Despretensiosamente, a virada de rumo aconteceu em 2017, durante as vésperas do Carnaval. Decidida a não pedir auxílio financeiro aos pais para aproveitar o feriado, a jovem acatou a sugestão do então namorado, Márcio, e produziu uma pequena remessa de queijos artesanais utilizando o leite da propriedade da família em Amparo, distrito de Barra do Piraí. Como a aceitação foi imediata, Márcio elaborou uma planilha mostrando que a produção nos fins de semana poderia financiar a permanência dela na capital. Em pouco tempo, acompanhada pelo irmão Thiago, ela percorria ruas e escolas de Volta Redonda entregando os produtos de porta em porta em um Fiat Uno, na época apelidado carinhosamente de "carro do queijo", em uma rotina informal e sem rótulos.
Embora a fazenda pertencesse ao pai de Thais, o local funcionava apenas como refúgio de lazer nos feriados, já que a antiga tradição queijeira de seus tios havia se perdido com o êxodo rural da família décadas atrás. Quando o trio decidiu transformar a iniciativa em um negócio estruturado, o principal obstáculo foi a preocupação da mãe, que temia o regresso da filha à dura realidade do campo do passado. Contudo, uma viagem de imersão realizada em 2018 para a Serra da Canastra mudou a visão de todos, encantando a família com as possibilidades da produção artesanal moderna e trazendo os pais e sogros para o projeto.
Com o avanço da iniciativa, a consolidação definitiva dessa mudança ocorreu em 2020, quando o estourar da pandemia da covid-19 fez com que os pais de Thais se mudassem de vez para a propriedade. A nova dinâmica permitiu o cumprimento de um antigo sonho do pai, que pôde deixar a advocacia urbana para se dedicar ao campo, assumindo pessoalmente a ordenha diária do rebanho. Para Thais, que chegou a trazer seu grupo teatral para uma imersão na fazenda antes de optar definitivamente pela agropecuária, a transição trouxe um profundo senso de realização pessoal, ao constatar que "a produção artesanal e a roça tomaram um lugar tanto no meu coração quanto nos meus objetivos", arrematando com convicção: "eu me encontrei aqui na roça".
Para além dos números e metas comerciais, a maior riqueza desse movimento reside na reconstrução dos laços afetivos cotidianos, quebrando o distanciamento geográfico que mantinha parentes espalhados por diferentes cidades. Vivendo na mesma comunidade rural, três gerações compartilham rotineiramente as refeições e o trabalho no campo, permitindo que os filhos de Thais cresçam ao lado dos avós e dos primos, exatamente como ela foi criada. Ao refletir sobre essa vivência, a produtora destaca que "aqui a gente pode ter o dia de Natal todo dia, porque a nossa família está junta todo dia", sintetizando que a maior conquista de todo o empreendimento é, essencialmente, "poder ter a família junta".
Essa base afetiva sustenta uma estrutura operacional cada vez mais profissionalizada, dividida entre a administração da fazenda e a Tróço Bom. Após buscar capacitação técnica em Zootecnia e Agronegócio pelo SENAR, Thais implementou técnicas de melhoramento genético com transferência de embriões e testes de qualidade do leite, saltando do volume inicial de 200 litros para os atuais 1.000 litros diários de leite. Com 20 hectares de milho cultivados para garantir a alimentação do rebanho no inverno, a empresa projeta quase dobrar sua capacidade produtiva, construindo um novo barracão industrial e expandindo suas vendas para além do mercado fluminense, onde já atende a rede Zona Sul, padarias artesanais e restaurantes renomados.
Ancorada na transparência e no respeito ao consumidor, a essência da marca permanece em um processo totalmente verticalizado, no qual a família controla desde o cultivo do alimento das vacas até a entrega final do derivado. Sem utilizar qualquer tipo de aditivo químico, corante ou conservante em suas receitas, a produtora reforça que "a nossa filosofia de trabalho aqui é: ingrediente que você lê no rótulo e sabe o que tem ali". Esse compromisso com a pureza e com a qualidade artesanal rendeu à marca o Selo Arte para queijos, doces de leite e iogurtes, além de um desempenho memorável no Mundial do Queijo, no qual conquistou 10 medalhas com 12 produtos inscritos, consagrando-se como o laticínio mais premiado da competição e provando que a união familiar pode gerar frutos de excelência internacional.
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