O boletim Milk Price Survey é feito com base em dados fornecidos por países membros da Dairy Outlook Information Network, da FAO. A agência observa, em seu boletim, que as cotações são apenas preços indicativos, isto é, "podem refletir diferenças de preços dentro de um país, bem como flutuações de preços e de câmbio durante o período do levantamento". Os dados relativos ao Brasil têm base em levantamento mensal da Federação de Agricultura do Estados de São Paulo (Faesp).
A competitividade da produção brasileira de leite é uma das explicações para o desempenho dos preços, mas a concentração do mercado e o baixo poder aquisitivo da população também são fatores que restringem os valores, explicam analistas e produtores.
O analista da AEX Consultoria, Antonio Xavier, observou que o Brasil tem custos de produção menores que o de outros países porque é beneficiado pelo seu clima. O gado, criado a pasto predominantemente, recebe suplementação alimentar na seca. Outra vantagem do Brasil, segundo Xavier, é o baixo custo da terra, já que ainda existem áreas a serem exploradas, diferentemente de outros países produtores também competitivos, como Uruguai, Argentina e Nova Zelândia.
Para o presidente da Leite Brasil, Jorge Rubez , mudanças no mercado e nos hábitos de consumo pressionam as cotações no país. Ele explicou que, há cerca de dez anos, os preços ao produtor eram balizados pelo sistema cooperativo, que captava 70% da produção nacional. Hoje, após o avanço de grandes multinacionais como Nestlé e Parmalat no segmento, a captação pelas cooperativas corresponde a 40% da produção. "Há poucos compradores de peso no mercado de leite", considerou.
Rubez apontou ainda o sucesso do leite longa vida como um dos fatores de pressão. "A padaria foi substituída pelo supermercado, que passou a formar preços".
Há também um aspecto perverso que explica esse cenário para as cotações: a baixa renda da população que restringe a valorização do leite. "O preço é baixo porque [o produtor] precisa vender e o poder aquisitivo é baixo", argumentou Xavier.
Uma saída para aproveitar essa vantagem competitiva é a exportação de produtos lácteos, dizem os analistas. A receita com as exportações cresceu em relação ao ano passado, mas ainda é baixa. Entre janeiro e outubro deste ano, as vendas externas de leite em pó, leite condensado, queijos, manteiga, iogurte e cremes somaram US$ 33,9 milhões, segundo dados da Secex (Secretaria de Comércio Exterior) compilados pela Scot Consultoria. No mesmo período de 2002, atingiram US$ 32 milhões.
Segundo o analista da Scot, Maurício Nogueira, o Brasil tem um potencial grande de crescimento no mercado internacional. Considerando a recomendação da FAO, segundo a qual cada pessoa deveria consumir 150 litros de leite por ano, Nogueira estimou um potencial de 330 bilhões de litros/ano. Hoje, o consumo per capita é de 97 litros por ano.

Fonte: Valor On Line (por Alda do Amaral Rocha), adaptado por Equipe MilkPoint
