Cada um por si e todos mal
Nos últimos dias, texto defendendo a independência do Rio de Janeiro vem circulando pela Internet. Assinado pelo "Movimento Rio Independente", argumenta, com base em uma série de informações e muita ironia, que a soberania seria a solução para o impasse dos royalties do petróleo. Parafraseando a pergunta que norteia o artigo, por que limitar as reclamações aos 52,5% dos royalties que querem tirar do Rio? Não seria melhor lutar pelos 100%?
Ao que parece uma brincadeira, o texto do "Movimento Rio Independente" ilumina um importante aspecto do debate que vem agitando nosso cenário político nos últimos meses. Chama a atenção, em meio à mobilização popular, a centralidade que o "quanto" assumiu na discussão, em detrimento do "como". Dito de outra forma, a indignação com a transferência de recursos dos estados produtores a outras unidades da federação não é acompanhada da reflexão acerca da forma como esses recursos vêm sendo usados.
Em grande medida, os próprios políticos são responsáveis por essa situação. Demonstrações do despreparo das autoridades são numerosas. O comentário de autoridades do Rio, para quem uma mudança nas regras inviabilizaria a organização de grandes eventos na cidade, constitui um bom exemplo da abordagem desastrosa adotada. Ora, a campanha pela escolha do Rio como sede dos Jogos Olímpicos, para citar um exemplo, não só é anterior à descoberta do Pré-Sal como é amparada pelo Governo Federal.
Da mesma maneira, o estardalhaço do governo federal após a descoberta, enaltecendo a enorme riqueza que se originaria do Pré-Sal, contribui para acirrar os ânimos da opinião pública. Petróleo virou sinônimo da resolução dos problemas mais variados, como se a descoberta de grandes reservas assegurasse transformações sociais automáticas. Já aprendemos - ou deveriamos ter aprendido - com o estabelecimento da democracia que os processos são mais complexos, dependendo principalmente da forma como o conduzimos. Daí a importância da serenidade em momentos como este.
Energia gasta à toa
Antes de tudo, uma pergunta não quer se calar: de quem são os royalties? Se consultarmos a Constituição Federal, veremos que o petróleo é da União. No caso da exploração petrolífera no litoral brasileiro, há ainda um agravante: a prospecção se dá em terras de domínio da União. Dessa maneira, a discussão atual soaria mesmo descabida, não fosse a previsão, no próprio texto constitucional, de que lei complementar poderia garantir uma compensação aos municípios ou estados afetados pela exploração petrolífera.
Pois bem, são justamente essas leis complementares que garantam o pagamento de royalties a estados e municípios produtores. Não entraremos no detalhe dos critérios utilizados, dado que estes, certamente, foram escolhidos em meio a um jogo político intenso. Ou seja, o que importa no debate é a forma como cada agente faz valer seus interesses perante os outros, e aquilo que defende. Na atualidade, a transferência de recursos para os estados e municípios produtores é justificada segundo a percepção de que a exploração petrolífera acarreta desafios sociais e ambientais. Nada mais justo, assim, que haja algum tipo de compensação.
O problema é que o aumento dos recursos repassados a cidades beneficiadas com a descoberta de petróleo não se traduziu em melhoria da qualidade de vida. Estudo recente conduzido pelo professor Cláudio Paiva (Unesp) confirma aquilo que os olhos dos observadores já vinham constatando a tempos. Tamanha riqueza financiou, em grande medida, investimentos públicos de utilidade duvidosa, realizados sem a devida transparência. Em outras palavras, alimentou a corrupção.
Por isso, corremos o risco de ignorar o aspecto mais importante no debate público acerca das reservas petrolíferas, qual seja: estamos felizes com o destino dado ao dinheiro até o momento? Como era de se esperar, do ponto de vista de governadores e prefeitos, tudo gira em torno da quantia recebida. É fundamental que a população não caia nessa armadilha, legitimadora do descuidado com os recursos. A luta por um quinhão maior do Pré-Sal só compensa se possibilitar a resolução de parte de nossos problemas cotidianos.
Vale mais a pena discutirmos todos, na condição de brasileiros, qual a melhor forma de usar esses recursos e, principalmente, como essas metas serão fiscalizadas. Em um momento posterior, a própria definição dos objetivos trará pistas acerca da melhor forma de distribuição. Infelizmente, envoltos na pirotecnia de um ano eleitoral, preferimos bater no peito é gritar: o petróleo é nosso! Melhor seria reconhecermos que, a continuar esse debate estéril, o azar é nosso!
Material escrito por:
Bruno Varella Miranda
Professor Assistente do Insper e Doutor em Economia Aplicada pela Universidade de Missouri
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Professora do Departamento de Administração da USP e coordenadora do Center for Organization Studies (CORS)
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RIO DE JANEIRO - RIO DE JANEIRO - PRODUÇÃO DE LEITE
EM 12/04/2010
1) O mau uso dos recursos públicos não se restringe ao Rio. É problema que não conhece fronteiras entre estados ou municípios, sendo generalizado no Brasil. Logo, não se justifica esta verdadeira guerra declarada contra o Estado por um grupo de políticos oportunistas. É óbvio que a qualidade da maioria dos investimentos é baixa, orientada para o populismo e demagogia. Precisamos encontrar formas mais inteligentes de controle das aplicações dos recursos públicos com fiscalização eficaz. Qualquer iniciativa neste sentido merece apoio incondicional;
2) Com relação aos royalties, a compensação aos Estados produtores é prevista na Constituição Federal. Os municípios produtores sofrem com a explosão populacional, decorrente da atividade petrolífera, sendo necessário investir pesado em infra-estrutura, além de mitigar os inevitáveis danos ambientais. A Constituição prevê ainda que a lei não prejudicará o ato jurídico perfeito, no caso os contratos relativos às licitações já homologadas. Há realmente muita leviandade no projeto apresentado;
3) O que ninguém discute, e deveria, é a absurda regra de recolhimento do ICMS no destino e não na origem, como ocorre com TODOS os demais produtos. Sem essa aberração, as riquezas do petróleo poderiam ser distribuídas equitativamente, beneficiando a todos e garantindo ainda aos estados produtores a justa remuneração;
4) O baixo nível de nossa representação política é realmente assustador. Exemplo gritante disso é a resistência desesperada contra o projeto que veta a posse dos chamados "fichas sujas". Onde estão as verdadeiras lideranças? Por que não se manifestam? Os projetos de poder, os interesses mesquinhos, o patrimonialismo, a demagogia barata e uma insuperável cara de pau se sobrepõem aos projetos de desenvolvimento e justiça social para o país.
Na verdade precisamos de reformas políticas urgentes ou nossa democracia morrerá em descrédito. O caminho continua sendo o voto consciente.

ANHEMBI - SÃO PAULO - INSTITUIÇÕES GOVERNAMENTAIS
EM 02/04/2010

MONTE CARMELO - MINAS GERAIS - PRODUÇÃO DE CAFÉ
EM 02/04/2010
Aí eu me pergunto. Como é que opiniões sensatas como essas, que aliás é comum nos seus textos, poderiam chegar às massas e abrir os olhos dos cidadãos que, invariavelmente, viram massa de manobras nas mãos de pessoas inescrupulosas, que estão nem aí para os interesses coletivos?
É preocupante, num ano de eleições como este, boa parte do povo estar de olhos e mentes fechados para as verdades relacionadas a assuntos como essse e tantos outros como a greve dos professores em SP, as derrapadas das CPIs que não decolam, o tão famigerado PACII (???), O PNDH (nossa!), etc.