A crise que afeta a Parmalat Finanziaria já começa a atingir as operações de sua controlada Parmalat no Brasil. A empresa está adiando o pagamento de fornecedores com a justificativa de "proteger" suas operações no país.
No dia 12, a Parmalat enviou uma carta aos fornecedores informando que atrasará os pagamentos "temporariamente". Na carta a empresa chama de "novo obstáculo" os problemas enfrentados pela matriz e afirma que "devemos nos preparar para eventuais impactos decorrentes dele".
A carta diz ainda que "é fundamental que tomemos medidas para manter e proteger nossas operações aqui no Brasil. Entre elas, contamos com a cooperação e colaboração de nossos fornecedores no sentido de postergarmos temporariamente os pagamentos de nossas obrigações". Segundo o documento, não há "alternativa possível no momento", mas a expectativa é regularizar a situação "no prazo mais curto possível". Procurada, a Parmalat não se pronunciou.
Produtores que fornecem leite diretamente para a empresa não foram afetados pela medida, mas fornecedores indiretos, como cooperativas, sofrem atraso nos pagamentos, segundo o presidente da Comissão Nacional de Pecuária Leiteira da CNA (Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil), Rodrigo Sant'anna Alvim.
A região mais afetada é o Rio de Janeiro, onde a Parmalat tem unidade em Itaperuna. O pagamento das 11 cooperativas que fornecem leite à empresa deveria ter sido feito no dia 15 deste mês, mas não aconteceu. Na região, a Parmalat e as cooperativas buscam uma solução para regularizar os pagamentos, segundo o presidente da Federação de Agricultura do Estado do Rio de Janeiro (Faerj), Rodolfo Tavares. Ele explica que uma alternativa para fazer os pagamentos seria a emissão de nota promissória rural (NPR), no valor de R$ 2,3 milhões, pela Parmalat em favor das cooperativas. A NPR seria avalizada pela Parmalat e endossada pelas cooperativas junto ao Banco do Brasil, que faria a operação. Conforme Tavares, o BB decide até amanhã se fará a operação.
Segundo Tavares, se a operação com NPR não for viabilizada, a empresa deverá pagar com recursos próprios. "A Parmalat deu sinalização de que caso a operação não seja possível, usará recursos próprios para pagar os fornecedores semana que vem". Tavares, que representa as cooperativas na negociação, disse que a situação preocupa porque a empresa processa 200 milhões de litros por ano dos 480 milhões produzidos no estado.
Em algumas regiões do Rio de Janeiro, a dependência das cooperativas em relação à Parmalat é forte. A Cooperativa Agropecuária de Itaperuna (Capil), por exemplo, fornece leite via dutos para a fábrica da Parmalat. Uma fonte da área financeira da cooperativa disse que, devido ao atraso nos pagamento, foram utilizadas "reservas" da Capil para pagar os produtores. A fonte disse que a Parmalat informou que o pagamento deve ser regularizado na semana que vem.
Com nove fábricas no Brasil e uma captação de cerca de 1,2 bilhão de litros de leite no país, atrás apenas da Nestlé, a Parmalat Brasil registrou prejuízo de R$ 79,9 milhões de janeiro a setembro deste ano, 54,2% a menos do que as perdas apuradas em igual período de 2002. De acordo com a S&P, a Parmalat Finanziaria deve a bancos cerca de € 1,2 bilhão, e não recuperou um investimento de US$ 590 milhões em um fundo de investimentos, o Epicurum.
A situação da companhia italiana preocupa o setor pelos impactos que poderia ter no mercado. Para Alvim, a saída da empresa do mercado poderia gerar pressão sobre os preços do leite. O presidente da Leite Brasil, Jorge Rubez, não acredita que a empresa deixará de captar leite. Mas, caso isso ocorra, a produção será absorvida por outras empresas, afirmou.
Uma fonte do setor disse que cooperativas e produtores que fornecem para a Parmalat já começam a oferecer leite a outros laticínios temendo pela situação da empresa.
Fonte: Valor On Line (por Alda do Amaral Rocha), adaptado por Equipe MilkPoint
Parmalat atrasa pagamentos e coloca cooperativas em alerta
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