Agora, em novembro, o Brasil foi visitado por cinco chefes de Estado: Rússia, China, Canadá, Vietnã e Coréia. Eles poderiam ter ido para um dos outros 189 países do mundo, para a Europa, América do Norte, mas não. Vieram para cá. Alguma coisa está acontecendo, pois não foram nossas praias, nem nosso carnaval, o motivo da viagem. Uma pista: todos mandatários trouxeram empresários. O presidente da China, Hu Jintao, veio com quatrocentos.
É isso mesmo, negócios, negócios, a razão única da visita ao Brasil. Eles estão de olho em nossos recursos minerais, energia, aviões, mas também e sobretudo, nas carnes, algodão, couros, grãos, álcool, e numa infinidade de produtos rurais, entre eles, os lácteos. Esse é o grande potencial do país, os agronegócios, setor em que raríssimos países podem competir com o nosso. A velha profecia de celeiro do mundo que pairava sobre o Brasil, está se confirmando. Ou melhor, se confirmou.
Qual é a vantagem da agropecuária brasileira em relação a outros países? Primeiro: o Brasil está situado na região tropical, que lhe dá o privilégio de num só ano tirar três safras (verão, safrinha e inverno). Segundo: o Brasil detém hoje a tecnologia mais avançada da agropecuária tropical do mundo, graças ao trabalho de seus pesquisadores nos últimos 30 anos. Terceiro: o Brasil formou uma classe de empreendedores rurais hoje capazes de dar show de produtividade até mesmo para a agricultura do Primeiro Mundo.
Detentor dessas três condições estratégicas, que os pessimistas não vislumbravam, não tinha como o Brasil não se tornar potência agrícola, "que metade do mundo tem medo e outra metade inveja" como disse Joelmir Beting no evento Brasil - Celeiro do Mundo no Século 21, promovido pela Leite Brasil na Expomilk deste ano. Foi o ponto alto do evento e todas as 700 pessoas presentes certamente devem ter chegado à idêntica conclusão pela clareza das idéias e pelo otimismo realista dos entrevistados e debatedores. Chegou a vez do Brasil.
Sozinhos, os agricultores fizeram sua parte e agora cabe a outros empresários completar a obra. É incrível a deficiência do Brasil fora da porteira; por exemplo, estradas, portos e armazéns. Para resolver esses e outros graves problemas, só via iniciativa privada, já que do Governo nada se pode esperar. São áreas a exigir investimentos urgentes, caso o país não queira assistir um apagão no campo, o que seria vexame mundial. As safras agrícolas não param de aumentar e a infraestrutura não pára de piorar.
O curioso é que quem está também preocupado com esse caos é o presidente da China, que enfeixa 25% da população planetária. O país assiste o maior êxodo rural da história mundial e daqui a pouco não conseguirá produzir alimentos para seu povo. A China tem um território um pouco maior do que o Brasil, mas boa parte é deserta e composta de geleiras, inviáveis para a produção agrícola.
Diante dessa dramática situação, não resta outra alternativa para a imensa nação asiática a não ser formar parcerias sólidas com potências agrícolas e o Brasil é o primeiro da lista, como revelaram membros da recente comitiva chinesa. Estão falando em investimentos da ordem de US$ 30 bilhões nos próximos anos, não propriamente no campo, mas na infraestrutura do Brasil que, se efetivados, facilitarão o escoamento das colheitas.
Em resumo, na agricultura brasileira está a salvação do dragão chinês. "Será juntar a maior panela do mundo, com a maior fonte de alimentos do mundo", sintetizou Joelmir Beting. Mas essa chance será desperdiçada, caso a Constituição do Brasil continue sendo desrespeitada pelos invasores de terras. Para produzir, em primeiro lugar os produtores precisam estar seguros de seu direito de propriedade.
Material escrito por:
Jorge Rubez
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