Em boa parte dos estados do Nordeste, o consumo de leite em pó já é 50% superior ao leite in natura. Entre os principais motivos, estão a falta de políticas de incentivo, aliada à concorrência entre produtos importados e à preferência das indústrias em fabricar itens com maior valor agregado.
Dos 450 mil litros de leite diários produzidos em Alagoas, apenas 10 mil são consumidos ao natural. O restante é transformado em outros produtos, incluindo o leite em pó. O consumo do leite em pó predomina também em Pernambuco, Paraíba e Rio Grande do Norte.
Para reverter a situação, produtores de leite dos quatro estados reivindicam subsídios para a retomada das atividades, o que, segundo eles, aumentaria a produção do leite in natura, gerando mais emprego e renda para a região. Uma das alternativas, apontadas pelos produtores de Alagoas e de Paraíba, é incluir o produto nos programas de suplementação alimentar adotados, atualmente, pelos Governos do Rio Grande do Norte e de Pernambuco.
No Rio Grande do Norte, o Programa do Leite, instituído pelo Governo Estadual em 1995, foi o primeiro passo para a retomada da atividade no Estado. A produção passou de 60 mil litros/dia naquele ano para 550 mil litros diários em 2000. O rebanho, que atualmente é 80% leiteiro ou misto, passou de menos de 500 mil para 1 milhão de cabeças. O número de usinas subiu de 3 para 24 no período, e o de produtores saltou de 256 para 8.383, elevando os empregos gerados no setor de 2 mil para 7,2 mil.
Do total produzido, 130 mil litros diários são destinados ao Programa do Leite. Outros 50 mil litros são exportados para o estado da Paraíba e calcula-se que outros 100 mil litros diários sejam produzidos e distribuídos de maneira informal. O restante vai para as indústrias e chegam ao mercado pasteurizado ou em forma de derivados. A Comercial de Laticínios de Natal Ltda (Clan), por exemplo, recebe dos produtores 1 milhão de litros de leite por mês, dos quais 400 mil litros são transformados em derivados.
Em Alagoas, dos 450 mil litros de leite in natura produzidos por dia, apenas 10 mil litros/dia são destinados às 16 micro e pequenas indústrias de beneficiamento do leite tipo C no estado. O restante é repassado para as grandes indústrias de Alagoas - que consomem menos da metade do leite produzido -, e para as indústrias de Pernambuco e da Bahia, onde é transformado em leite em pó, Longa Vida, iogurtes, coalhadas e bebidas lácteas, entre outros produtos.
Segundo o assessor financeiro da Cooperativa Agropecuária de Major Isidoro, José Vieira de Almeida, como o hábito de consumo de leite tipo C pertence às classes menos favorecidas, as distribuidoras enfrentam problemas para abastecer os postos de revenda (padarias e pequenas mercearias) destinados a esse público, o que dificulta a comercialização do produto. "Por conta disso, as indústrias estão preferindo fabricar o leite Longa Vida, que tem um prazo de validade maior, mas que ainda não substituiu totalmente o leite in natura à mesa dos consumidores do interior do estado, fazendo-os adotar o leite em pó", diz Almeida.
Os pequenos produtores de leite in natura, por sua vez, também encontram dificuldades para fazer chegar o produto às indústrias de beneficiamento por não deter tecnologia de armazenamento.
Na Paraíba, segundo Fred Machado, diretor-superintendente da Indústria de Laticínios Campina Grande S/A, o consumo de leite em pó é superior ao de leite pasteurizado e in natura devido à falta de política de incentivos ao aumento da produção de leite. Como a produção é pequena, principalmente durante a seca, a população não encontra leite in naturacom facilidade e recorre ao produto em pó. "Até os programas de suplementação alimentar do Governo e das prefeituras dão prioridade à compra de leite em pó", afirma o empresário. Na merenda escolar da maioria dos 223 municípios paraibanos, os alunos são alimentados com leite em pó.
Os produtores de leite in natura de Pernambuco reclamam que a preferência pelo leite em pó tem gerado uma crise para o segmento no Estado. O setor está perdendo a concorrência para os fabricantes de leite em pó e para as multinacionais que comercializam o leite in natura. A produção de leite fresco de Pernambuco é de 800 mil litros/dia e poderia passar de um milhão se houvesse incentivos. A luz no fim do túnel para o setor tem sido o Programa do Leite de Pernambuco, do Governo do Estado, que compra dos produtores locais 30 mil litros/dia de leite para a população carente, mais 12 mil litros/dia para a merenda escolar.
Concorência
O diretor-presidente da Embaré Indústria Alimentícia S.A, Haroldo Antunes, diz que há uma "enxurrada" de fabricantes de leite em pó entrando no mercado nacional através de importadores. A maioria, segundo ele, corre exatamente para o Nordeste, onde se sabe que o consumo é maior que no restante do Brasil. "O problema é que muitos não cumprem as devidas especificações legais". Ele diz que tais fabricantes e importadores, em muitos casos, misturam o leite com soro e açúcar e chamam de "produto modificado".
"O Nordeste consome 50% da produção nacional de leite em pó. Isso ocorre porque, historicamente, a Região não tem uma produção significativa de leite fresco como ocorre no Sul e Sudeste do País", justifica Antunes. A Embaré detém 8% deste mercado na Região. O consumo de leite em pó só da marca, no Nordeste, é 1,5 mil toneladas/mês.
(Por Cristina Limeira, Adelson Barbosa, Aloísio Pontes e Jomeri Pontes, para Gazeta Mercantil, 05/04/01)
Produtores do NE querem reverter situação de liderança do consumo de leite em pó
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