A falta de seriedade na discussão da informalidade

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Flávio Quintão Mateus1

Tenho acompanhado com relativa preocupação a discussão que, no momento, aquece o cenário da intelectualidade na atividade leiteira nacional: o duelo de analistas de dados estatísticos sobre o destino do leite clandestino comercializado informalmente.

O que se vê é a formalização da discussão sobre a informalidade roubando a cena de assuntos que deveriam ter uma maior seriedade por parte de pessoas de renome na atividade, formadoras de opinião.

O editorial da Balde Branco nº 435 nos dá, de forma bastante clara, uma visão de como iniciar um processo de discussão sério sobre o que de fato deve ser tratado nas mais variadas vertentes desse rio obscuro da atividade leiteira nacional.

No referido editorial, levanta-se em discussão o quão complexa é a questão da eliminação da economia informal em nossa pátria amada, que convive com os extremos de uma minoria de nababos, privilegiados por políticas elaboradas para perpetuarem o status quo vigente, e a miséria aviltante que caminha a grande maioria da população, que não têm acesso a qualquer tipo de alternativa que lhes permitam a sobrevivência. Isso tudo sobre as vistas grossas de um poder público elevado a tal situação por esta população.

Segundo dados extra-oficiais, o número de produtores de leite varia entre 1,2 e 1,8 milhão (esta variação é fruto da inconsistência de dados oficiais sobre o setor), que multiplicado pelo número de pessoas envolvidas no processo produtivo, chega a ser superior ao contigente da população ligada à indústria automobilística.

Dando continuidade a exposição das análises feitas sobre a questão, se excluíssemos do processo aqueles que produzem abaixo de 100 litros de leite por dia, obter-se-ia um número reduzidíssimos de produtores e a produção pouco se alteraria. É uma visão simplista de um problema que traria graves conseqüências sociais para um país em que as desigualdades se acentuam cada vez com maior voracidade. E, como bem lembrou o colega Luis Fernando Laranja: - Este é o mesmo argumento que justifica a melhoria do padrão de vida da sociedade através da eliminação dos mais pobres. Uma mera questão estatística.

A referência que se faz a estes dados é relativa a grande importância que o leite tem na sobrevivência das famílias de pequenos produtores. Pois, o leite não é apenas um dos fatores de formação da renda familiar do camponês, e sim, é, na grande maioria dos casos, a única fonte de renda dessa fatia da população.

Discutir a informalidade na cadeia produtiva do leite da forma acadêmica como está sendo discutida é demonstrar que realmente nos falta seriedade.

Uma década se passou desde o fim da regulamentação e o que se viu foi um grande crescimento no setor. Completamente desordenado, traumático e mutilador, quando se pôde observar a transferência pelo pagamento da conta da ineficiência, do consumidor (inflação) para o produtor (achatamento de preços).

Será que somente os lá de fora conseguem enxergar o potencial do país no setor ?

É facil dizer ao produtor que ele tem que se tecnificar, gerenciar melhor seu negócio, reduzindo custo de produção, investindo em escala, melhoramento genético, produção a pasto, intervalo entre partos, idade ao primeiro parto, % de vacas em lactação, capacidade suporte de pastagem, redução da sazonalidade ...

É técnico, é bonito, dá status ao profissional. Mas e daí ? ! O que se faz de concreto ?

Ele abre a porteira e não sabe para onde ir. O paizão que tinha, o abandonou na virada para a maioridade. Ficou esperando no portão da escola vendo os outros serem conduzidos pelos respectivos responsáveis. E ele, lá. Passando a ser um maior abandonado.

O leite importado continua entrando pelo país afora, através dos picaretas sem fábrica e das grandes empresas que regulam o preço do produto nacional. Subsidiado na origem.
A Argentina e o Uruguai estão fazendo do processo de dumping uma questão de segurança nacional. E nós, como ficamos ?

Continuamos a escutar, emplastados, que não sabemos produzir ? Que somos extrativistas, safristas ... ?

E o brio ? E a tal da vontade política ?

Chega. Não quero ser piegas.

O que pecisamos é de clareza, rumos definidos, política consistente e includente, crédito sem exigências absurdas dos bancos, fiscalização, fortalecimento do setor e participação de todos. E, p'ra isso temos que ter informação qualificada chegando ao produtor de forma ininterrupta, mão de obra treinada, técnicos extensionistas preparados para difusão da tecnologia que sobeja de nossas instituições de pesquisa e ensino.

Precisamos sair do terreno da discussão interminável de fatos incontestes e cair na realidade.

A doença já foi diagnosticada pelos doutos que militam nessa apaixonante área da produção primária nacional.

O remédio é conhecido por todos. Precisa-se pois, tratar a enfermidade e não utilizar-se de placebo, como vem acontecendo até o momento.
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1Médico Veterinário, atua nas áreas de assessoria técnica a produtores de leite e no processo de granelização de cooperativas e laticínios nas regiões do noroeste fluminense, zona da mata de Minas e sul do Espírito Santo.
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Luiz Alberto Lopes Feijó
LUIZ ALBERTO LOPES FEIJÓ

OUTRO - RIO DE JANEIRO - PROFISSIONAIS DE CIÊNCIAS AGRÁRIAS

EM 30/01/2002

Quero parabenizar o Dr. Flávio pela clareza, objetividade e envolvimento na atividade leiteira. Concordo com sua opinião, e gostaria de sugerir que iniciássemos uma campanha junto a cooperativas, laticínios e outros que comercializam o leite, para que se fizesse extensão rural, levando as técnicas comprovadas das pesquisas dos órgãos públicos, e não o "achacismo" de alguns colegas que têm somente interesse econômico.

Depende muito mais de nós que estamos no campo diariamente levar estas informações aos produtores, do que dos burocratas que estão somente no ar condicionado. Aos mais antigos, sugiro que relembrem do PLAMAM.

Márcio Luiz Chaves
MÁRCIO LUIZ CHAVES

OUTRO - MINAS GERAIS - ESTUDANTE

EM 30/01/2002

Enquanto se discute o problema social dos pequenos produtores, o que fazer se eles saírem da atividade, muitos que conduzem a atividade de forma profissional e muitas vezes como meio de vida é que realmente deixam a atividade. Penso que a atitutde de muitos em relação à exclusão dos chamados "pequenos" é no mínimo utópica, para não dizer hipócrita. Queria que alguém apontasse um "pequeno produtor" que tenha saído da atividade. Por que "queimar neurônios" discutindo se aprodução informal é 10, 20, 30 ou 100%, se os "pequenos produtores" vão ficar ou sair da atividade, se existem 1,2 ou 1,8 milhões de produtores?

Qual a sua dúvida hoje?