Cadeia produtiva do leite1 - Parte 2

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Sebastião Teixeira Gomes

Quando se discute preço do leite, um dos principais objetivos do produtor é a estabilidade de preço durante o ano. Na busca da estabilidade do preço, o produtor procura a estabilidade de renda e, por extensão, melhores condições para planejar suas atividades. Uma clássica explicação para a instabilidade de preço do leite é a sazonalidade da produção, que era verdade no passado, e hoje não o é tanto. A sazonalidade da produção diminuiu muito nos últimos anos.

Segundo dados da Pesquisa Trimestral do Leite, do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), em 1997, a produção do Brasil, no período das águas, foi 17% maior que a da seca; em 1998, 12%; e, em 1999, 11%. Segundo ainda o IBGE, nos três últimos anos, a produção das águas aumentou 4%, e a da seca, 10%. São dados expressivos que indicam avanços consideráveis na produção de leite do País. Apesar desses resultados, a variação do preço do leite permanece elevada. Nos últimos seis anos, a variação média do preço do leite tipo C - cota, recebido pelo produtor, foi 25%. Acrescentando o preço do leite em excesso, tal variação chega a 28%.

Provavelmente, a explicação para uma variação de preço elevada, mesmo com redução da sazonalidade de produção, pode estar associada à variação dos custos de produção, já que o preço flutua de acordo com a flutuação do custo de produção. Para que essa hipótese se confirme, é condição necessária que a maior parte da produção de leite do País seja proveniente de sistemas de produção flexíveis, ou seja, sistemas de produção que têm custo de produção do período das águas menor que o da seca.

A análise da evolução da produção de leite do País mostra que ela tem crescido mais na região Centro-Oeste, com destaque para o Estado de Goiás, que já é o segundo maior produtor do País. Mesmo em Minas, o maior crescimento acontece a Oeste do Estado, na região do Triângulo Mineiro e Alto Paranaíba. Em escala menor, porém vem também crescendo, significativamente, a produção de leite de Mato Grosso do Sul e de Rondônia. Todas essas regiões são áreas de cerrado onde predominam sistemas de produção que privilegiam pastagens de boa qualidade, com suplementação volumosa na seca e concentrada durante todo o ano, porém em quantidade menor nas águas. Evidentemente que esta tecnologia não é utilizada por todos os produtores, mas por aqueles que respondem pela maior parte da produção de leite.

O preço recebido pelo produtor tem apresentado significativas variações durante o ano. Entretanto, no varejo, os preços de lácteos pouco variam. A exceção fica para o leite longa vida, cujo preço de varejo tem elevado coeficiente de variação. Esta situação de elevada variação de preço para o produtor e pequena variação para o consumidor é viabilizada pela estrutura concentrada do mercado, tanto na indústria quanto no varejo, em que poucos agentes econômicos têm possibilidade de influenciar os preços.

Do que foi apresentado até então, conclui-se que: 1) A estabilidade de preço do leite é um dos principais objetivos do produtor; 2) A sazonalidade de produção diminuiu muito nos últimos anos e deixou de ter a força que tinha no passado, o que explica a variação de preço do leite; 3) Uma hipótese alternativa de explicação da variação de preço do leite diz respeito à variação do custo de produção; 4) A produção de leite no País tem crescido mais nas regiões onde é possível flexibilizar os sistemas de produção, de modo a ter menor custo nas águas e maior na seca, o que facilita a confirmação da hipótese anterior; 5) O preço do leite recebido pelo produtor tem variado muito; entretanto, os preços de lácteos pagos pelo consumidor pouco variam, à exceção do leite longa vida; 6) As imperfeições do mercado, com poucos agentes econômicos na indústria e no varejo, viabilizam o funcionamento destes mercados de produtor e consumidor; e 7) O comportamento dos preços recebidos pelo produtor e pagos pelo consumidor revela uma flutuação das margens de comercialização.

A questão de ajustamento dos sistemas de produção pode ser melhor entendida quando se examinam os gráficos 1, 2 e 3. O gráfico 1 mostra a flutuação do preço recebido pelo produtor durante o ano, com preço menor no período das águas e maior na seca. Tal comportamento se repete, sistematicamente, em todos os anos, do período de janeiro de 1996 a dezembro de 2000.

Gráfico 1 - Preço médio do leite tipo C recebido pelo produtor de Minas Gerais

Gráfico 1


O gráfico 2 mostra, mês a mês, o preço de ração para vaca leiteira no período de janeiro de 1996 a dezembro de 2000. Nesse período, a tendência geral foi de queda do preço do concentrado, com dois picos na série de preço, sem, contudo, perturbar a tendência declinante do preço. Não se verificaram flutuações anuais no preço do concentrado, embora o preço de grãos (milho, soja), com certeza, tenha variado durante o ano. A indústria de concentrado não repassa para o preço da ração as ocilações de preço da matéria-prima.

Gráfico 2. Preço de concentrado para vaca leiteira em Minas Gerais. Saco de 40 kg

Gráfico 2


O gráfico 3 mostra, mês a mês, a relação entre o preço do leite e o de concentrado e indica o poder de compra do produtor. O mesmo comportamento verificado no preço do leite (gráfico 1) se repete no gráfico 3. Durante o período das águas, com 100 litros de leite o produtor comprava em torno de 2,5 sacos de ração, e, na seca, comprava 3,5 sacos. Isto significa que, se ele utilizasse a mesma quantidade de concentrado durante todo o ano, teria vantagens na seca e desvantagens nas águas. A desvantagem das águas pode ser suavizada pela redução do consumo de concentrado nesse período. Esta estratégia é que tem sido adotada por muitos produtores, flexibilizando o sistema de produção.

Gráfico 3. Relação entre o preço de 100 litros de leite tipo C e o preço de um saco de ração para vaca leiteira (40 kg) em Minas Gerais

Gráfico 3


Finalmente, ainda que seja pequeno o aumento da produção nas águas, ele é exacerbado por quem tem interesse em reduzir o preço neste período. O pleno conhecimento do comportamento do mercado pelos produtores facilita muito a negociação do preço das águas. Além disto, a disponibilidade de crédito para enxugar o mercado também representa uma providência recomendável para reduzir a flutuação de preço. Ambos os procedimentos são recomendáveis, mas não se pode perder de vista que sempre haverá flutuação de preço do leite (o que se deseja é que seja menor possível), em razão da flutuação do custo de produção dos sistemas prevalecentes no País.

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Sebastião Teixeira Gomes é Professor titular da Universidade Federal de Viçosa

1 Trabalho apresentado no II Congresso da Cadeia Produtiva do Leite, realizado nos dias 3 e 4 de julho 2001.
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