Cartas na mesa: a nova Política Agrícola da União Européia
A reforma na política agrícola da União Européia (CAP), iniciada em 2003, é tema de intensos debates nos dias de hoje. Vários críticos acusam os ministros europeus de colocarem barreiras prejudiciais ao comércio dos produtos agrícolas através de subsídios agrícolas que somam bilhões e bilhões de Euros a cada ano. Vale a pena entender melhor o tema, pois seremos todos influenciados, alguns de forma direta, outros não.
Publicado em: - 4 minutos de leitura
Vale a pena entender melhor o tema, pois seremos todos influenciados, alguns de forma direta, outros não.
No último dia 20 de Novembro, a comissão da União Européia enviou proposta ao conselho do Parlamento Europeu, nomeada de "health check", descrevendo o processo de consulta pública nos próximos 06 meses para as propostas de retirar os subsídios à exportação, limitar a intervenção de compra de grãos para somente o produto trigo, abolir o sistema de "set-aside" de terras, e preparar uma "aterrissagem suave" para quando o sistema de quotas da produção de leite se expirar, em 2015.
A confederação das indústrias de alimentos e bebidas da União Européia (CIAA) classificou a proposta para reforma da Política Agrícola da União Européia como sendo uma nova era da agricultura européia: a "era da agricultura orientada pelo mercado". Por exemplo, a comissão propôs o fim do sistema de "set-aside" de terras, política através da qual os produtores devem deixar dez por cento (10%) das terras sem cultivo para que possam ter acesso ao pagamento do subsídio.
A regulamentação do "set aside" de terras foi feita inicialmente para se reduzir a produção e alavancar os preços. Entretanto, nos dias de hoje, a história é diferente. A crescente demanda por alimentos e o desenvolvimento dos biocombustíveis estão colocando forte pressão sob o setor como um todo e os preços das commodities agrícolas estão muito elevados. Este fato é altamente relevante e vale a pena lembrar que, no ultimo mês de Setembro, a comissão européia declarou formalmente que a manutenção da política de "set-aside" das terras "colocaria o mercado interno europeu em sérios riscos".
Por outro lado, a proposta também contempla a remoção das quotas para a produção de leite, uma vez que os preços dos lácteos, assim como o dos grãos, estão muito acima dos níveis médios históricos. Como informação geral, vale a pena lembrar que o regime de quotas foi introduzido em 1984, no sentido de limitar a produção sob o contexto dos preços mundiais estarem muito reduzidos. O que acontece atualmente é o reverso, com demanda superior à produção.
Em se tornando realidade, a conseqüência do fim do sistema de "set-aside" de terras e da remoção do regime de quotas será uma drástica redução dos preços dos grãos e produtos lácteos, ainda que no curto prazo. Este fato é também claramente descrito pela comissão européia e deve trazer conseqüências para a agricultura mundial como um todo.
Entretanto, o que não se sabe ao certo é se a demanda mundial por alimentos e energia renovável (biocombustíveis) será capaz de se manter em níveis elevados como os atuais. Se isto acontecer, os riscos de preços reduzidos poderão ser minimizados.
O que se sabe, de forma geral, é que o suporte financeiro para os produtores europeus será reduzido. Uma outra proposta da comissão européia é de que a quantidade de terra que um produtor deva possuir para se qualificar ao subsidio deve aumentar. Da mesma forma, um teto máximo nos subsídios por produtor está sendo proposto.
A comissão estima que produtores recebendo mais que 5.000,00 Euros por ano de subsidio direto terão seus pagamentos reduzidos, aumentando os fundos para o desenvolvimento rural europeu em treze por cento (13%). Segundo Fischer Boel, comissionário da união européia responsável pelo setor da agricultura e desenvolvimento rural, "o impacto desta redução em relação aos produtores afetados será sentido não somente nos países membros há mais tempo da união européia, tais como Alemanha, Reino Unido e Espanha, mas também em novos membros, como Hungria".
Um aspecto interessante é que o dinheiro não gasto com o subsidio poderá ser utilizado para o desenvolvimento rural, suportando os novos desafios da agricultura relacionados às mudanças climática e ao desenvolvimento dos biocombustíveis.
Por último, a comissão européia também propôs eliminar o "coupled support", política introduzida para sustentar e subsidiar a atividade rural em áreas menos produtivas, tais como propriedades presentes em áreas altamente montanhosas.
Um aspecto importante levantado também pela confederação das indústrias de alimentos e bebidas da União Européia (CIAA) é que os fatores que levam ao aumento do preço das commodities são de natureza "multi-fatorial" e, neste sentido, qualquer reforma da Política Agrícola da União Européia deverá levar em consideração o impacto no curto e longo prazo, a fim de prevenir grandes desigualdades no setor.
Enfim, as cartas estão na mesa e os diferentes cenários para o futuro já começam a ser discutidos.
De tudo isto, um fato é certo: a utilização dos 55 bilhões de Euros (cerca de 44% do orçamento total da União Européia) gastos neste ano de 2007 para manter a atual Política Agrícola da União Européia está sendo questionada de forma relevante. E tem seu futuro comprometido.
Novamente, vale a pena conferir de perto. A nova etapa da Política Agrícola Européia começou, e as cartas estão na mesa.
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Material escrito por:
Fabiano Amaro
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EDEALINA - GOIÁS - ESTUDANTE
EM 12/05/2008

SANTA ROSA - RIO GRANDE DO SUL
EM 06/12/2007
A nova politica agricola da União Européia, podem apostar, vai beneficiar os seus produtores, se não for na forma de subsidios diretos, vai ser em investimentos em tecnologia, informação, infraestrutura. Vão continuar investindo em desenvolvimento rural. E nós...
<b>Resposta do autor:</b>
Keli,
Concordo com seus comentários. O processo de desenvolvimento da agricultura brasileiro acontece de forma não estruturada, ainda que este setor brasileiro seja mundialmente reconhecido por sua importância para os renovaveis e producao de alimentos. Hoje e por um longo futuro.
Com a atenção de,
Fabiano Amaro
ALTO ARAGUAIA - MATO GROSSO - PROFISSIONAIS DE CIÊNCIAS AGRÁRIAS
EM 03/12/2007
Se o caminho trilhado pela UE for a eliminação do sistema "set-aside", esta áreas terão algum dano ambiental? Em caso afirmativo, na sua opinião, o leite terá mercado externo ou interno? Sem mais.
<b>Resposta do autor:</b>
Prezado Breno,
Em relação à sua pergunta, acredito não haver maiores impactos, ainda que alguns possam acontecer. Em relação ao leite, acredito que a UE continuará exportando leite no curto e médio prazo.
Com a atenção de,
Fabiano Amaro

IPUÃ - SÃO PAULO - PRODUÇÃO DE LEITE
EM 01/12/2007