A genética e o leite nosso de cada dia II

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O assunto genética e produção de leite sempre traz grande interesse, muitas vezes posições divergentes e antagônicas. Neste sentido, o debate e a troca de idéias engrandece a discussão e oferece aos interessados novas perspectivas e maneiras de visualizar os problemas e, eventualmente, encontrar o melhor caminho para se seguir. Recentemente o Dr. Fernando Madalena escreveu um artigo no MilkPoint avaliando o resultado das vendas de sêmen de gado de leite no país, referindo a artigo publicado por mim anteriormente. Respeitando a opinião do ilustre professor da UFMG, gostaria de reiterar minhas opiniões e esclarecer o leitor sobre alguns dos conceitos apresentados em seu artigo.

O melhoramento genético acontece pelo uso de animais reprodutores comprovadamente superiores, seja através de touros em monta natural, inseminação artificial, transferência de embriões, etc. Somente assim podemos garantir novas gerações com produção superior a geração anterior. Pois bem, o que vemos acontecer hoje, ou melhor, nos últimos anos, é a redução do uso destas técnicas em nosso rebanho de leite, especialmente da mais disseminada, a inseminação artificial, que neste ano de 2002 voltou ao patamar de uso que tínhamos em 1995. Esta avaliação não leva em conta as raças (européias ou zebuínas) ou a origem do sêmen (nacional ou importado), apenas elucida que nossos produtores retrocederam no uso desta importante ferramenta de melhoramento. Portanto, mesmo que determinadas raças tenham crescido em utilização, trazendo satisfação para seus criadores, ou que o segmento de sêmen nacional tenha evoluído, abrindo espaço para comemorações por parte de nacionalistas, o setor não tem por que comemorar, pois no conjunto estamos regredindo. E isso se traduz na produção total de leite no país, que nos anos recentes tem tido crescimento pífio, chegando a vergonhosa situação de 2002, quando não tivemos nenhum aumento de produção. Continuamos na incômoda situação de dependência de importação de lácteos para alimentar nossa população.

Na avaliação dos dados da ASBIA - Associação Brasileira de Inseminação Artificial - é importante conhecer algumas características do mercado para entender o significado de determinados movimentos. Inicialmente, temos de lembrar que o mercado de sêmen de gado de leite hoje é regido pela prova de progênie, sendo comprovada a eficácia desta ferramenta. Assim, as empresas de inseminação praticamente eliminaram a oferta de touros sem provas, já que o mercado para este tipo de produto foi extinto. Além disso, é importante esclarecer que a partir da metade da década passada algumas centrais passaram a importar touros provados para coleta no Brasil, aproveitando o menor custo de produção e, também, a maior facilidade de logística. Este produto passou a ser tratado pela ASBIA como sêmen nacional, apesar de serem os mesmos animais que anteriormente eram classificados como sêmen importado. Em termos de raças adaptadas, no caso as raças zebuínas, houve uma evolução sem precedentes no país, especialmente na raça Gir Leiteiro. A partir da consolidação do teste de progênie executado pela Embrapa, ABCGIL - Associação Brasileira de Gir Leiteiro - e Centrais de Inseminação, foi oportunizado aos produtores de leite o acesso a material genético comprovadamente superior. Apesar do ainda limitado número de reprodutores provados disponíveis, este teste de progênie é a grande base para o crescimento do uso de raças adaptadas, que vem gradualmente substituindo genética européia em ambientes tropicais no centro do país. Sendo assim, a avaliação e entusiasmo pela performance do sêmen "nacional" deve levar em conta o elevado uso de touros importados em produção no Brasil, que naturalmente substituiu parte das importações. Já no caso das raças zebuínas, este crescimento é real, tendo o teste de progênie Embrapa/ABCGIL/Centrais de IA como grande impulsionador deste resultado.

