O produtor potiguar José Gelenildo da Silva, de 46 anos, atua na produção leiteira há 25 anos. No início, o rebanho era pequeno, com aproximadamente cinco vacas, e a ordenha acontecia de forma manual. Hoje a realidade é outra: o rebanho contempla 17 vacas, a ordenha é mecânica e a capacidade de produção foi ampliada por meio do melhoramento genético das vacas. O movimento reflete o trabalho do Sebrae para fortalecer a cadeia leiteira do Rio Grande do Norte, com atuação junto a cerca de 400 produtores da bovinocultura de leite e 50 queijeiras.
A produção de José Gelenildo é realizada na área rural de Tenente Laurentino Cruz, em uma propriedade de 12 hectares compartilhada com seu pai. O espaço ocupado pelo rebanho dele abrange 3 hectares de terra, com o curral e espaço para o pasto. Com orgulho e um sorriso que não esconde a alegria de trabalhar no campo, o produtor relata que sua “sobrevivência sempre foi através do leite”.
No entanto, o início do trabalho era desempenhado com os conhecimentos que tinha herdado da família, sem o processo de melhoramento genético do rebanho, o que gerava desafios. “Antigamente, quando a gente começou, não tínhamos o conhecimento de hoje, [como a importância do volumoso e outros derivados na alimentação dos animais], para produzir um leite bom”, comenta.
O cenário mudou quando José Gelenildo passou a receber orientações especializadas e a compreender a importância do conforto do rebanho para melhorar a qualidade do leite: “Melhoramos o ambiente para as vacas, inclusive, para não ter mastite bovina [inflamação da glândula mamária]. Graças a Deus, há dois anos não tenho mastite no meu curral. Esse problema aqui é zero, principalmente por conta da higiene e do conforto delas.”
Quando Gelenildo começou a produção leiteira, a capacidade girava em torno de 60 litros diários. Atualmente, esse volume subiu para 140 litros, que são direcionados para a Queijeira Galego da Serra, também localizada na zona rural de Tenente Laurentino Cruz. A queijeira absorve todo o leite produzido pelo trabalhador.
Além do leite comum, José Gelenildo fornece o leite A2, obtido por parte do seu rebanho de vacas A2A2, que na prática conseguem produzir um leite de melhor absorção pelo organismo e indicado para pessoas com dificuldade de absorver a beta caseína A1. Em média, a receita mensal alcançada por ele com a venda do leite gira em torno de R$ 18 mil, dos quais R$ 9 mil ficam para sua renda. “Eu trabalho para mim mesmo, estou em casa, consigo fazer a minha feira e não preciso garantir minha sobrevivência em outro canto, porque tem muitos aqui que não vivem de vaca e precisam sair para ganhar o sustento. Aqui eu estou em casa e quero estar melhorando cada vez mais”, finaliza o produtor.
Qualidade garantida para o consumidor final
Além de José Gelenildo, outros produtores de Tenente Laurentino Cruz têm a demanda garantida por meio do trabalho da Queijeira Galego da Serra, localizada no Sítio Umbuzeiro, zona rural do município. À frente do estabelecimento, Lucenildo Firmino, 48 anos, que leva o apelido que dá nome ao seu negócio, conta que começou a se “apaixonar pela arte do queijo” há mais de 10 anos.
Foto: Adriano Abreu
Filho de agricultores e natural de Jucurutu, ele foi morar em Tenente Laurentino Cruz em 2011 para auxiliar na administração da queijeira do seu irmão. Na época, já sabia produzir o queijo coalho, saber herdado da sua mãe, mas o queijo de manteiga não era uma realidade na produção. O cenário mudou em 2015, quando participou do Empretec, programa de empreendedores desenvolvido pelo Sebrae/RN.
