Os dados estatísticos relatados pela ASBIA - Associação Brasileira de Inseminação Artificial - sobre as vendas de sêmen de gado de leite no ano de 2002 são preocupantes. Houve uma redução de quase 7% em relação ao ano anterior, evidenciando a regressão da utilização desta ferramenta de melhoramento genético para um patamar semelhante ao que tínhamos na metade da década passada.
Nos últimos anos a produção de leite no Brasil tem apresentado pequeno crescimento e, infelizmente, continuamos na incômoda posição de importadores de lácteos. Apesar de termos todas as condições de produzir leite de qualidade em quantidade suficiente para suprir nossa demanda interna e, eventualmente, acessar mercados externos, não conseguimos evoluir neste sentido. Pecamos pela falta de ordenação da cadeia produtiva e de uma política governamental clara para o setor, que estimule o uso de nossos recursos naturais e a tecnologia disponível. Neste ambiente de incerteza e dificultade de planejamento, os produtores de leite vivem entre o entusiasmo e o desestímulo a continuidade de seus empreendimentos e investimentos na pecuária leiteira.
O rebanho brasileiro de gado de leite teve grande evolução nas últimas duas décadas do século passado, quando os investimentos em melhoramento genético foram crescentes e contínuos. Além do aumento da utilização da inseminação artificial, tivemos muitas importações de animais e embriões, o que possibilitou a disseminação de animais com grande potencial genético e a melhoria dos índices de produtividade do rebanho. Esta genética superior, aliada ao uso de novas tecnologias nas áreas nutricional e sanitária, garantiu o aumento da produção de leite no país, que praticamente dobrou entre os anos de 1980 e 2000.
O resultado apresentado pela ASBIA vem fortalecer o argumento de que nossos produtores vem enfrentando sérias dificuldades, estando reticentes a um maior comprometimento e ao uso de tecnologias. Movidos pela necessidade de sobrevivência e pagamento da fatura de curto prazo, postergam qualquer dispêndio com resultado que não seja imediato. No caso da genética isso é emblemático, afinal de contas, o resultado do investimento feito agora terá impacto somente em dois ou três anos, quando a nova geração de vacas entra no estágio de produção e o aumento de produtividade passa então a oferecer retorno. O problema é que o inverso também é verdadeiro. O leite a ser produzido no futuro terá origem no rebanho formado hoje, portanto, o investimento mal conduzido ou inexistente pode colocar em risco a continuidade do negócio.
A partir de meados da década passada, em função das incertezas e redução da rentabilidade do negócio leiteiro, o melhoramento de nosso rebanho deixou de ser priorizado. As importações de animais e embriões foram diminuindo e a inseminação artificial praticamente se manteve estagnada no período. Talvez não seja por acaso que a produção de leite tenha crescido tão pouco ultimamente, chegando a vergonhosa situação neste ano de 2002, quando produzimos um volume total menor que em 2001. O pior é que as perspectivas para o futuro não são muito favoráveis, pois mesmo que tenhamos grandes avanços nas condições sanitária e nutricional de nosso rebanho, o reduzido melhoramento genético dos últimos anos terá um impacto negativo significativo nos resultados de produção.
A falta de coordenação da cadeia do láctea representa uma grande perda de oportunidade para o setor, além de onerar nossa economia. O leite que deixamos de produzir no Brasil, que poderia atender a demanda interna e, ainda, proporcionar excedentes para exportação, acaba tendo de ser importado, originado de países com maior custo de produção. Neste momento de novo Governo, onde tanto se fala em combate a fome e inclusão social, seria muito oportuno um melhor planejamento, pois não estamos produzindo hoje as vacas de amanhã, que teriam de garantir o leite nosso de cada dia.
A genética e o leite nosso de cada dia
Publicado por: Donario Lopes de Almeida
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Donario Lopes de Almeida
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