Câmara do MAPA discutirá integração dos setores lácteos do Brasil e Argentina

Desde que tivemos conhecimento que havia tratativas no sentido de integração dos setores lácteos do Brasil e da Argentina, ficamos preocupados e nos posicionamos de que deveria haver uma discussão do MAPA com o MDCI, que comandava negociações com a Argentina nessa direção, no sentido de se assegurar que as discussões externas só deveriam prosseguir depois de ampla discussão interna. A reunião com o MDCI foi realizada no dia 17 de março e a Reunião Extraordinária da Câmara Setorial de Leite e Derivados será realizada no dia 22 de abril próximo.

Publicado em: - 4 minutos de leitura

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Desde que tivemos conhecimento que havia tratativas no sentido de integração dos setores lácteos do Brasil e da Argentina, ficamos preocupados e nos posicionamos de que deveria haver uma discussão do MAPA com o MDCI, que comandava negociações com a Argentina nessa direção, no sentido de se assegurar que as discussões externas só deveriam prosseguir depois de ampla discussão interna, e sugerimos uma Reunião Extraordinária da Câmara Setorial da Cadeia Produtiva do Leite e Derivados do MAPA para começar a discussão dessa questão.

A reunião com o MDCI foi realizada no dia 17 de março passado e a Reunião Extraordinária da Câmara Setorial de Leite e Derivados será realizada no dia 22 de abril próximo.

Relato a seguir os motivos da nossa preocupação.

O Brasil produz cerca de 28 bilhões de litros e com uma população de 193 milhões de habitantes tem um consumo da ordem de 28 bilhões de litros (145 litros/hab./ano), portanto sem excedentes para exportação.

A produção de leite na Argentina tem oscilado entre 8 e 10 bilhões de litros. Considerando uma produção de 10 bilhões de litros e com uma população de 42 milhões de habitantes tem um consumo da ordem de 8,4 milhões de litros (200 litros/hab/ano) portanto com excedente para exportação de 1,5 bilhões de litros ano (38 litros/hab./ano).

Se trabalharmos para aumentar o consumo por habitante no Brasil para 180 litros, teríamos um consumo adicional de 6,75 bilhões de litros, que representaria 67,5% do atual consumo da Argentina.

Naturalmente que o Brasil, com um mercado atual 2,8 vezes maior, e que poderia chegar com aumento do consumo per capta a 3,5 vezes maior, do que o da Argentina, representa uma atração para exportações de leite e lácteos argentinos.

No entanto, se a exportação de leite e lácteos da Argentina para o Brasil crescer muito, representa riscos para os dois países.

Digamos, raciocinando em termos de limite, que a Argentina absorvesse todo o potencial de aumento de consumo per capta brasileiro, teríamos a seguinte situação:

O Brasil voltando a ser grande importador de leite como o foi no passado, e perdendo grande geração de postos de trabalho e de renda no campo para a Argentina. Se o consumo per capta não crescer, a situação seria pior, pois estaríamos perdendo empregos e renda existentes hoje no campo para a Argentina. Essa situação é uma ameaça à segurança alimentar do Brasil, que precisa ter um mínimo de excedentes exportáveis.

A Argentina com excedentes de exportação que representariam um enorme percentual com relação a sua possibilidade de consumo interno, voltados predominantemente para o Brasil, correria risco de colapso no seu setor lácteo se essas exportações fossem suspensas em decorrência de pressão política interna no Brasil, que naturalmente pode ocorrer devido à perda de empregos e renda no campo.

Os setores lácteos, principalmente a pecuária leiteira, são extremamente sensíveis pelo que representam em termos de geração de empregos e renda no campo, e não devem correr riscos fruto de uma tentativa de integração que não seja sustentável ao longo do tempo.

A realidade é que é desejável ao Brasil e à Argentina aumentarem suas exportações de leite e lácteos, mas com a exportação diversificada para vários países.

Um outro aspecto a se considerar com relação à integração dos setores lácteos do Brasil e Argentina são as diferenças existentes. Quanto à indústria, as diferenças podem não ser tão grandes, mas com relação à pecuária leiteira a diferença é enorme.

Na Argentina temos 22.000 produtores para produzir 10 bilhões de litros por ano, ou seja, uma média de 1.245 litros/dia/produtor. No Brasil temos 1,2 milhões de produtores para produzir 28 bilhões de litros, ou seja, uma média de 63,9 litros/dia/produtor. A diferença do número de produtores e de sua organização nos dois países é enorme, bem como a diferença da tecnologia empregada na pecuária leiteira.

Com essa enorme diferença entre as pecuárias leiteiras dos dois países, a integração pode representar um risco de prejuízo em curto prazo para o produtor de leite brasileiro, com consequências econômicas e sociais graves no interior do Brasil. E como a toda ação corresponde uma reação, serão tomadas medidas para reverter os prejuízos e aí o risco é para o produtor argentino.

Todos sabemos que quem "paga o pato" pelas besteiras que ocorrem na cadeia produtiva geralmente são os produtores de leite. Os produtores de leite brasileiros e argentinos, não podem ficar como "sanfona" dentro de um processo de integração dos setores lácteos dos dois países que não seja efetivamente sustentável ao longo do tempo.

Finalizando, o nosso ponto de vista com relação a essa questão é:

A integração entre os setores lácteos do Brasil e da Argentina, embora importante, não é urgente e deve ser tratada com todo o cuidado, principalmente para não prejudicar os produtores de leite dos dois países, especialmente os brasileiros que estão numa situação muito mais frágil do que os argentinos.

Nesse sentido entendemos que uma integração dos setores lácteos brasileiro e argentino deveria estar voltada para aumentar a competitividade da indústria e da pecuária leiteira nos dois países, bem como para colaboração mútua para aumento e diversificação de exportações para outros países.

É essa a posição que a Leite São Paulo levará à Reunião Extraordinária da Câmara Setorial da Cadeia Produtiva de Leite e Derivados do MAPA, agendada para dia 22 de abril próximo, com objetivo de discutir os aspectos de uma integração dos setores lácteos do Brasil e da Argentina.
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Material escrito por:

Marcello de Moura Campos Filho

Marcello de Moura Campos Filho

Membro da Aplec (Associação dos Produtores de Leite do Centro Sul Paulista ) Presidente da Associação dos Técnicos e Produtores de Leite do Estado de São Paulo - Leite São Paulo

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Ramon Benicio Lima da Silva
RAMON BENICIO LIMA DA SILVA

NITERÓI - RIO DE JANEIRO

EM 25/04/2010

Boa noite Marcello,

Deixei para comentar este seu post após o dia 22, quando supostamente deve ter se realizado a reunião no MAPA para resolver este embrolio da importação de leite da Argentina e Uruguai.

De ante mão vou já vou responder a minha pergunta de como foi a reunião.

Parece que foi uma conversa tranquila.

Se os números são estes que você apresenta, e tenho certeza que estão corretos, será uma grande covardia com os produtores brasileiros. Aliás mais uma, como se já não bastasse o tratamento dispensado aos produtores, ao longo de anos, pelo governo.

Este ano temos eleição, ainda bem!

Um grande abraço.
Ramon Benicio

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