É difícil compreender como que alguns produtores afirmam que o leite sempre deu prejuízo, e mesmo assim continuam na atividade, quando a lógica indicaria a procura de outras atividades para a obtenção de bons resultados econômicos. Esta contradição fica ainda mais difícil de ser explicada quando se constata que o eminente colapso do setor sempre foi anunciado, mas nunca ocorreu. Pelo contrário, o que houve foi sempre um crescimento muito significativo nas últimas décadas.
O que se encontra no campo são muitos contrastes, diferenças imensuráveis. Como admitir que um país como o Brasil, com toda sua extensão de terra agriculturável, ainda não produz o suficiente para abastecer as necessidades da sua população?
No caso do setor leiteiro, os contrastes são facilmente detectáveis, pois ao lado de avanços significativos em algumas propriedades e na indústria de laticínios pode-se encontrar sistemas meramente extrativos e fabricação caseira de produtos para venda a consumidores de todas as classes sociais e econômicas, revelando a falta de informação generalizada de pessoas que consomem estes produtos como "saudáveis", não fazendo idéia da "bomba" de doenças transmissíveis ao homem que pode carregar um litro de leite não inspecionado.
Gravuras encontradas nas tumbas de faraós egípcios mostram a ordenha sendo realizada manualmente com o terneiro amarrado ao pé da vaca e com certeza não havia resfriamento, a qualidade do leite não era boa e as vacas passavam fome exatamente como hoje, em pleno século 21. Será que a atividade ainda funciona como na época do antigo Egito ou pouca coisa na atividade mudou de lá pra cá?
Será que nos acostumamos e nos acomodamos a encarar o leite como simplesmente "mais uma fonte de renda"?, "o dinheiro que paga o rancho no fim do mês"?, "o dinheiro que paga o salário de todos os outros funcionários de todos os setores da propriedade"?, "a atividade secundária?".
Não é difícil ouvir frases como: "Tirar leite é coisa de pequeno agricultor!", "este ano vou vender o grão e não vou fazer silagem por que não vale a pena", "é uma atividade que dá muito trabalho", "a soja dá muito mais dinheiro", "o preço não paga os custos"...
Por outro lado, quantos produtores você conhece que encaram o leite como um agronegócio? Quantos fazem planejamento forrageiro? Quantos fazem o controle de desperdícios? Quantos controlam os custos? Quantos têm dimensionado onde querem chegar na produção? Quantos criam corretamente a terneira e a novilha? Quantos têm um plano sanitário de vacinas e vermífugos para seus animais? Quantos ao menos têm controle da produção individual dos seus animais e alimentam de acordo com a produção? Será isto um privilégio só de grandes produtores? Ou será que é o mínimo que temos que fazer para chegar à conclusão de que a atividade é um bom ou mau negócio?
Hoje, no meio rural, os tempos são outros e as oportunidades já não são as mesmas de tempos passados. Em qualquer atividade, seja ela a soja, o milho, o trigo e inclusive o leite, não há mais espaço para amadores e aventureiros. A economia tornou-se globalizada, o mercado exigente, as oportunidades raras e os custos elevados. Fatal e infelizmente quem não tiver visão empresarial da sua propriedade terá sua atividade inviabilizada financeiramente, como já vem acontecendo não só no Brasil, mas em todo o mundo.
Os nossos governantes não têm idéia do que significa o leite para o país, consideram o setor uma atividade agrícola que não merece uma atenção especial.
Hoje o setor leiteiro emprega 3,6 milhões de pessoas apenas no segmento da produção, obtendo um faturamento superior a 17 bilhões e arrecadando mais de 2 bilhões em ICMS- Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Serviços.
Há dois anos atrás tive a oportunidade de trabalhar durante alguns meses nos Estados Unidos no estado da Califórnia, um dos melhores lugares do mundo em produção e produtividade de leite.
Um velho veterinário, que acompanhou a toda evolução do leite do seu país e que conhece o Brasil, me disse que o governo teve papel fundamental no crescimento do consumo e produção. Na ocasião ele contou que um estudo nos anos 40 revelou, para os políticos americanos, que a distribuição de leite nas escolas promovia o aumento de ganho de peso, atividade mental, progresso escolar, resistência a enfermidades e as crianças que recebiam o alimento nobre terminavam a 8ª série dois anos mais cedo. Considerando-se o custo de cada estudante nas escolas públicas, a economia era considerável e os benefícios sociais imensuráveis. Após o estudo chegou-se a conclusão de que o leite para os alunos era tão necessário, quanto os livros, incluindo-se o alimento em merendas escolares e incentivando o consumo e a produção.
Recentemente, em um congresso em Foz do Iguaçu, foi redigida por entidades representativas do setor leiteiro, uma carta ao Senhor Presidente Luiz Inácio Lula da Silva com medidas a serem tomadas pelo próximo governo para o desenvolvimento do setor leiteiro. A carta levantou assuntos como a inclusão do leite e derivados na política alimentar para o Brasil(Projeto Fome Zero), combate às fraudes para garantir a qualidade e a segurança dos alimentos e a elevação do imposto de importação do leite em pó, queijos e soro para 35%.
Não há mais dúvida do valor social e nutritivo deste alimento. O governo finalmente nos acena com uma possibilidade concreta de que se fará alguma coisa de concreto para estimular o consumo e a produção de leite no Brasil. O potencial natural que temos para produzir, principalmente na região sul, com clima sub-tropical, solo, precipitação pluviométrica adequada sempre foi nosso maior valor e só precisa ser mais bem explorado.
Precisamos estabelecer metas, controlar custos, procurar entender o que fazem os que se sobressaem na atividade e encarar o leite com visão empreendedora e empresarial para que produtores, governo, e todos os setores envolvidos não caiam nunca mais no erro de achar que o leite não é lucrativo sem nunca realmente ter dado uma chance de verdade e que merece a atividade.
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1Daniel d`Ávila é Médico Veterinário (Elege Alimentos-Cruz Alta-RS)
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OUTRO - MINAS GERAIS - PROFISSIONAIS DE CIÊNCIAS AGRÁRIAS
EM 12/08/2003
Encontrar profissionais voltados para a administração deste Agronegócio é o ponto chave do sucesso. O grande potencial de nossas bacias leiteiras fica engessado em sistemas de produção ultrapassados, como que estivessem no tempo dos velhos retiros artesanais. Se existem problemas na pecuária, não é o governo que tem que resolvê-los, mas sim nós profissionais e produtores que acreditamos em um Brasil competitivo. Devemos valorizar nossa força de trabalho especializando nossa mão-de-obra, superando com tecnologias os obstáculos que sempre existem. Assim vamos conseguir estruturar nossa cadeia produtiva, agregando valores nos produtos e sub-produtos de nosso leite.

