O Brasil é um dos maiores produtores de leite do mundo, ocupando o sexto lugar na escala mundial em 1998 (Quadro 1). Sua produção é praticamente o dobro da produção da Nova Zelândia e mais do que o dobro da produção da Argentina, que são países considerados referências na produção mundial.
Na década de 90, a produção brasileira de leite cresceu cerca de 40%, passando de 14,5 bilhões de litros para 20,4 bilhões de litros. Este crescimento acentuado fez com que o Brasil passasse a responder, segundo a FAO (1999), por aproximadamente 4,3% da produção mundial em 1998, ao invés de representar apenas 3,1% deste total, conforme verificado em 1990.
Visto a importância do país no contexto mundial, torna-se fundamental compreender as transformações que vêm acontecendo nos últimos anos no país que afetam toda a cadeia de lácteos. A liberalização do preço do leite, em 1991, juntamente com a abertura da economia ao mercado internacional, com destaque à criação do Mercosul e à estabilização da economia brasileira, foram as principais causas dessas transformações.
Essas três causas trouxeram como principal conseqüência o aumento da concorrência em todos os elos da cadeia láctea, o que conduz, naturalmente, a redução de margens de lucro, pela queda do preço do leite e a exigências de melhor qualidade do leite, crescendo a importância do resfriador na fazenda e, consequentemente, da coleta de leite a granel.
Quadro 1 . Maiores produtores de leite do Mundo em 1998

Ainda assim, é significativo o crescimento da produção de leite durante as últimas décadas, embora o preço recebido pelo produtor tenha mostrado declínio. Ganhos de produtividade também constituem a principal característica da agricultura brasileira nas duas últimas décadas, em especial na pecuária de leite, embora ainda estejam muito aquém com relação aos outros países.
É importante ressaltar que os ganhos de produção e de produtividade não foram igualmente distribuídos para todos os estados e regiões. Existem regiões e produtores isolados que não acompanharam o ritmo de crescimento de outros. Esses sistemas que não aumentaram a produtividade (como alternativa para compensar a queda do preço do leite) tiveram forte redução de sua lucratividade.
Com relação à evolução da produção nacional, pode-se analisar o período em duas fases. De 80 a 90, obtêm-se 2,74% de crescimento ao ano e, de 1990 a 1999, segundo GOMES (1999), a produção cresceu, a uma taxa expressiva de 4% ao ano, resultado este que coloca a atividade leiteira como uma das que mais cresceram em toda agro-pecuária brasileira, ficando em terceiro lugar, perdendo apenas para a avicultura de corte e para a soja. De 1990 a 94, a produção cresceu, em média, 2,17% ao ano e, de 1994 (após o plano real) a 99, o crescimento foi de 5,46% ao ano, acima, portanto, da maior taxa observada até então. As causas desse comportamento estão associadas aos determinantes das transformações recentes da produção de leite, citadas anteriormente.
É importante observar que, mesmo nos anos 90, existem diferenças significativas nas taxas de crescimento entre o período anterior e posterior ao Plano Real. No período anterior ao Plano, de 1990-93, a taxa média anual de crescimento foi de apenas 2,5% e, no período posterior, 1994-98, esta foi de 6,21%.
O que se destacou nesse período pós Plano Real é o fato de, os preços nominais do leite, recebido pelo produtor, terem crescido muito pouco, e, consequentemente, os preços corrigidos terem caído significativamente. Segundo GOMES (1998), do início do Plano real a janeiro de 98 o preço do leite caiu 47%, em valores corrigidos. Comparando-se o preço médio de 94, que foi de R$0,41/litro, com o de 97, R$0,27/litro, a queda foi de 34%, sendo que esta análise refere-se ao leite-cota.
Na explicação do comportamento do preço do leite, dois fatores merecem destaque: as elevadas importações, que são muitas vezes subsidiadas por seu país de origem, além de serem realizadas pelos chamados "sem-fábricas", não possuindo nenhuma obrigação para com a estabilidade do mercado doméstico; e ao grande crescimento do leite Longa vida, já que o principal ponto de venda deste ser o supermercado, que, com sua estrutura oligopolizada, possui muita influência no preço do leite.
O Quadro 2 ilustra a Evolução da Produção Brasileira de leite assim como o número de vacas ordenhadas e a produtividade, de 1980 a 1999. Registra-se aumento da produção a taxas crescentes nestas duas últimas décadas para compensar a queda do preço recebido pelo produtor. Com relação à produtividade do rebanho (litros/vaca), observa-se um crescimento de 3,1% ao ano, de 1985 a 1999. De 1994 a 97, a produção de leite no Brasil, aumentou, em média, 1,3 bilhão de litros/ano. Nesse mesmo período, a produção da Argentina aumentou, em média, 0,42 bilhão/ano, o que significa, em valores absolutos, que o aumento brasileiro foi três vezes maior que o argentino.
Quanto ao volume produzido, a maior concentração da produção no país encontra-se na Região Sudeste (Quadro 3). Em 1994, o total produzido pelo país foi de aproximadamente 15,8 bilhões de litros de leite, sendo que a Região Sudeste contribuiu com aproximadamente 47% deste total produzido, quase a metade da produção nacional. Para o ano de 1999, esta participação se reduziu em 3%, se redistribuindo esta queda para as outras regiões do país.
Considerando-se a disponibilidade de recursos naturais do país, assim como sua posição em relação a produção mundial, conforme já mostrado anteriormente, espera-se um desempenho ainda melhor da pecuária leiteira do país. Entretanto, a velocidade das transformações que a Globalização vêm exigindo desta atividade vem aumentando cada vez mais, de onde se conclui que o desempenho tenderá a ser ainda melhor nos próximos anos.
Quadro 2 . Produção total de leite, vacas ordenhadas e produtividade no Brasil, no Período de 1980 a 1999

