"Saimos do encontro muito otimistas quanto ao atendimento às nossas solicitações, porque o nosso secretário Odelmo Leão Carneiro reconhece a importância do Girolando, além de se posicionar favoravelmente à possibilidade de inclusão da raça no Propec", disse Marcos Amaral. "O próprio secretário manifestou-se contrário à utilização de touros de corte para cruzamentos de vacas leiteiras", acrescentou Celso Menezes.
O secretário Odelmo Leão Carneiro, nos próximos dias, deverá encaminhar um documento à Associação Brasileira dos Criadores de Girolando, para formalizar o posicionamento do governo estadual sobre o assunto.
Alguns programas de governo, como o Propec de Minas Gerais, têm recomendado o cruzamento touros de corte x vacas leiteiras. Na reunião com o secretário de Agricultura, os diretores da Girolando entregaram um ofício (veja abaixo). O superintendente técnico da Girolando, zootecnista Celso Menezes, afirmou que a entidade está muito preocupada e que já está sentindo o impacto da utilização de touros de corte em cima de matrizes leiteiras, de forma generalizada. Quanto ao resultado, ele advertiu: "Teremos dificuldade muito grande na reposição de matrizes geneticamente melhoradas para produção de leite. Isso poderá acarretar um atraso no processo de desenvolvimento da pecuária leiteira nacional". Outra advertência dele deve-se ao fato de Minas Gerais ser o Estado que ocupa o primeiro lugar na produção leite. Portanto, esta posição estaria ameaçada.
Se for utilizar touro zebuíno como é a proposta do programa, o superintendente técnico da Girolando recomendou que seja restrito às raças Gir ou Guzerá, porque já há um trabalho de comprovação de melhoramento e também por produzirem machos com aptidão para produção de carne. Para os criadores de Girolando que mantêm e permanecerão com os seus animais no Programa de Melhoramento Genético, sem colocar touros de corte, serão os grandes beneficiados, acrescentou ele, uma vez que serão as fontes de fornecimento de matrizes para reposição e, conseqüentemente, terão rebanhos mais valorizados.
Uma aventura perigosa
No Brasil são ordenhadas atualmente 18 milhões de vacas para uma produção total anual de 21,3 bilhões de litros. Segundo dados da Embrapa, o rebanho leiteiro nacional é composto de 6% de vacas especializadas com produção média de 4.500 kg/lactação e 74% de vacas mestiças holandês x zebu, com produção média de 1.100 kg/lactação. O restante das vacas é composto de animais sem qualquer especialização genética e produzem em médio não mais que 600 kg de leite em cada lactação. Com a atual produção leiteira no Brasil, é fácil concluir que o rebanho especializado é responsável por 4,8 bilhões de litros e o segundo grupo, das vacas mestiças especializadas, responsável por 14,6 bilhões. As vacas sem especialização produzem o restante do leite.
Os melhoristas admitem uma perda média em produção de leite de 50% nas filhas de vacas especializadas, quando cruzadas com touros de corte. No rebanho mestiço essa perda chega a 25%. Nos rebanhos sem aptidão para leite, ao se cruzar os animais com touros de corte espera-se não fazer diferença na produção. Levando em conta estes dados, os pesquisadores calculam as perdas de produção, que chegam a ser assustadoras em função do tamanho do prejuízo que um acasalamento ou inseminação sem critérios pode causar para o setor leiteiro nacional.
Observe as simulações feitas pelos pesquisadores da Embrapa Gado de Leite, considerando três hipóteses:
- Todas as vacas dos rebanhos especializados e dos rebanhos mestiços acasaladas com touros de corte por uma geração;
- Metade das vacas especializadas e todas as do rebanho mestiço acasaladas com touros de corte;
- Metade de todas essas vacas acasaladas com touro de corte.
Na segunda e terceira hipóteses as perdas seriam, respectivamente, de 5 e 3 bilhões de litros em cinco anos, "um prejuízo médio de R$ 4 bilhões para os produtores e para o País, sem contar a perda do valor de mercado destes animais", segundo o chefe-geral da Embrapa Gado de Leite. Ctou ainda que "o maior problema de tudo é que a recuperação do potencial genético original da raça poderia levar mais de 20 anos, considerando uma taxa anual de reposição de 20%".
Duarte Vilela concluiu seu raciocínio com uma preocupação: "Será que esta aventura genética vale a pena?"
Fonte: Lúcio Castellano, assessoria de imprensa da Girolando