CARAZINHO - RIO GRANDE DO SUL - PRODUÇÃO DE LEITE
EM 11/08/2003
Enquanto não se valorizar mais o produto interno, e seus produtores, enquanto programas de pagamento "por qualidade tiverem gordura, proteína, contagem de células somáticas, e contagem bacteriana representando 20% do preço final e o volume 35% do mesmo preço final, não vejo como profissionalizar o setor.
Para finalizar, penso que o tema é bastante amplo e a discussão envolvendo apenas um segmento da cadeia produtiva é de pouco beneficio. Da mesma forma que alguns, ou muitos produtores não atuam de maneira profissional, em outros segmentos da cadeia do leite tambem existem estes problemas.

OUTRO - MINAS GERAIS - ESTUDANTE
EM 08/08/2003

OUTRO - RIO GRANDE DO SUL - PROFISSIONAIS DE CIÊNCIAS AGRÁRIAS
EM 30/07/2003
Roberto de Souza
Téc. Em Agropecuária
Elegê Alimentos Ijuí
GOIÂNIA - GOIÁS - PROFISSIONAIS DE CIÊNCIAS AGRÁRIAS
EM 29/07/2003
Gostei muito dos seus comentários.
O último parágrafo resume bem o grande gargalo do processo produtivo do leite no Brasil, falta organização e melhor gestão dos recursos produtivos.
Antônio Carlos de Souza Lima Júnior