Apesar de termos todas as condições de produzir leite de qualidade em quantidade suficiente para suprir nossa demanda interna e, eventualmente, acessar mercados externos, não conseguimos evoluir neste sentido. Pecamos pela falta de ordenação da cadeia produtiva e de uma politica governamental clara para o setor, que estimule o uso de nossos recursos naturais e a tecnologia disponível. Não precisamos de subsídios, o que reiteramos é a necessidade de uma politica de governo que estimule nossos produtores a investir na melhoria da produtividade e qualidade de seus produtos, que ofereça extensão, educação, infra-estrutura e acesso ao uso de tecnologia (inclusive testes de progênie nacionais). Além disso, que exerça seu papel de fiscalização e regulação das diversas forças que atuam nesta cadeia, evitando a transferência exagerada de renda entre os elos participantes.

Ao contrário do que relata o Dr. Fernando Madalena, não somos favoráveis ao subsídio, mas sim ao estabelecimento de regras simples que possibilitem aos nossos produtores a execução de planos de investimento de médio e longo prazos, pois o que se vê hoje no campo é a completa incerteza. Nos causa surpresa a sua afirmação de que a cadeia do leite é hoje vitoriosa. Ou vivemos em países diferentes ou o ilustre acadêmico não tem acompanhado a descapitalização, perda de renda e abandono de fazendas de leite nos mais diversos pontos deste país. Como podemos chamar de vitoriosa uma cadeia que não consegue atender a demanda interna de leite, obrigando-nos a continuar importando grandes quantidades de lácteos, mesmo com todo o nosso potencial de recursos naturais e humanos?

Apesar da necessidade de adequação de modelos de produção com genética adaptada para regiões tropicais do país, o que vem acontecendo naturalmente, e isso pode ser comprovado pelo crescimento das vendas destas raças, não podemos ficar a margem da evolução genética que acontece no mundo, restritos por uma visão ideológica, nacionalista e xenófoba. Existindo material genético importado que ofereça ganhos de produtividade e qualidade, o que já acontece em diversos ambientes e modelos de produção eficientes no país, seria uma imensa perda de tempo e de oportunidade restringir o acesso deste material a nossos produtores.

Como já falamos em artigo anterior, neste momento de novo Governo, onde tanto se fala em combate à fome e inclusão social, seria muito oportuno um melhor planejamento e uma melhor ordenação da cadeia do leite, pois não estamos produzindo hoje as vacas de amanhã, que teriam de garantir o leite nosso de cada dia.
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Material escrito por:

Donario Lopes de Almeida

Donario Lopes de Almeida

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ERICO LUIS SILVEIRA TEIXEIRA
ERICO LUIS SILVEIRA TEIXEIRA

OUTRO - SÃO PAULO - PRODUÇÃO DE GADO DE CORTE

EM 20/05/2003

Dr. Donario, quero lhe comprimentar pelo excelente artigo publicado, com uma visão imparcial e elucidante da realidade da pecuária de leite nacional.
Érico
Fernando Enrique Madalena
FERNANDO ENRIQUE MADALENA

BELO HORIZONTE - MINAS GERAIS - PESQUISA/ENSINO

EM 05/05/2003

Por mais que se queira desconsiderar o fato, as vendas de sêmen de Gir Leiteiro, Jersey nacional e Girolando cresceram entre 20 e 35 % ao ano em quanto que as de Holandês importado e Pardo Suíço despencaram (Vaca subsidiada x vaca econômica, MilkPoint 17/04/2003). Portanto, não foi a inseminação a que regrediu, e sim, o uso de sêmen importado. Não há nada de nacionalismo, ideologia ou xenofobia nisto. Simplesmente o mercado rejeitou esse produto. Jogar a culpa nos governos pela falta de competitividade do produto oferecido não vai ajudar nas vendas. Fazer terrorismo verbal comigo também não. Ao invés disso, que tal apresentar uma demonstração experimental de que a genética oferecida é "comprovadamente superior", não para dar leite subsidiado no Hemisfério Norte, mas para dar lucro ao produtor daqui, que se vacilar nas despesas entra no vermelho? Produzir muito leite com muito trato e remédio não é a mesma coisa que dar lucro. Dr. Donário, estou respondendo seu artigo pelo respeito que me merece sua trajetória, mas da minha parte esta polêmica fica aqui encerrada, porque os argumentos já foram suficientemente expostos e porque não estou disposto a sofrer nenhum tipo de agressão pessoal em discussões técnicas.
Qual a sua dúvida hoje?