Apesar do dólar baixo, a balança comercial do setor lácteo é superavitária no acumulado do ano de 2006

Apesar do mês de novembro ter sido o mês em que a balança comercial do setor registrou o maior déficit do ano de 2006 (quase US$ 7 milhões), no acumulado, o resultado ainda é positivo em cerca de US$ milhões.

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Apesar do mês de novembro ter sido o mês em que a balança comercial do setor registrou o maior déficit do ano de 2006 (quase US$ 7 milhões), no acumulado, o resultado ainda é positivo em cerca de US$ 16 milhões (tabela 1). Vale ressaltar que, para o cálculo dos valores apresentados na tabela 1, considerou-se a inclusão de dois itens componentes das pautas de exportação e importação e que, em geral, não eram computados. Os dois itens são: Leite Modificado para Alimentação de Crianças (NCM 19011010) 2 e Doce de Leite (NCM 19019020).

Para que se tenha uma idéia do que representa a inclusão desses itens, em novembro, apenas 'leite modificado para alimentação de crianças' foi responsável por US$ 2,08 milhões (cerca de 20% do total exportado), ao passo que 'doce de leite' contribuiu com US$ 17 mil. Note-se que, dessa forma, o critério de inclusão do 'leite modificado' altera de maneira substancial o resultado da balança comercial.

Tabela 1. Evolução da balança comercial do setor lácteo*.

Figura 1

Na tabela 2, o item 'Outros Tipos' engloba os dois produtos descritos acima que, juntos, no ano de 2006, representaram 17,5% do total exportado. Note-se que este é o segundo mais importante da pauta de exportação, perdendo em importância em termos da sua participação apenas para 'Leite Concentrado (pó)'. Além disso, a inclusão desse item ('Outros Tipos'), como foi dito acima, faz com que o resultado do ano seja positivo.

Se comparadas com igual período de 2005 pode-se verificar que as exportações tiveram um crescimento de 23% e as importações de 27%. O saldo dos onze primeiros meses dos anos de 2005 e 2006 é bastante semelhante. Conclui-se que, apesar do dólar baixo, a balança comercial do setor lácteo é superavitária no acumulado do ano de 2006.

Tabela 2. Produtos da pauta de exportação do setor lácteo no ano de 2006 (janeiro a novembro).

Figura 2

Quanto aos principais importadores de produtos lácteos brasileiros (gráfico 1), a Venezuela aparece com principal importadora em 2006, sendo responsável pela compra de 22% dos produtos exportados pelo Brasil. Destaca-se ainda a participação de Angola (10%), África do Sul e Cuba com 9% e 8% respectivamente.

Somando as exportações para Venezuela e Cuba tem-se que 30% das vendas externas de produtos lácteos são para países com certo grau de instabilidade política e econômica. Assim, existe o risco de que uma eventual descontinuidade nas relações comerciais possa trazer transtornos para o setor exportador e para o planejamento da produção.

Gráfico 1. Principais importadores de produtos lácteos brasileiros no ano de 2006 (janeiro a novembro).

Figura 3

O saldo positivo na balança comercial é uma boa notícia, sobretudo num ambiente de valorização do real frente ao dólar. Na verdade, esse resultado sugere que o desempenho da balança comercial é função de muitas outras variáveis. Dentre elas, por exemplo, a elevação dos preços de exportação de lácteos. Todavia, é inegável que houve uma mudança de comportamento do setor. Da baixa qualidade e produtividade dos anos 1980, conseqüência dos tempos de tabelamento de preços e inflação elevada, para ganhos de competitividade ocorridos nos anos seguintes.

Quanto à perspectiva futura da evolução do comércio internacional, preocupa a paralisação das negociações da rodada de Doha. Iniciada em 2001, a rodada de negociações tinha como objetivo a expansão de acordos multilaterais de comércio reduzindo os desequilíbrios entre a liberalização dos mercados industriais e o protecionismo agrícola. Com o colapso das negociações, o diretor-geral da Organização Mundial do Comércio (OMC), Pascal Lamy, recomendou que a rodada fosse suspensa e as negociações foram paralisadas por tempo indeterminado. A retomada das negociações e a efetiva redução dos incentivos dados aos produtores domésticos nos países desenvolvidos têm potencial para aumentar a participação brasileira no comércio internacional em diversos setores inclusive o lácteo.

Do ponto de vista macroeconômico, em especial sobre a política cambial brasileira, a expectativa é que não haverá mudança significativa de rumo. Partindo da premissa de que o brasileiro encara inflação baixa como um ativo e a robustez do regime de metas de inflação, associado à flutuação da taxa de câmbio, como instrumental mais adequado para que se tenha estabilidade de preços, não é de se esperar que haja quedas acentuadas da taxa de juros.

Em conseqüência, como a taxa de juros brasileira deverá continuar sendo mais alta que a taxa americana, é razoável supor que continue sendo atrativo para o capital estrangeiro aplicar em títulos da dívida pública brasileira. E aí, mais uma vez, excesso de dólares entrando na economia brasileira poderá pressionar a taxa de câmbio mantendo-a valorizada.

Vale lembrar que os superávits na balança comercial também pressionam a cotação da moeda americana para baixo via excesso de dólares na economia. Em suma: não seria prudente contar com uma desvalorização cambial como fator de ganho de competitividade externa.

2NCM: nomenclatura comum do Mercosul.
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Material escrito por:

Lucio R. L. Sá Fortes

Lucio R. L. Sá Fortes

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