio de vida na Ásia, e as pessoas as aceitam abertamente como parte de sua cultura e costumes. (...) A engenhosidade humana é infinita quando se trata de traduzir poder e arbítrio em ganhos pessoais (...) O problema é que um mínimo de poder nas mãos de homens que não conseguem viver do seu salário será sempre um convite à corrupção."

Lee acreditava que a única solução possível era combinar políticas do tipo "chicote e cenoura". Investigações e punições exemplares (o chicote) foram feitas em Cingapura já nos anos 1960, resultando na prisão de centenas de pessoas. Mas, para manter altos níveis de probidade no setor público, ele achava fundamental fixar remunerações adequadas capazes de atrair os melhores talentos do mercado (a cenoura). Segundo ele, altos funcionários, juízes e políticos mal pagos já haviam arruinado muitos governos. Mas a necessidade de apoio popular faz com que governos eleitos insistam em pagar baixos salários para seus ministros, compensando-os com adicionais menos visíveis como moradias, automóveis, cartões de credito e outros. Para ele, isso estava conceitualmente errado.

Nos anos 1990, Lee propôs uma fórmula de salários públicos altos que seriam vinculados ao crescimento da economia e à arrecadação fiscal e ainda respeitariam uma paridade de dois terços da remuneração equivalente no setor privado.

Com isso, as remunerações poderiam aumentar ou diminuir, dependendo da situação da economia e do mercado de trabalho no setor privado. Ele também instaurou um sistema meritocrático que funciona não só no concurso de admissão como ao longo de toda a carreira do funcionário, incluindo o pagamento de bônus variáveis de até 50% do salário por desempenho. A meritocracia substituiu a isonomia no setor público.

Lee foi altamente criticado por pagar elevados salários para os funcionários do governo. Mas hoje Cingapura é bem governada, limpa, verde, segura e tem a terceira maior renda per capita do mundo. No ano passado, Cingapura recebeu nota 8,5 na lista de 168 países que compõe o índice de "percepção de corrupção" da Transparência Internacional. É de longe o país mais avançado da Ásia nesse quesito e ocupa o 8º lugar do planeta. O Brasil recebeu nota 3,8 (76º lugar). Hoje temos uma chance histórica de redefinir o que queremos ser nessa área. Em algum momento da história, países mudaram culturas e paradigmas na área institucional e, exatamente por isso, se tornaram os mais ricos do planeta.
Ícone para ver comentários 3
Ícone para curtir artigo 0

Material escrito por:

Marcos Sawaya Jank

Marcos Sawaya Jank

Acessar todos os materiais

Deixe sua opinião!

Foto do usuário

Todos os comentários são moderados pela equipe MilkPoint, e as opiniões aqui expressas são de responsabilidade exclusiva dos leitores. Contamos com sua colaboração.

Orlando Serrou Camy Filho
ORLANDO SERROU CAMY FILHO

CAMPO GRANDE - MATO GROSSO DO SUL - PROFISSIONAIS DE CIÊNCIAS AGRÁRIAS

EM 13/03/2016

Ótimo artigo Sr. Marcos Jank. Sou servidor público (não apenas funcionário) e promovo este pensamento dia a dia, procurando dar exemplo aos meus pares, sendo independente em minhas relações pessoais e políticas, o que me permite expor os conceitos que considero importantes para a condução das ações de governo para as políticas públicas que devem ser de estado e não de governos. Enfim, acredito nas pessoas e que a mudança só ocorrerá com a união e ação de pessoas ousadas, mas não radicais.
Estêvão Domingos de Oliveira
ESTÊVÃO DOMINGOS DE OLIVEIRA

QUIRINÓPOLIS - GOIÁS - PROFISSIONAIS DE CIÊNCIAS AGRÁRIAS

EM 08/03/2016

Parabéns pelo excelente artigo!!!



Vou compartilhar no Facebook
Osmar Redin
OSMAR REDIN

PORTO ALEGRE - RIO GRANDE DO SUL - PRODUÇÃO DE LEITE

EM 08/03/2016

Parabéns, Marcos.

Este é o caminho que o Brasil precisa e o momento pode ser agora.

Moralidade já nas instituições, seja públicas ou privadas.
Qual a sua dúvida hoje?