A comunidade de valor agregado e a operação logística: Uma oportunidade de desenvolvimento e competição no agronegócio do leite

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Por Ronald Colman Pamphile1

"Que fatores estão contribuindo para mudanças no mercado global"?

O aumento das distorções sociais em meio aos altos ganhos de produtividade, a escassez de recursos vista não só na ausência de rendas monetárias e recursos naturais, mas também no acesso ao crédito, à informação, às técnicas e conceitos avançados de melhoria do trabalho e da produção, os elevados índices de competitividade, os novos mecanismos de regulação de mercado, a competição internacional que se trava nos países, refletindo em seus estados e suas cidades, tudo isso conforma uma tendência de assimilação do valor de um equilíbrio econômico, social e ambiental nas relações humanas, e sua necessidade de encontrar um lugar para cada ser, um lugar social, um lugar econômico e um lugar ambiental, todos eles formando um só lugar, o lugar sustentável.

Um dos ramos de encontro desse lugar sustentável encontra-se na esquina da agricultura. Como todos os ramos da economia, a agricultura tem encontrado na larga produção de escala um modo eficaz de aliar produção para todos à rentabilidade da atividade. Mas produção em escala tem significado concentração econômica sem distribuição de riqueza. Resultado de um paradigma econômico de indústrias multinacionais, as grandes empresas, o grande capital e as grandes estruturas de comércio têm avançado no campo da agricultura, fazendo com que se apresentem resultados fantásticos inimagináveis de produção e comercialização, dando um outro contorno à agricultura, que se desfaz de certas vestimentas para usar um modelo significativo dos tempos modernos: o agronegócio.

No entanto, adversamente ao esperado fruto desse paradigma econômico, diversos atores têm desempenhado um papel marginal nessa história: o dos excluídos. E a exclusão tem um papel muitas vezes despercebido, o do desespero. Desespero porque, numa ponta, a da produção, não se tem competitividade para acompanhar o mercado, não se tem escala para ser eficiente, não se tem nem sequer bons meios e canais de distribuição e muito menos de comercialização para que se possa, simplesmente, vender. Na outra ponta, a do consumo, eis que se assiste a um outro espetáculo do desespero, o do acesso ao alimento. De um lado porque não se tem renda, ponto em que o novo governo se debruça na forma do "Programa Fome Zero". Muitas vezes, também, não é somente a renda que influi, mas o próprio custo do produto, espelhando-se a falta de eficiência do produtor e um custo que até então não tem sido muito apreciado: o logístico.

Composta pelos canais de comercialização e distribuição, a cadeia logística é a ponte entre o produto - produção e o cidadão - consumo, derivando dela a disponibilização final do produto, o valor ao consumidor e a remuneração do produtor. Assim, o produto que chega ao cidadão, com um preço, qualidade e quantidade, depende da cadeia de comercialização e distribuição.

Dessa forma, pode haver um grande estoque de produtos, mas com pouca acessibilidade ao consumidor, provocando uma baixa agregação de renda na produção, alto custo no consumo e alto retorno na logística, esta na mão de intermediários, contribuindo indiretamente para o processo de exclusão alimentar.

Nesse contexto, pode-se afirmar que a Cooperativa é pressionada, de um lado, pela indústria de processamento do leite, que exerce seu poder de compra, jogando cooperativas umas contra as outras através da estratégia de barganha, muitas vezes adquirindo-as para depois fechá-las. O cooperado permanece num mercado de fornecimento - spot - com baixa remuneração. De outro lado, a Cooperativa é pressionada pela comercialização de insumos, cujas indústrias ou grandes distribuidores se favorecem pela pequena escala de compra para praticarem preços e condições extremamente restritivas. Por fim, a concorrência, com um produto mais atraente, constante e de menor preço, ocupa as prateleiras dos mercados, avançando sobre diversas praças. O consumidor, com acesso à qualidade e preço, mantém sua preferência por produtos de maior valor agregado.