Quadro 3. Produção e Produtividade de Leite nas Regiões Brasileiras (1994/1999)

Para o ano de 1994, o total produzido pela região Sudeste foi de aproximadamente 7,3 bilhões de litros de leite, sendo que Minas Gerais é o maior estado produtor, contribuindo com 4,58 bilhões deste (Quadro 4). Em termos percentuais, este valor representa cerca de 62,26% do total produzido da região. No ano de 1999, a participação do Estado na produção da região elevou-se, em termos percentuais, na ordem de 2%, o que pode ser explicado pelo acréscimo na produção e na produtividade neste período de 1994-99. Mesmo assim, observa-se que a produtividade do rebanho leiteiro de Minas Gerais ainda é muito baixa. Entretanto, é de importância evidente a participação do estado no contexto nacional.
Quadro 4. Produção e Produtividade de Leite na Região Sudeste (1994/1999)

Minas é historicamente, o estado que mais produz leite no país, seguido por São Paulo, Rio Grande do Sul, Goiás e Paraná. O Estado conta com aproximadamente, 230 mil produtores, e desses, cerca de 41% possuem rebanho misto, 41% gado de leite e 15% dedicam-se à pecuária de corte. De acordo com o IBGE (1998) o estado detém cerca de 20,5 milhões de cabeças, correspondendo a cerca de 12,6% do total de rebanho do país.
Conforme pode ser observado no Gráfico 1, estes são os Estados que são destaques a nível nacional, respondendo por mais de dois terços da produção nacional. Nota-se, no entanto, a perda de participação relativa de Minas Gerais e São Paulo, que tiveram crescimento de produção consolidado em 35,1% e 18,1%, contrastando-se com o crescimento destacado do estado do Paraná e Goiás, 74,9% e 81,6%, respectivamente, no período 1990-99. A principal explicação para o fato de a produção de leite caminhar para as regiões de cerrado é o fato do custo de produção ser menor que o das outras regiões, através da adoção de tecnologias que viabilizaram o aumento de sua produtividade, dentre outras razões.
Gráfico 1 . Os Cinco Estados da Federação com maior Produção de Leite no Brasil - 1990-1999 (Em Milhões De Litros)

