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MilkPoint Experts: covid-19 convida os modelos de negócio a se reinventarem

GIRO DE NOTÍCIAS

EM 12/08/2020

12 MIN DE LEITURA

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Cinco meses de quarentena devido à covid-19 se passaram e o mundo continua rodeado de incertezas. No setor de lácteos não é diferente. Já vimos diversas reviravoltas, preços no supermercado e pagos aos produtores caindo e subindo, indústrias operando com estoques ora lotados, ora vazios, food service ainda fechado em vários lugares, uma verdadeira “corda-bamba”.

Diversas questões ecoam: quando tudo se “normalizará”? Quais as previsões no longo prazo? Por que alguns mercados internacionais não sofreram tanto? Qual o real impacto do auxílio governamental no consumo? Qual o cenário para os próximos meses?

Para trazer um pouco de luz a esses questionamentos, foi realizado no dia 05 de agosto o segundo MilkPoint Experts com foco em mercado, evento totalmente online e gratuito com oferecimento da bioMérieux.

Para Mikael Quialheiro – Gerente de Desenvolvimento de Negócios da Nielsen, o mercado de consumo virou de ponta cabeça. “Em um primeiro momento, as pessoas estavam preocupadas com a saúde e investiram na compra de remédios preventivos. Em um segundo momento, quando a doença estava chegando no país, as pessoas focaram nas suas despensas. Na sequência, se prepararam para a quarentena e por fim, chegamos ao momento atual, marcado pela vida restrita”, disse.

Mikael comentou que entre os canais, o varejo moderno foi o que mais se destacou já que ele apresenta uma melhor estrutura para lidar com momentos de crise. Também, acrescentou que na busca por estoques, o hiper voltou a ter relevância.

“As pessoas começaram a cozinhar mais em casa e, por isso, alimentos frescos e industrializados foram bastante procurados. Na cesta de lácteos, o crescimento foi generalizado, com destaque para o creme de leite e o requeijão, devido aos preparos dentro do lar. No geral, o saldo foi positivo como um todo, mesmo com a queda na procura por iogurtes e petit suisse. Quando comparamos com o ano passado, a performance dos lácteos foi bem melhor”.

Ele apontou algumas tendências que emergiram:

  • Aumento de compras online, muito acima do esperado;
  • Aumento das refeições dentro de casa;
  • Redução nas idas aos supermercados.

Com relação às vendas online, o consumidor já é bastante adepto em algumas categorias, como entretenimento e turismo. Na sequência, bens duráveis, bens não duráveis e por último, perecíveis. “As pessoas têm receio de comprar alimentos perecíveis online e é a última categoria a ter uma adesão mais forte, porém, com a crise, também houve uma maior procura. Vale destacar que o consumidor experimenta a compra online, mas ainda mixa com as lojas físicas (movimento chamado de fisital) e se mostra mais animado com a compra online quando há alguma promoção especial”.

Daqui para frente, Mikael enxerga um cenário bem desafiador e de forte retração por conta do bolso mais apertado do consumidor. “Como os canais modernos de rede foram privilegiados nessa crise, há uma maior disputa pela gondola. As marcas precisam estar ligadas para a nova dinâmica de consumo e adaptar os produtos a isso. Se um produto não é comprado agora que o consumidor está indo menos vezes ao ponto de venda, ele tende a perder volume. Esse momento de compra ficou ainda mais importante do que antes, e se formos lembrados, o prêmio é maior que antigamente”.

Celso Toledo, diretor de macroeconomia da LCA, abordou a quantificação do efeito da injeção de dinheiro no consumo de alimentos e não deixou de ressaltar que um verdadeiro Tsunami está impactando o mundo inteiro e que o nome do jogo é incerteza. “Nunca se viu, pelo menos na história registrada, uma recessão tão sincronizada e injeções de estímulos tão concentradas no tempo e em escala tão abrangente de uma só vez. Estamos lidando com algo novo. Como a maioria dos países está funcionado com estímulos, a maior dúvida é o que acontecerá após eles”, opinou. Ele disse que normalmente os impactos indiretos das recessões são maiores que os impactos diretos, ainda mais com um evento de escala global. Também, que o Brasil entrou fragilizado na crise e vai sair mais ainda do ponto de vista macroeconômico.

