Setor reage a campanha que difama o leite

Um símbolo que marcou época volta à cena, agora em versão crítica ao leite de vaca. A peça publicitária gerou questionamentos, o setor reagiu, especialistas se posicionaram, e o tema reacende uma velha disputa entre narrativas e fatos.

Publicado em: - 4 minutos de leitura

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Uma campanha de uma foodtech chilena resgata a nostalgia dos "bichinhos da Parmalat" dos anos 90, promovendo bebidas vegetais, mas gera polêmica ao disseminar desinformação sobre o leite, associando-o a inchaço e inflamação. Especialistas afirmam que não há evidências de que laticínios causem esses problemas em pessoas saudáveis. A Lactalis acionou o Conar para contestar a campanha, que foi considerada enganosa. O episódio destaca a importância de informações precisas na publicidade e no debate sobre alimentos.

Uma campanha vem ganhando força nas redes sociais ao resgatar a nostalgia dos icônicos “bichinhos da Parmalat”, sucesso absoluto nos anos 90. A ação, criada por uma foodtech chilena, aposta no humor e em elementos afetivos para promover sua linha de bebidas vegetais, mas tropeça feio ao espalhar desinformação sobre o leite.

Na nova campanha, adultos aparecem fantasiados de animais, numa referência direta à famosa peça da Parmalat, mas agora tristes e apresentando desconforto após consumir leite de vaca. O problema é que a mensagem induz o público a associar o consumo de lácteos a inchaço e inflamação, sintomas que não afetam a maioria das pessoas saudáveis.

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Para Bruno Girão, CEO da Alvoar Lácteos, a estratégia mostra como o leite incomoda justamente por ser difícil de substituir. Em seu LinkedIn, ele comentou:  “O leite é um alimento que incomoda porque é bom demais para ser copiado. Muito se fala sobre ele: às vezes com ironia, às vezes com desinformação. Porém, por trás das caricaturas, permanece um fato inegável: o leite continua sendo um dos alimentos mais completos, naturais e acessíveis da nossa alimentação.”

Do ponto de vista científico, para indivíduos saudáveis, não há evidências robustas de que o consumo de laticínios cause inflamação. Situações como inchaço e desconforto podem ocorrer apenas em casos específicos, como em pessoas diagnosticadas com Alergia à Proteína do Leite de Vaca (APLV) ou intolerância à lactose.

A APLV é uma reação imunológica às proteínas do leite, podendo causar desde erupções cutâneas até anafilaxia. Já a intolerância à lactose ocorre quando o corpo não produz lactase suficiente para digerir a lactose, resultando em sintomas gastrointestinais. Neste caso, é possível consumir produtos sem lactose ou fazer uso da enzima.

As afirmações da campanha contrariam diretrizes de órgãos como o Ministério da Saúde e a Organização Mundial da Saúde, que incluem os laticínios como parte de uma dieta equilibrada.

A polêmica fez a Lactalis, licenciada da marca Parmalat no Brasil, acionar o Conar (Conselho Nacional de Autorregulamentação Publicitária), alegando violação de direitos autorais, depreciação do leite UHT e divulgação de informações enganosas. Segundo a Exame e Valor Econômico, o Conar considerou que estavam presentes as condições para uma medida de urgência, prevista em seu Regulamento Interno, e emitiu uma liminar para a retirada da campanha do ar.

Até o fechamento desta matéria, o vídeo seguia disponível no YouTube, com mais de 150 mil visualizações, mas os comentários foram desativados na plataforma. Nas redes sociais da marca, enquanto alguns elogiaram o tom irreverente, muitos usuários criticaram a falta de responsabilidade da empresa.