Pode-se dizer, efetivamente, que as Cooperativas são pressionadas nos quatro sentidos (Fig. 1), sendo que a atuação isolada das mesmas, tanto na operação de compra de insumos, quanto de venda às indústrias e mesmo de concorrência pelo consumidor final, aprofunda a perda de espaço e competitividade, resultando um distanciamento cada vez maior do consumidor final e reforçando cada vez mais um papel enfraquecido de meros fornecedores.

Nesse contexto, com dados e informações conceituais, desenvolveu-se uma linha de raciocínio que buscasse à condução de uma alternativa de competição para as Cooperativas. Essa alternativa foi modelada sob o conceito de Comunidade de Valor Agregado -CVA, significando uma aliança estratégica, uma agroaliança.

A CVA, dessa forma, nasce num momento de delicados desafios para o setor, como a competição regional por escala de mercado, por produtos de valor agregado, enfim, por um consumidor mais exigente de qualidade e menores preços.


Nesse ambiente de enfrentamento, o domínio da ciência logística significa a agregação de valor inicial para o reposicionamento das Cooperativas, sendo fator primordial para a concretização da CVA, desde a integração de normas técnicas que buscam um melhor nível de exigência sanitária no transporte, reduzindo a exposição e manipulação do produto, até à redução do esforço de trabalho do cooperado, através da localização ótima de alguns fatores produtivos, a logística tem o papel, na realidade, de ligar o produtor ao consumidor.

A disponibilização final do produto requer uma estrutura integrada de informações, controle de estoques, rede de distribuição, gestão de suprimentos, tudo isso para que o produto certo esteja no local certo, no tempo exato, na quantidade e qualidade desejadas, e ainda tendo de competir com outros produtos. Tal esforço (logístico) pressupõe uma escala de atuação cujos custos são decrescentes quando se tem maior quantidade de produtos por cada esforço logístico, pressupondo uma centralização. Por outro lado, uma das principais fronteiras a ser incorporada através da logística é a racionalização do canal de comercialização, desde compra e venda de insumos, controle sanitário, nutrição e implementos agrícolas para formação de pastagens, até à venda dos próprios produtos, proporcionando valorização dos mesmos e diversificação de mercados.

A CVA, portanto, tem sua missão principal aproximar a produção cooperativada de leite ao consumidor, reduzindo custos logísticos, agregando valor ao negócio e gerando melhor remuneração ao cooperado. Seu objetivo principal é formar economia de escala com vistas a garantir o desenvolvimento e competição das Cooperativas, através da centralização da comercialização e distribuição.

E a operação logística é a estratégia que proporcionará a redefinição dos custos, permitindo às Cooperativas a possibilidade de estarem presentes efetivamente nas prateleiras dos supermercados, das vendas e mercearias, com um produto mais competitivo: atraente, constante, com bom preço e de qualidade.

Assim, a CVA contribuirá para que a competitividade, busca incessante nas grandes empresas, não seja mais vista distantemente apenas como um símbolo de empresa forte, mas uma realidade tão natural como o acordar às cinco da manhã para ordenhar o gado.

A isso que se destina o seminário "Tendências e Perspectivas para as Cooperativas de Leite do Estado do Rio de Janeiro", patrocinado pela OCERJ-SESCOOP/RJ e a ser realizado no dia 13 de fevereiro: apresentar a CVA, debater e definir um programa de sua implantação, tendo o compromisso de reconhecer a cultura do negócio Cooperativo, esse exercido em todo seu potencial na própria CVA.

E é por isso que se pode concluir que a CVA não é um novo modelo de organização, mas a potencialização de uma organização, ajustada aos novos tempos competitivos e de desenvolvimento sustentável, onde o principal ativo não é a Cooperativa isolada, mas a rede de Cooperativas, uma Comunidade de Valor Agregado.

Para mais informações sobre o Seminário:

Telefone 021 2232-0133
Ronald Pamphile de Castro
Consultor da OCERJ
_______________________________________________________
1Consultor da OCERJ
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