“Não conseguimos medir incertezas diretamente, mas uma possível maneira, é interpretar o teor do noticiário econômico. Tem um indicador que usamos que está oscilando perto do pico histórico. Uma forma mais direta e intuitiva, é o grau de concordância entre os economistas. Incerteza elevada não significa que as coisas podem dar erradas, podem dar certo também, mas estamos vendo as pessoas perdidas (muito mais do que o normal) e elas têm razão para isso. O vírus ainda gera muitas dúvidas e não sabemos quais serão os efeitos dessa montanha de dinheiro em países menos maduros”.

Para Celso, do fundo do poço em que nos encontrávamos em abril comparado com agora, a economia apresentou uma recuperação expressiva, mas ainda temos um hiato (de 5%, pensando em uma escala global média), que precisa ser fechado, afinal, essa será a segunda maior recessão dos últimos 150 anos.

“Mas, nesse mundo de incertezas, precisamos de algumas premissas. Prevemos que em média a renda agregada deve permanecer relativamente inalterada, cairá um pouco em 2020 e subirá ligeiramente em 2021. Por mais que os governos se esforcem para atenuar o ciclo, não conseguirão atenuá-lo dentro desses períodos. Em particular, o que chama a atenção, é que a renda está crescendo muito por conta dos estímulos, e apesar deles, a gente terá uma “ressaquinha” encomendada. Isso, se a população não tiver novos estímulos”.

Traduzindo para a cadeia alimentícia com a ressalva de que é difícil fazer generalizações porque o setor é heterogêneo e olhando para os ciclos passados, normalmente ela tende a oscilar de forma menos agressiva em uma recessão. Celso disse que há uma desconfiança de que algumas alavancas têm impactado esse setor:

  • O efeito do impacto do auxílio para as camadas mais vulneráveis (principalmente se duas pessoas de uma mesma família o receberam, por exemplo) e;
  • Um outro efeito que exacerba um ciclo que tipicamente tende a ser mais atenuado no setor de alimentos referente às classes mais abastardadas. Elas estão mudando os hábitos já que não têm como gastar dinheiro de outra forma, prezando por conveniência e consumindo bens de valores mais elevados.

“Para concluir, destaco que é preciso ter cuidado extremo na hora de extrapolar essas tendências. O cenário global, apesar das ‘farras’ na bolsa, ainda está incerto, lembrando que o Brasil é uma peça frágil no mundo. Apesar das mudanças de hábitos, quando a situação se normalizar, as pessoas voltarão a investir em outras coisas, como viagens, direcionando o valor que utilizam hoje para os alimentos para outras categorias”.

De acordo com Andres Padilla, analista do Rabobank, 2020 iniciou de uma maneira bastante incerta e alguns componentes já geravam incerteza, como as eleições americanas e as questões geopolíticas.  

“As quarentenas chegaram no pior momento para vários produtores de leite e acabamos vendo cenas tristes, como nos EUA por exemplo, com produtores tendo que jogar fora suas produções pois algumas cooperativas passaram a comprar menos leite de um dia para o outro. Então, com isso, temos uma projeção de aumento de estoques – principalmente na Europa – devido à queda no processamento e no consumo final, lembrando que nos EUA, assim como na Europa, os governos se mobilizaram de maneira forte para compensar os produtores. Nos EUA, houve um auxílio financeiro para vários produtores e na Europa, foram acionados os mecanismos de compra, nivelando os preços e amenizando a queda deles no início de quarentena”.