Dentro do setor, o desconforto foi compartilhado por outros profissionais em seus perfis no LinkedIn. Sérgio Pflanzer, Professor Pós-Doutor na Faculdade de Engenharia de Alimentos da Unicamp, lamentou: “Muito triste ver uma empresa ‘agredir’ um alimento (e o setor) por inteiro.” Para ele, atacar não é necessário quando se tem um produto de qualidade: “Se seu produto é mesmo tão bom, não precisa atacar o outro. Faça por merecer. Mas não parece ser o caso aqui. O produto é um ‘composto’ de 15 ingredientes, que tem 4 vezes menos proteína e pode custar até 3 vezes mais.”

Já Ânderson Simaroli, engenheiro químico e especialista em Ciência e Tecnologia dos Alimentos, também  defendeu mais responsabilidade no debate em seu perfil: “Como profissional da indústria de alimentos, admiro o avanço das bebidas vegetais. São soluções tecnológicas interessantes, que evoluíram muito em sabor, textura e aplicação. Mas, com todo respeito, não considero correto tratar o leite como um alimento prejudicial, especialmente em uma campanha publicitária.” Ele ainda lembrou que essas bebidas também têm limitações: “É um produto tecnicamente elaborado, mas que também pode causar reações em alérgicos e envolve ingredientes que já foram alvo de controvérsias.”

Marcelo de Pereira Carvalho, CEO da MilkPoint Ventures, analisou o contexto de mercado em que a polêmica acontece: “Essa campanha vem em um momento em que o leite de vaca subiu o consumo nos EUA, depois de várias décadas de queda, ao passo que o plant-based caiu. É um duelo de narrativas, mas o leite vem mostrando que tem como vencer, tanto pela composição nutricional, como pelas respostas a respeito de sustentabilidade e bem-estar, que estão sendo dadas cada vez mais, como pelo apelo ao natural.” Para ele, a peça ainda peca pelo tom: “Me soa um tanto apelativa e até pouco criativa, já que foi buscar a referência de uma campanha do passado.”

O episódio reacende o debate sobre a responsabilidade da publicidade e a importância de informação de qualidade para que o consumidor faça suas escolhas de forma consciente. Ao mesmo tempo, evidencia a necessidade de as próprias empresas de lácteos investirem mais em comunicação clara, didática e embasada, mostrando os benefícios nutricionais do leite e seus derivados, para combater mitos e reforçar a confiança do público.

Promover a diversidade de opções é legítimo, e isso é uma conquista para o consumidor, que pode escolher o que faz mais sentido para sua saúde, gosto e estilo de vida. Porém, o respeito à verdade e ao trabalho de milhares de produtores, cooperativas e profissionais que vivem do leite também deve fazer parte desse diálogo. Informação de qualidade e concorrência justa beneficiam todos, inclusive quem prefere alternativas ao leite.

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Material escrito por:

Maria Luíza Terra

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Regis Nunes Ferreira Leite
REGIS NUNES FERREIRA LEITE

LAGOINHA - SÃO PAULO - PRODUÇÃO DE LEITE

EM 09/07/2025

Bom dia . A reportagem é ótima ,defende um bem precioso que é o leite , a reportagem na mídia difama um alimento nobre ,secular,milenar ,com personagens esterotipados copiados,jocosos ,sem graça e portadores de patologias que poderiam estar muito bem tomando leite de vacas pois temos leite de vaca sem lactose ,sem proteina A2A2 e até formula elementar de aminoacidos usados em crianças alergicas . Mas agora para me acalmar ,vou fazer como minha avó recomendaria ,um leitinho quentinho das minhas vaquinhas Abraço
FERNANDO SUSTER
FERNANDO SUSTER

CERQUILHO - SÃO PAULO

EM 09/07/2025

Sou nutricionista e na minha prática diária me deparo com pacientes que são desinformados pela maioria dos médicos e a mídia sobre o leite. Faço o trabalho reverso e esclareço a importância do leite na alimentação humana. Sabemos que existe uma campanha ideológica por de trás da difamação do leite e do agro, de maneira geral. O que costumo dizer é que, enquanto os ideólogos falam, existem muitas pessoas que estão lá plantando, colhendo, ordenhando e cuidando para que as pessoas possam ter acesso aos alimentos e se alimentar.
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