“O Empretec me deu uma visão muito além de onde os meus olhos podiam enxergar, tanto que em seguida [em 2016] comprei a queijeira onde eu trabalhava e decidi produzir um produto de qualidade”. A qualidade, para ele, estava diretamente ligada ao resgate da produção tradicional do queijo manteiga: “O queijo tradicional estava muito ‘prostituído’, e você não o encontrava mais no mercado nos moldes de antigamente. Em 2017, fui o primeiro queijeiro a resgatar isso comercialmente. Não temos registros certos, mas estima-se que o queijo de manteiga começou na região do Seridó há 300 anos.”
Foto: Adriano Abreu
Galego da Serra relata que uma das suas grandes incentivadoras foi a consultora do Sebrae/RN, Adriana Lucena, que provou o primeiro queijo que ele fez sem aditivos, ou seja, contemplando apenas leite, manteiga, coalhada e sal. “Foi muito difícil no início, mas hoje estamos fazendo história e incentivando outras pessoas a produzirem o verdadeiro queijo de manteiga”, compartilha.
Desde 2017, Lucenildo Firmino coleciona dezenas de medalhas e reconhecimentos alcançados por meio dos produtos da Galego da Serra, incluindo uma participação no Mondial Du Fromage – Et Des Produits Laitiers (Mundial do Queijo e de Produtos Lácteos), na França, em 2019. Quatro anos depois, em 2023, ele conquistou sua primeira premiação no evento: a medalha de bronze com o queijo coalho. “Eu acredito que depois disso o setor queijeiro acordou e cresceu muito em visibilidade”, comenta.
Outro movimento possibilitado pela retomada do setor foi a habilitação e formalização de queijeiras por meio do Governo Cidadão. Um dos produtores contemplados foi Lucenildo. Ele afirma que a certificação junto ao Instituto de Defesa e Inspeção Agropecuária do RN (Idiarn) permite a comercialização em todo o estado.
A empresa Galego da Serra conta com três funcionários na área de produção, além de contratos com 24 produtores da região. A produção utiliza em média 2 mil litros de leite por dia, sendo necessários 12 litros para a produção de um quilo de queijo.
Parceria visa desenvolvimento da cadeia local
O encadeamento gerado pela produção do queijo artesanal está diretamente ligado ao trabalho desempenhado pelo Sebrae junto aos produtores e prefeituras no RN. O gerente da unidade do Sebrae em Currais Novos, Célio Vieira, explica que o processo acontece por meio de duas vertentes: a melhoria de produtividade por meio da inseminação artificial, no âmbito do projeto Leite e Genética, e a abertura de mercado e aperfeiçoamento dos produtos.
Apenas em Tenente Laurentino Cruz, a agência consegue alcançar todos os cerca de 80 produtores da bovinocultura de leite. “Atuamos em toda a cadeia. Junto ao produtor, temos esse acompanhamento através da assistência e consultoria técnica para melhorar a qualidade de alimentação dos animais e a higiene da ordenha”, explica o gerente. As ações são desenvolvidas em parceria com a Prefeitura de Tenente Laurentino Cruz.
Para o médico veterinário Jailson Santana, vinculado à Secretaria de Agropecuária do município, a mudança de mentalidade do produtor é pré-requisito para o processo de melhoramento genético, cuidados com o rebanho e consequente aumento da produção.
Atualmente, mais de 90% dos produtores da cidade contam com ordenha mecânica. “Em termos proporcionais, temos mais ordenha mecânica que todo o resto do estado, o que já contribui muito para a qualidade do leite. Na Secretaria da Agricultura, também fornecemos assistência técnica continuada”, completa.
O titular da secretaria, Ellyson Souza, aponta que a produção de queijos representa uma das principais atividades da economia local, com uma cadeia leiteira responsável por movimentar quase R$ 1 milhão por mês. “As queijeiras artesanais vieram pra dar um ‘boom’, principalmente ao resgatar essa cultura da identificação e do queijo de manteiga. Após esse resgate, o leite tem contribuído muito para a economia da cidade.” Nos últimos cinco anos foram feitas 1,7 mil inseminações. Outros programas, como o de armazenamento de forragem, também ajudaram a impulsionar a cadeia.
As informações são do Tribuna do Norte, adaptadas pela equipe MilkPoint.
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