Segundo o Censo Agropecuário de 95-96, as atividades bovinas no estado de Minas Gerais se desenvolveram em estabelecimentos de todos os tamanhos, mas com acentuada concentração nos médios e grandes. No entanto, nos grupos de estabelecimentos com área entre 10 e 100 hectares, concentrando cerca de 95% de animais do Estado, predominaram as unidades produtoras de leite. Ao se classificarem os produtores em pequenos (até 50 litros/dia), médios (51 a 200 litros/dia) e grandes (mais de 200 litros/dia), verifica-se que, em 1999, os pequenos correspondem a 40,4% do número de filiados da Itambé e produziam 5,7% do total de leite, segundo dados do Quadro 5. Os considerados grandes produtores (22,52% do total dos filiados) produziam 71,63% do total de leite. Essa distribuição assimétrica é uma característica marcante da produção de leite no Brasil, onde muitos pequenos produtores participam pouco da produção total do país, e poucos grandes participam muito dessa produção.
Em razão desta heterogeneidade dos sistemas de produção, quando estudos de desempenho, tanto do Brasil, quanto de Minas Gerais - considerada uma "proxy" do que acontece no país na pecuária leiteira - se considera a média global de toda a população, esta é puxada para baixo, pois fica influenciada pelos pequenos produtores, já que são a maioria.
Quadro 5 . Distribuição Percentual do Número de Produtores e da Produção de leite da Cooperativa Central dos Produtores Rurais de Minas Gerais - Itambé, em 1999

Dessa forma, no Estado de Minas Gerais, a pecuária é uma atividade muito importante. Considerada como bacia leiteira tradicional, com relevância em termos da produção nacional, a região está inserida geograficamente entre as três principais regiões metropolitanas brasileiras. Localizada no eixo que compreende os principais centros consumidores do país - Belo Horizonte, São Paulo e Rio de janeiro, a região apresenta facilidade de escoar a sua produção, ao mesmo tempo em que tem acesso facilitado às indústrias de insumos e às unidades de beneficiamento de leite. Este complexo agro-industrial leiteiro tem forte impacto na economia da região e qualquer ação direcionada a promover o aumento da produtividade terá efeitos encadeadores na geração de renda e emprego regionais.
Apesar da importância desta atividade para a economia e sociedade da região, esta ainda apresenta um baixo nível tecnológico na produção e não especialização de seu rebanho, com manejo tradicional, o que traduz em custo de produção elevado e baixa produtividade.
Outra forte característica regional é o fato de pequeno número de produtores receberem assistência técnica regular, além da descapitalização generalizada das propriedades, ocorrida no período em que o preço do leite sofria controle sistemático por parte do governo federal. Acrescente-se a isso o fato dos produtores serem pouco organizados, o que colaborou para esse desinteresse em investir na atividade.
Conforme retratado, a região tem um sério problema a resolver: possibilitar à pequena produção mecanismos institucionais que levem à profissionalização, num momento em que a competitividade se acirra. Se assim não acontecer, haverá uma falência generalizada de produtores, que poderá resultar em uma desarticulação da indústria laticinista já instalada no estado, formada por pequenas e médias empresas.
De acordo com WILKINSON (1993), a falta de modernização da pecuária leiteira ainda é um empecilho à competitividade das indústrias de laticínios em Minas Gerais e no Brasil. É preciso fortalecer o elo mais frágil da cadeia agro-industrial do leite, que é o produtor. Portanto, melhorias na relação entre produtor e indústria e na qualidade e eficiência da produção de leite em Minas Gerais, em nível do produtor, seriam extremamente benéficas para o desenvolvimento da competitividade dessa cadeia agro-industrial como um todo e para a competitividade mineira, nos cenários nacional e internacional.
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1Economista formada pela Universidade Federal de Juiz de Fora, Mestre em Economia Rural pela Universidade Federal de Viçosa e Doutoranda em Economia pela Universidade do Porto - Portugal. E-mail: mrmeconomista@ig.com.br