Um outro grande ponto apresentado e já citado nessa matéria anteriormente foram os estímulos recordes, inclusive, nos países emergentes. “O auxílio emergencial trouxe uma rápida recuperação da renda e uma estabilização no consumo de alimentos, fato que favoreceu o setor lácteo. Com relação a bares e restaurantes, acho que será difícil voltarem aos mesmos patamares pré-pandemia, a não ser que tenhamos uma vacina ou o fim da pandemia. No início do isolamento foi visto uma explosão de consumo nos supermercados, o que ajudou os lácteos, já que cresceram as refeições no lar, como o café da manhã. A dúvida é como será o comportamento dos consumidores com o fim do auxílio”.

Padilla pontuou que por enquanto a demanda global está se sustentando, mas, que há grandes incertezas. “Houve um aumento das exportações de lácteos para a China nos 5 primeiros meses do ano, mas há dúvidas se o país está aproveitando os preços para fazer estoques estrategicamente ou se de fato houve melhora no consumo e demanda. Dado os conflitos geopolíticos, a China tem sinalizado também um interesse na produção de leite, o que pode diminuir a dependência das importações. Acredito que os mercados internacionais manterão uma certa estabilidade e será difícil voltar aos preços do final de 2019. A fortaleza da demanda em 2021 é a grande incerteza, tudo dependerá da recuperação da economia e do que ocorrerá com o vírus”.

Sobre o efeito no food service, Roberto Denuzzo, da RDenuzzo Consultoria, disse que o setor está no olho do furacão e sofrendo bastante com tudo o que está acontecendo. Para o especialista, o food service será completamente diferente pós pandemia e no Brasil, aquele modelo antes da pandemia não existe mais. Ao mesmo tempo, veremos um modelo que vai nascer do movimento que o consumidor vem fazendo.

“Em um primeiro momento precisamos entender o cenário pré-pandemia. O food service já estava demandando cuidados e isso é importante para compreendermos a dinâmica do que está acontecendo. Cinco meses após a pandemia, a criatividade imperou e com certeza alguns players desaparecerão ou não retornarão na mesma intensidade anterior. O que notamos, é a reinvenção deles, em novos formatos e até novos players”.

Denuzzo exemplificou que os bares com aglomerações e os restaurantes por quilo provavelmente precisão fazer uma releitura dos seus negócios, assim como, estabelecimentos que vendem alimentos em eventos, como rodeios, jogos de futebol, corrida de fórmula 1, entre outros.

“Porém, já vimos algumas redes com resultados melhores que o ano passado, como a Domino´s. A pandemia foi uma ótima oportunidade para eles e a indústria tem que ficar de olho nisso porque esses restaurantes estão comprando mais insumos. Devemos ficar atentos e não surfar na onda daquilo que está fadado ao insucesso, o atendimento ao food service pelas indústrias precisa ser reinventado. Restaurantes pequenos, que não possuem salão e não têm altos custos, apresentam uma resiliência enorme à crise. Eles geralmente possuem uma cozinha especializada, bons funcionários e normalmente ficam em um bom local de consumo para delivery, podendo ser considerados exemplos de sucesso. Vale acrescentar que modelos novos estão aparecendo a uma velocidade estonteante”.

Com a reabertura dos hotéis, o café da manhã passou a ser terceirizado, com entrega de kits nos quartos dos hóspedes. Também, condomínios de luxo estão convidando cozinheiros para atuarem na área comum – preparando churrascos e pizzas – e na sequência, entregando as refeições nas casas dos moradores. “Além desses modelos, estamos vendo ‘lojas dentro de lojas’, casos em que um restaurante faz parceria com um supermercado (normalmente estabelecimentos regionais) e o consumidor além de comprar produtos, leva para casa uma refeição pronta. Enxergo tudo isso como uma grande oportunidade para o setor de laticínios”.

Abordando o tema “Wrap up: o mercado de leite e derivados hoje no Brasil, da produção ao varejo – possíveis cenários para os próximos meses de 2020”, Valter Galan – sócio do MilkPoint Mercado, disse que hoje temos menos leite no mercado por conta da diminuição das importações e o novo mix de gastos privilegiou os alimentos devido às alterações nos hábitos de consumo e o impacto do auxílio emergencial.

