A vontade louca do leite de crescer

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O Brasil ainda não tem um modelo de pecuária leiteira! Essa afirmação, em forma de crítica, é muito comum no setor. Não enxergamos a coisa por esse prisma. O fato de não ter um, mas inúmeros modelos de produção, é o que faz o grande diferencial da pecuária leiteira do Brasil em relação a outros países. Modelo único nem sempre dá certo. É sempre bom ter um coringa no bolso do colete.

Vejamos o caso dos EUA, França, Japão, Nova Zelândia, e outros países do hemisfério norte, que passam metade do ano soterrados na neve. Os produtores dessas nações, devido às suas limitadas condições naturais, não têm nenhuma liberdade de escolha, a não ser seguir cegamente o único modelo existente. Se fosse um bom modelo, muitos produtores dessas regiões não estariam vindo para cá.

Talvez a única coisa que os produtores do Primeiro Mundo podem escolher é a raça leiteira, assim mesmo de forma muito limitada, considerando que o zebu para eles é uma raça à qual eles não têm nenhuma chance de acesso devido à incompatibilidade climática. O que salva a pele desses produtores são os generosos subsídios que recebem. Sem esses subsídios, eles não teriam a mínima chance de competir de igual para igual com o Brasil, cujo volume total de leite ordenhado cresce ano a ano e cujo custo de produção é o mais baixo do mundo.

Nossa pecuária leiteira não é uma obra completa, mas está consolidada, tanto que tem quase a mesma idade do país. O marco zero é o ano de 1532, quando o português Martim Afonso de Souza desembarcou no litoral paulista e fundou São Vicente, primeira cidade brasileira. No outro dia logo começou a tirar leite das vacas que trouxe, de raças existentes em Portugal, como a Alentejana, Barrrosa, Mertolenga, ancestrais das raças crioulas nacionais.

Em seguida, no século 18, teve a chegada ao país da primeira gramínea africana, o capim angola, das raças européias leiteiras, das escolas de agronomia e centros de pesquisas, das braquiárias. Tudo isso aliado às estupendas virtudes do Brasil, clima favorável, abundância de água e terra, fez com que a atividade tivesse hoje um cardápio variado de modelos, todos com virtudes e defeitos, mas plenamente exeqüíveis como em nenhum outro país do mundo.

Podemos produzir leite no sistema confinado, a pasto, ou misto. Podemos criar raças puras européias e zebuínas, ou cruzadas, somando umas vinte opções. Podemos formar pastagens com gramíneas e leguminosas, aqui existentes em cerca de 120 variedades. Podemos fazer silagem de milho ou de napier. Temos cana de açúcar, polpa peletizada de citros, a palma nordestina. Enfim, as variáveis são imensas.

Qual o melhor modelo de produção? É aquele que está dando mais certo! No sul, pequenas propriedades com mão de obra estritamente familiar. No sudeste, fazendas maiores, mão de obra contratada e maior escala de produção. No centro-oeste, vacas a campo. No nordeste, gado e alimentação rústica. No norte, úmido e calorento, os bubalinos são invencíveis. Essa multiplicidade de modelos, tão díspares uns dos outros, é a verdadeira vocação da pecuária brasileira. É a sua marca registrada. Seu maior patrimônio.

Todavia, o setor tem problemas e eles estão fora da porteira. Os problemas acentuaram-se a partir de 1990, quanto houve o fim do tabelamento do preço do leite, que pelo menos garantia margens melhores para os produtores, a desorganizada abertura da economia brasileira, a perda do controle do mercado pelas cooperativas em favor das multinacionais, a explosão da cotação do dólar, até então em paridade com o real e, mais recentemente, o domínio do mercado varejista pelas grandes redes de supermercados.

Voltando à questão do tabelamento, para que não se perca a verdade dos fatos, devemos lembrar que na época foi selado um acordo entre o governo e as entidades de classe para a criação de um fórum para discutir uma distribuição mais equânime das margens dos preços do leite entre todos os elos da cadeia. Até hoje continuamos cobrando a sua criação.

Também até hoje o produtor sofre duras conseqüências por essas desventuras vividas pelo Brasil. Muitos saíram da atividade, principalmente aqueles que adotaram sistemas de produção copiados de países desenvolvidos (com pesados subsídios), diga-se de passagem, insuflados por técnicos que achavam que esses sistemas eram os melhores de todos. Remunerados em real, mas tendo custos de produção em dólar, esses produtores liquidaram seus rebanhos e foram para outros negócios mais lucrativos, como o arrendamento de suas fazendas para as usinas de cana de açúcar ou para exploração da citricultura por si próprios.

Em função de todos esses fatos, tudo indica que a pecuária leiteira está partindo por um sistema de produção que lhe possibilite ter um controle mais rígido sobre os custos, o que não acontece quando eles são cotados em dólar. É um sistema bem mais rústico, menos produtivo, mais a campo, mas pelo menos mais compatível com as regras em vigor. O que manda hoje é um leite com custo o mais barato possível.

É qual sistema vai prevalecer daqui para frente? Não sabemos ler o futuro. Mas sabemos que essa metamorfose é mais uma prova cabal do dinamismo da pecuária leiteira do Brasil, atividade tipicamente camaleônica, pois tem o poder de mudar de cor assim que pressente o perigo. Esse sistema pode ser reconvertido para o sistema antigo, mais eficaz, mais gerador de emprego, tecnificado? Lógico que sim, desde que fatos novos incentivem a mudança.

Continuarmos firmes na nossa convicção de que o Brasil reúne todas as condições de ser a maior plataforma mundial exportadora de leite, seja qual sistema de produção for. Temos 2 mil horas/luz/ano, contra mil horas do hemisfério norte, 100 milhões de ha agriculturáveis e ainda virgens, 20% das reservas de água doce do mundo, o maior rebanho bovino do planeta. E mais uma: uma vontade louca de crescer.
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Fabrício Souza Campos
FABRÍCIO SOUZA CAMPOS

OUTRO - RIO GRANDE DO SUL - ESTUDANTE

EM 23/04/2003

Caro Sr. Rubez!

Sem dúvidas temos uma imensa vontade em desenvolver a pecuária leitera e um grande potencial para isto.

Oriundo de MG e especializando-me aqui no Sul, tenho acompanhado o desenvolvimento a atividade leiteira aqui da região de Pelotas. O Sr. tem razão quando diz que aqui a atividade baseia-se em pequenas propriedades comandadas pela própria família. E é neste modelo que tenho apostado e é este que pretendo levar para Minas. Não precisamos fazer de nossas vacas campeãs na produção de leite e sim produzir bem e com baixo custo. Mas falta sim, uma política mais efetiva de incentivo aos diversos modelos de exploração leiteira existentes no Brasil.

Saudações!
Fabrício.
MARIA LUCIA ANDRADE GARCIA
MARIA LUCIA ANDRADE GARCIA

BELO HORIZONTE - MINAS GERAIS - PRODUÇÃO DE LEITE

EM 12/04/2003

Muito saudável a atitude do articulista em louvar a diversidade de nossos sistemas de produção, alimentação e raças. Realmente um trunfo competitivo muito maior do que a uniformidade pretendida por muitos. Faltou entretanto ressaltar a diversidade de mercados ou seja, a regionalização do mercado de leite em função da maior ou menor proximidade dos grandes centros urbanos consumidores, da indústria de lácteos de maior valor agregado e do menor custo do transporte. A diferenciação dos mercados constituirá entre outros, um fator de diversificação dos preços do leite.
Qual a sua dúvida hoje?