“Os gastos com combustíveis e vestuário, por exemplo, diminuíram, mas, supermercados e alimentos tiveram variação positiva. Não é à toa que o volume de vendas do leite UHT, de janeiro a junho, foi de 9 a 10% maior, comparado a 2019, e a cesta de lácteos, comparando o mesmo período, foi 5,3% maior”.

E o que pode acontecer no segundo semestre?

Valter comentou que a produção começou o semestre estimulada, com preços elevados, o que melhora a perspectiva de rentabilidade. “Saímos de um cenário desfavorável, para outro bastante favorável. A receita menos custo de ração (RMCR – R$/vaca/dia), passou de um semestre bastante complicado ao produtor para outro de estímulo à produção, a RMCR subiu bastante, bem mais que em 2019, o que deve se manter pelo menos até setembro. Do ponto de vista da produção, o segundo semestre mostra estímulo na produção, diferente do primeiro. Com os preços mais altos no mercado brasileiro, as importações devem aumentar no 2º semestre devido ao câmbio e relação de preços. Com isso, haverá uma disponibilidade maior de lácteos no mercado”.

Assim, com a maior produção e a tendência maior de importação, também aumenta a disponibilidade per capita. “Porém, considera-se que em algum momento do 2º semestre (set/out), o auxílio emergencial poderá ser reduzido, o que aumenta a exposição do setor à realidade econômica das projeções de PIB de mercado”. Assim, Valter apresentou dois possíveis cenários.

1) O auxílio será distribuído até setembro;

2) O auxílio continuará até pelo menos dezembro.

“Pensando nessas duas hipóteses, os preços aos produtores no cenário 1 provavelmente sofrerão uma queda brusca já que a demanda diminuirá com a retirada do auxílio. Já no 2, os preços tendem a ter um ‘soft landing’, uma queda mais suave, já que também temos que considerar o aumento da produção no final do ano com as safras de MG e SP. Esses dois casos também se refletem na rentabilidade ao produtor. Já para o início de 2021, será a queda no preço do 2º semestre de 2020 que determinará o incentivo à produção no início do ano vindouro”, finalizou.

O evento também contou com a apresentação de Diana Sánchez, Gerente de Marketing das Américas de Lácteos da bioMérieux. Ela mostrou as soluções oferecidas pela empresa para a indústria láctea e divulgou depoimentos de clientes como Chobani, Noosa e Danone. “Nesse momento, os departamentos de qualidade se tornam estratégicos e passam a tomar decisões importantes. As soluções por eles apresentadas impactam não apenas nas questões de produção, mas também, na logística e departamento financeiro”.

Debate final

O final do encontro contou com um debate entre os palestrantes e o CEO e moderador do evento, Marcelo Pereira de Carvalho. Dúvidas dos ouvintes foram expostas. Denuzzo acredita que quando sairmos dessa situação, a realidade vai se impor, com alta taxa de desemprego e endividamento do país. Para ele, a situação também está contribuindo com mudanças na infraestrutura logística, com a criação de redes de distribuição interessantes, inclusive, para produtos que exigem resfriamento, como comida japonesa e laticínios.

Mikael reforçou que todas as pessoas sairão dessa crise com outro comportamento e o setor que capitalizar esse movimento será vencedor. “Algumas coisas já vinham acontecendo, como as compras online nos supermercados, e com a pandemia, esse hábito foi acelerado. As refeições no lar provavelmente continuarão sendo feitas mescladas com atividades que já eram rotineiras.

Celso esclareceu que alguns indicadores apontam que talvez o auxílio emergencial não tenha sido totalmente utilizado por aqueles que o receberam e parte dele pode ter sido poupado, o que pode ajudar na economia no final do ano. “O que tenho certeza é que muitas mudanças vieram para ficar, pois se mostraram melhores do que antes”.

Quer assistir tudo o que rolou no evento? Acesse aqui > https://www.milkpoint.com.br/experts-mercado-lp/

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